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Apesar das críticas de Lutero à Igreja e dos ataques aos seus representantes, há um

certo consenso entre os autores de que Lutero não tinha como objetivo destruí-la e nem

mesmo separar-se dela: “A última coisa na vida que Lutero queria fazer era começar uma

nova igreja. Ele não era um inovador, mas um reformador” (GEORGE, 1993, p. 87). Apesar

de reconhecer os erros e abusos, a Igreja, enquanto instituição eclesial, não foi por ele

colocada em questão. De acordo com Marc Lienhard (1998, p. 22), a atenção de que o culto e

a Igreja gozavam na Alemanha não chegava a impressionar os observadores estrangeiros. A 69

visão de Lutero era, então, não a de que a Igreja deveria ser destruída, mas a que ela realmente

precisava de uma reforma:

Desde o início, ou seja, já com a afixação das teses escritas por Lutero na Igreja de Wittemberg, seu objetivo não se mostra outro senão o de apresentar os erros existentes na Igreja visando combatê-los. Portanto, se seu objetivo era combater os erros e não a Igreja, não havia razão nenhuma para que, tratado o assunto cuidadosamente, ele não pudesse continuar a viver no seio da Igreja Romana. (GREN, 1984, p. 136).

Lucien Febvre (1976, p. 64) questiona essa posição, entendendo que não era intenção

inicial de Lutero uma reforma na Igreja: “Reforma? Tratava-se na verdade, para Lutero, em

trazer uma ou algumas modificações à ordem religiosa existente em seu tempo”. Afinal, o que

importava ao “Lutero de 1505 a 1515” não era a Reforma da Igreja, mas sim ele próprio, sua

alma e a conquista de sua salvação (Ibid., p. 65). Sendo assim, Lutero, ao buscar responder

suas angústias e com o conhecimento que obtém das Escrituras, percebe que a Igreja, em sua

estrutura e práticas, não estava de acordo com o que julgava correto; entretanto, seu desejo

não foi radical no sentido de acabar com essa Igreja e mesmo com a estrutura do culto.

“Reforma eclesiástica? Se se quiser. Reforma religiosa? É a única que conta... [...] Um

reformador? Sim. Da vida interior” (Ibid., p. 67).

Dessa maneira, Lutero tenta alterar a atual situação que, na sua visão, não

correspondia ao que deveria ser a Igreja. Entretanto, ele não tem como objetivo inicial criar

uma nova igreja, demonstrando em alguns momentos, inclusive, uma atitude conservadora em

relação à instituição:

No princípio, Lutero não entrou em disputa com o papa, a hierarquia ou a Igreja e nunca perdeu o seu sentido conservador duma ordem encarnada nas instituições. Em muitos aspectos provou ser um revolucionário dos mais relutantes, nunca desejando abandonar a tradição, a menos que a sua leitura das Escrituras a tal o obrigasse. (ELTON, 1982, p. 15).

Lutero, portanto, não pensava inicialmente em causar um cisma na Igreja; aliás, não é

igreja nascesse como conseqüência de todo esse movimento da Reforma. No início, até

mesmo Lutero questiona o fato de alguns adeptos se chamarem por “luteranos”. Timothy

George (1993, p. 55) resgata essa fala de Lutero:

A primeira coisa que peço é que as pessoas não façam uso de meu nome e não se chamem luteranas, mas cristãs. Que é Lutero? O ensino não é meu. Nem fui crucificado por ninguém. [...] como eu miserável saco fétido de larvas que sou, cheguei ao ponto em que as pessoas chamam os filhos de Cristo por meu perverso nome?

Contudo, após o rompimento com a Igreja oficial, Lutero se vê obrigado a organizar

uma nova igreja. Segundo Jean Boisset (1971, p. 33), entre os motivos que impulsionaram a

criação de uma nova igreja, estão: o efeito da Guerra dos Camponeses e a dissidência ocorrida

sobre seus escritos em Wittenberg durante sua permanência em Wartburgo. Sendo assim, “ele

se viu na contingência de organizar uma Igreja a fim de evitar, na medida do possível, a

proliferação das inspirações errôneas e dos credos”. Essa posição de Lutero, ressalta o autor,

não demonstra seu abandono ou questionamento de sua posição sobre o sacerdócio universal,

mas essa seria a causa que o teria compelido na organização da nova igreja: a “interpretação –

a seu ver corrompida – que esses ‘inspirados’, perfeitamente conhecedores da Bíblia,

atribuíam à sua mensagem” (Ibid.).

