aspectos da economia cearense de importância para o presente estudo. Conforme o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) e a Secretaria do Planejamento e Gestão (SEPLAG) (2007):
Falar, hoje, em agricultura cearense é tratar de vasto conjunto de atores que estabelecem relações intra e intersetoriais, onde a agricultura não é mais tratada simplesmente como fornecedora e consumidora de alimentos “in natura”, mas também como uma atividade integrada com os setores de indústria e de serviços. (p. 41).
No Ceará, o setor agropecuário mostra influência nas indústrias de alimentos e bebidas, no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), bem como no segmento das exportações, ou seja, em boa parte do desempenho do comércio e da indústria cearense. Para exemplificar, esses dois índices tiveram aumento em 2012 por reflexo da quebra da safra de grãos e de outras culturas, provocando a elevação dos preços de alimentação e bebidas (IPECE, 2012).
A abertura de mercado, reestruturação do governo, transformações políticas e sociais nas áreas urbana e rural levaram a modificações que impactaram fortemente no agronegócio cearense, voltando sua produção às demandas do mercado nacional e internacional. Por meio de um padrão produtivo e tecnológico mais dinâmico, “a agricultura cearense vem otimizando seus recursos naturais organizando as atividades em cadeias produtivas” (SULIANO; MAGALHÃES; SOARES, 2009, p. 9, grifos nossos).
Dessa forma, percebe-se que entre 1985 e 2002, houve forte influência dos índices pluviométricos no Produto Interno Bruto (PIB) do Ceará (Gráfico 1). Destaca- se, ainda, a menor importância dos índices pluviométricos na produção da agricultura irrigada ano após ano (Gráfico 2).
– Taxa de crescimento do PIB total x precipitação, Ceará, 1986 – 2007.
Fonte: IBGE, adaptado por SULIANO; MAGALHÃES; SOARES (2009, p. 11).
Gráfico 2 – Exportação de frutas x precipitação, Ceará, 1989 – 2007
Fonte: SECEX/MDIC, adaptado por SULIANO; MAGALHÃES; SOARES (2009, p. 11).
Destaca-se a relevância econômica do agronegócio nas exportações cearenses, evidenciada no Gráfico 3. Conforme referem o IPECE e a SEPLAG (2007):
Uma evidência da importância do agronegócio na economia do Ceará é a participação dos seus produtos nas exportações do Estado, que em 2006 obtiveram uma participação de 50,7%, percentual superior ao obtido
pelas exportações do agronegócio brasileiro, que atingiram a marca dos
42,0% (FILHO,2004). Com relação ao agronegócio da agricultura irrigada, as exportações de frutas e hortaliças apresentam um crescimento gradativo e sustentável na pauta de exportação do Ceará, tendo crescido 38,0% em 2003 e 22,6% em 2004. Em 2006, suas exportações somaram US$ 703,1 milhões (p. 18).
– Exportações do agronegócio cearense x exportações totais, Ceará, 1999 - 2006
Fonte: IPECE e SEPLAG (2007).
A exportação de frutas constitui produto de destaque para o Ceará, sendo, em 2014, o terceiro produto mais exportado (IPECE, 2014c), conforme se evidencia naTab_princ_prod_export_CE_2014 Tabela 1.
Tabela 1 – Principais produtos exportados pelo Ceará, 2014
Exportados US$ Participação %
Calçados e suas partes 27.715.517 23,29
Couros e peles 18.430.501 15,49
Frutas (exceto castanha de caju) 16.683.369 14,02
Combustíveis Minerais 13.323.885 11,20 Castanha de Caju 7.571.059 6,36 Máquinas e equipamentos 6.374.511 5,36 Preparações Alimentícias 5.656.206 4,75 Ceras vegetais 5.264.313 4,42 Lagosta 4.976.726 4,18 Têxteis 2.613.246 2,20 Demais produtos 10.404.002 8,74 Total 119.013.335 100,00
Fonte: Adaptada de IPECE (2014c).
