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A hamartía é quase sempre interpretada como um erro irremediável. Para compreendermos sua inserção e significado no corpus da tragédia é inegável a importância do capítulo XIII, quando Aristóteles aborda a escolha da personagem para o melhor tipo de tragédia. Ele escolhe, para designar a personagem chave, o sujeito intermediário cuja desdita relaciona-se diretamente a um erro cometido91.

A hamartía seria também uma composição mista de ações92 e encontramos uma passagem relevante na Ética a Nicômaco citando quatro situações para definir o teor de culpabilidade de um agente: em primeiro lugar, os atos cometidos na ignorância e cujos resultados não poderiam ter sido previstos; em segundo, os atos cometidos na ignorância e que poderiam ter sido facilmente evitados porque eram previsíveis; em terceiro, os atos cometidos intencionalmente sob a influência de alguma paixão; e enfim, os erros cometidos por meio de um vício, por meio da maldade, da injustiça e da falta de caráter93.

Bremer cita cognatos para hamartía: aliteín, amplakeîn, sphállesthai, que possuem sentido negativo e são utilizados de maneira mais ou menos metafórica para designar erros, faltas ou crimes94. Assim, o estudo da hamartía careceria de elementos de comparação. Seria interessante, se possível, fazer um estudo da hamartía englobando os termos que apresentam similitudes e analogias evidentes, oferecendo uma dupla garantia de precisão e objetividade na análise do conceito e sua aplicação nas tragédias.

Deveras é significativo pensarmos a hamartía enquanto um erro por ignorância. O herói se confrontaria com um enigma ou fato que estaria fora do seu alcance desvendar. Essencialmente, a hamartía seria um ato involuntário cometido na

91

ARISTÓTELES, Cap. 13 – 1453ª, 7-22. 92

STINTON, 1975, Op. Cit., p. 254. 93

STINTON, 1975, Op. Cit., p. 230. São involuntárias as ações cometidas por ignorância. O potencial de involuntariedade da ação, contudo, é discutível quando mediado pela coação. Neste sentido, é atribuída maior importância ao fato da ação realmente ser cometida na ignorância para se configurar como hamartía 94

ignorância. Isto não implica na ausência de um caráter inteligente do herói, pois sua inteligência é inegável, o que se afirma é seu fracasso. O herói vê-se vítima de um erro que ele poderia ter evitado caso conhecesse todas as circunstâncias que envolviam a situação enfrentada por ele95. A falta cometida, embora realizada pelo herói e motivada por razões quase sempre honestas, apresenta conseqüências contrárias à sua vontade.

Desta maneira, embora ciente de que cometeu uma falta, o herói reconhece que errou involuntariamente, ou seja, sua obra decorreu de um desconhecimento cujos resultados eram imprevisíveis. Um ato deverá ser considerado voluntário quando depende do agente deliberar ou não a respeito do que deve fazer96, a ação é fruto de sua vontade. No caso das tragédias devemos levar em consideração que escolher não é tarefa fácil97 e depende muito do grau de consciência no ato de deliberar. Porém, um erro por ignorância pode ser voluntário, involuntário ou contravoluntário98.

Realizando uma breve revisão das definições apresentadas para a hamartía, podemos assumir algumas posições necessárias. Stinton lista algumas possibilidades a partir daqueles que o precederam: Adkins, por exemplo, frisa a importância da relação entre a hamartía e o aspecto ético da ação; Bywater a define como erro de julgamento; Humphry House relembra a rejeição por Aristóteles do sentido moral aplicado a hamartía99, pois a infelicidade do herói trágico não estaria condicionada a um caráter duvidoso, mas a um grave erro cometido, um erro de cálculo100. Mas, se a hamartía não

95

STINTON, 1975, Op. Cit., p. 226. 96

MUÑOZ, Alberto Alonso. Liberdade e Causalidade: ação, responsabilidade e metafísica em Aristóteles. São Paulo : Fapesp, 2002, p. 117-119.

97

É complicado determinar as circunstâncias de uma escolha, quais os benefícios independentes da vontade de quem escolhe.

98

MUNÕZ, 2002, Op. Cit., p. 122. A reação do agente perante os resultados imprevisíveis da própria ação, isto é, se ele se arrependeu ou não, se agiu coagido ou deliberadamente, são também fatores importantes para a interpretação da hamartía.

99

STINTON, 1975, Op. Cit., p. 226. 100

CARVALHO, Alfredo Leme Coelho de. Interpretação da Poética de Aristóteles. São José do Rio Preto : Editora Rio Pretense, 1998, pp 122-147.

se refere, a princípio, a um erro moral, poderia, no mínimo, incluí-lo101. Contudo, não podemos afirmar que nenhuma tragédia foi ocasionada por um erro moral, mesmo que a principal característica das melhores tragédias quase sempre se associe à sua ausência.