A visão de Lutero sobre em que se constituía, ou deveria se constituir, a Igreja recebeu

influências de Santo Agostinho, sustentando a afirmação de que a verdadeira Igreja é

invisível, sendo conhecida somente por Deus e composta por um grupo de membros

predestinados. De acordo com Timothy George (1993, p. 88), pode-se perceber o caráter

essencialmente espiritual e não institucional da igreja na visão de Lutero, que preferia usar

para falar da igreja as palavras Gemeine ou Versammlung, que significam, respectivamente,

comunidade e assembléia: “para ele, a verdadeira igreja era o povo de Deus, a comunidade de

cristãos ou, como diz o Credo dos Apóstolos, a comunhão dos santos”, sendo a igreja visível

enquanto mistério era pouco esclarecido pela teologia do fim da Idade Média (LIENHARD,

1998, p. 145).

A Igreja deveria ter como base a Palavra de Deus e ser gerida por ela; se assim não

fosse, ou seja, se a Igreja não tivesse como centro as Escrituras Sagradas, ela não seria mais

do que uma comunidade qualquer.

É dessa idéia de Igreja, mais como uma congregatio fidelium, que resulta a doutrina do

sacerdócio de todos os crentes na qual todos os cristãos seriam, ao mesmo tempo, sacerdotes

uns dos outros e todos pertenceriam ao estado espiritual, não devendo haver separação e

diferença entre papas, bispos, padres e monges, até então chamados de estado espiritual, e

príncipes, senhores, artesão e lavradores chamados estado temporal. “Que são, pois, os

sacerdotes e bispos? Resposta: Seu regime não é de autoridade ou poder, mas serviço e

função. Pois não são superiores ou melhores que outros cristãos” (OSel 6, p. 106). Lutero

rompe “decisivamente com a divisão tradicional da igreja em duas classes, clero e laicato.

Todo cristão é um sacerdote em virtude de seu batismo” (GEORGE, 1993, p. 96).

Sendo assim, com esse entendimento e visão de igreja, Lutero não somente ataca os

poderes jurisdicionais da Igreja Católica, como acaba defendendo às autoridades seculares o

direito de exercer poderes sobre a Igreja. E essa se torna outra característica relevante a se

destacar: o caráter estatal que posteriormente Lutero atribui à nova Igreja que se forma, sem

com isto causar “danos à Igreja genuína, porque ela consiste num puro reino espiritual, mas

com toda a clareza coloca a Igreja visível sob o controle do príncipe devotado à religião”

(SKINNER, 1996, p. 297).

Essa questão pode ser melhor compreendida, ao se entender o que era o Estado para

Lutero e o caráter cristão que o Estado assumia naquele período, questões que serão

intervirem na Igreja, quando isso se mostrasse necessário, para guardá-la e protegê-la. Caberia

a elas, também, a responsabilidade no auxílio para reformá-la:

[...] se a igreja tivesse de ser reformada, as autoridades governantes tinham de desempenhar um papel. Lutero referiu-se ao príncipe como um Notbischof, um bispo de emergência. Ao ser instituída a visitação, o príncipe territorial assumiu um papel maior nos negócios da igreja. Por fim, uma rede de igrejas estatais emergiu na Alemanha. Essa medida recebeu sanção legal pela Paz de Augsburgo (1555), que reconheceu que a religião do príncipe determinaria a de seus súditos. (GEORGE, p. 98).

Assim, o Estado teria uma função apostólica de colaboração íntima com a Igreja e os

dois seriam igualmente responsáveis pelo reino de Deus (CESCA, 1998, p. 54-5). A Igreja, ao

lado do Estado, fazem parte do que Lutero chamou de “a doutrina dos dois reinos”, na qual

ele procurou definir funções específicas para cada uma dessas instâncias definindo-as,

respectivamente, como a mão direita e esquerda de Deus.

Essa doutrina, sobre o que envolve a Igreja, estaria na base do pensamento político de

Lutero que, em sua origem, teria pensado a Igreja correspondendo exclusivamente à ordem

sobrenatural, visto que o “justo viverá pela fé” (Rom. 1:7). Enquanto tal, ela tem origem

divina e, por não ser uma instituição, não necessitaria de organização nem hierarquia.

Contudo, Deus a teria criado como instituição para não abandonar todos os homens à

corrupção da ordem natural, sendo assim, “a Igreja, inserida no mundo sensível, necessita do

estado e este deve encarregar-se de sua organização e manutenção. A Igreja é uma questão de

Estado” (CESCA, 1998, p. 55-6).

Dessa maneira, de acordo com autores como Quentin Skinner (1996, p. 297), Lutero

estaria disposto a admitir um sistema de igrejas nacionais independentes, nas quais o príncipe

deteria o direito de nomear e demitir sacerdotes e bispos, controlar e dispor da propriedade

eclesial, afinal, o poder temporal tinha sido ordenado por Deus e as autoridades tinham a

E apesar da visão de que todos poderiam participar do culto e dos sacramentos e de

que se encontram no mesmo estado, havia uma variedade de funções e ofícios que deveriam

ser exercidos por pessoas específicas, como o de pastor e mestre. Todos teriam o direito de

exercer essa função, mas deveriam ser escolhidas pessoas que desempenhassem esses papéis

no lugar de todas.