As irregularidades climáticas cearenses causam oscilação da produção do setor agropecuário, dado que 90% das culturas de grãos são de feijão, arroz e milho, culturas não-irrigadas e, por isso, muito variáveis com as precipitações. Devido às
tonelada em 2011, como se pode observar no Gráfico 4 (IPECE, 2012, 2014b). Gráfico 4 – Produção de Grãos e Precipitação Pluviométrica, Ceará,
1995 a 2012
Fonte: IBGE/FUNCEME, adaptado por IPECE (2014b, p. 2).
Nos anos em que houve estiagem a produção de grãos caiu, mantendo relevante apenas a produção das culturas irrigadas, não permitindo retração tão importante da participação da agropecuária no PIB cearense. Um exemplo disso foi a queda na produção de grãos em 2012 para cerca de 50% da produção de 2011, enquanto esperava-se um aumento de 3% nas frutas, com destaque para a estimativa de crescimento de 41,9% na produção de melão e 31,94% para a de melancia (IPECE, 2012, p. 8).
Não por coincidência a maior vulnerabilidade da agricultura em relação às chuvas está na produção de grãos, [...] dado que são predominantemente produzidos pelo regime de sequeiro a partir dos pequenos produtores, enquanto a irrigação está mais relacionada com a fruticultura, conduzida em maior parte por produtores com maior nível de organização e com constituição de empresas (IPECE, 2014c, p. 2).
Há um cenário diferente para as culturas irrigadas no Ceará, com produção crescente, ano a ano, conforme Gráfico 5, sendo atribuído, segundo IPECE e SEPLAG (2007), à “incorporação de novas áreas antes ociosas, proporcionando o
Gráfico 5 – Evolução da produtividade, culturas irrigadas, Ceará, 1999-2006
Fonte: IBGE, adaptado por IPECE e SEPLAG (2007, p. 8).
Mais um ponto que se deve dar destaque é a taxa de aumento da agropecuária ano após ano no PIB do Ceará, embora oscilante, como mostra o IPECE (2011). Em 2013, houve taxa de crescimento de 2,61% (IPECE, 2014a) e em 2014 foram surpreendentes 65,07% (IPECE, 2015).
A ADECE destaca que, devido aos cinco anos de estiagem no Ceará, houve o deslocamento de empresas do agronegócio para o Rio Grande do Norte, onde há maior disponibilidade de água, causando aumento de 139,2% na exportação de frutas desse estado (ADECE, 2017). Esse aspecto demonstra uma característica do grande capital: a grande mobilidade, dado que esses investimentos estabelecem- se nos territórios até a exaustão dos bens naturais (PESSOA; RIGOTTO, 2012, p. 73).
Mesmo com cinco anos de estiagem, houve aumento da produção em 2017 em relação a 2016, conforme boletim divulgado pelo IPECE (2017, p. 6), o qual refere que a agropecuária teve crescimento de 15,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto os demais setores tiveram queda. Destaca-se o crescimento da produção de grãos e de frutas, como melão (21,72%) e melancia (26,85%), tidas como frutas para exportação:
A produção de frutas em 2017 indica bons resultados para quase todas as culturas, dentre as quais pode-se destacar o melão (21,72%) e a melancia
(26,86%), que apontam para a retomada do crescimento da produção.
Também há boas perspectivas para o aumento da produção de goiaba (16,74%), laranja (25,58%), mamão (22,33%) e maracujá (18,66%) (IPECE, 2017, p. 15).
Para o foco do estudo, deve-se considerar a importância econômica da mesorregião do Jaguaribe para a agropecuária cearense, sem considerar aspectos políticos e questões de disputa de poder, apontados por Ferreira, Ramos e Rosa (2006).
Nesse sentido, destacam-se fatores que fazem com que essa região seja tão relevante para a agropecuária cearense: melhores condições de produção pela maior estabilidade climática (no período analisado), incentivos governamentais, projetos de irrigação, maior assistência técnica, além de possuir maior população rural em idade ativa do estado. “Como medida para promover o desenvolvimento agrícola, o governo do Estado tem incentivado o cultivo em terras com potencialidades de irrigação (caso do Jaguaribe) ” (FERREIRA; RAMOS; ROSA, 2006, p. 523, grifos nossos).