Philip W. Harsh, interpretando as definições de Bywater e Gudeman, definiu a hamartía como erro intelectual ou erro de julgamento e não lhe atribui uma falta ética no

sentido aristotélico do termo, nem mesmo a considerou fruto de uma fraqueza ou falta de caráter102. A hamartía seria uma falta de teor intelectual, cujos pormenores envolvem o pensamento, a interpretação e o conhecimento. Não obstante, Harsh não desconsiderou, em sua totalidade, o valor moral do conceito de “hamartánein” na tragédia103.

O erro de julgamento, cometido na ignorância, se expande à medida que os estudiosos avançam em suas investigações. Dawe, aproveitando-se da definição de Rostagni, também considera a hamartía como erro de julgamento e, segundo ele, esta definição tem enfrentado críticas imerecidas104. Para ele, o erro de julgamento pode ser responsabilidade do herói, seja por indução dos deuses – que o enganaram – ou mesmo mediado por um conflito onde existiria pouca ou nenhuma escolha105. Neste caso, poderíamos considerar que o erro de julgamento não seria da inteira responsabilidade do agente, mas sofreria influência dos deuses que o colocariam em uma situação tal que haveria pouca alternativa de escolha a ser feita. Somos propensos a pensar que o erro de julgamento como uma das possíveis definições para a hamartía, principalmente em se tratando dos acontecimentos trágicos representados nas tragédias.

A hamartía é imprescindível para o desencadeamento do processo trágico. O erro trágico ainda relaciona-se com intenções frustradas. E, segundo Aristóteles, o herói

101

STINTON, 1975, Op. Cit., p. 225. Teríamos, contudo, segurança se compreendermos a hamartía, como sinônimo de hamártema: um erro proveniente de uma ignorância inevitável; erro ou falha num sentido moral; atos movidos ou cometidos por agentes tomados por alguma paixão; qualquer defeito ou fraqueza. 102

HARSH, Philip Whaley. “Hamartia again”. Transactions and Prodedings of the American Philological

Association. (1974 - ), vol. 105. (1975), p. 51.

103

SAÏD, 1978, Op. Cit., p.19. 104

DAWE, 1968, Op. Cit., p. 90. 105

cai da felicidade para a infelicidade devido a uma hamartía. O efeito trágico estaria condicionado a esta ação contrária às expectativas e deve-se à ignorância de elementos cruciais para a interpretação dos eventos que compõem a trama. E mesmo que suas ações não sejam intencionais, o herói não fica livre de seu destino e nem tem sua suposta responsabilidade diminuída. Mas também precisamos ver a sua relação com a questão do azar ou simples falta de sorte. Carvalho, a respeito da presença da hamartía no cerne da tragédia, explicita que o irracional não precisa estar dentro do drama. Além disso, aponta que, apesar de Aristóteles negar a falta moral como um dos vieses da hamartía, Édipo não é um modelo de perfeição, ele é excessivo em tudo o que faz, é

excessivamente inteligente, irascível, impaciente, sempre adianta-se na tomada de decisões, imprudente.

Poderia ainda contribuir para a interpretação exclusivamente moral o fato de que Édipo, na tragédia sempre apontada como modelo por Aristóteles, tinha também um defeito moral: era impaciente e irascível. O certo é que os comentadores contemporâneos da Poética se dividem, no caso, em duas alas: a dos que consideram hamartía como simplesmente um erro de julgamento, e a dos que vêem nesse erro uma mescla de falha moral106.

A partir desta afirmativa, o sentido de hamartía aproxima-se do erro de julgamento proveniente de certo desconhecimento ou da ignorância. Embora seja uma falha mais intelectual que moral, enquanto negligência e cegueira, esflora o campo moral107. Mas não podemos nos limitar simplesmente ao erro de julgamento, já que também podemos lhe atribuir o sentido de erro intelectual108. Ora, conceito apreende a subjetividade da interpretação e teria relação direta com a inteligência e raciocínio arguto. Além disso, o erro de interpretação dependeria do uso que se faz do conhecimento e o alcance cognitivo do agente.

106

CARVALHO, Op. Cit., p. 140. 107

CARVALHO, Op. Cit., p. 142. Apud a Rostagni e Albeggiani, respectivamente. Neste aspecto, não é tarefa simples excluir-lhe o valor moral.

108

CARVALHO, Op. Cit., p. 141. A hamartía é assim compreendida como um passo em falso, um erro de interpretação, um mero erro de cálculo.

Contudo, a diferença entre o erro de julgamento e o erro de interpretação parece- nos quase imperceptível. Poderíamos associar o erro de julgamento ao raciocínio apressado e a má análise dos eventos e circunstâncias. O erro de interpretação associaria-se ao fato de que, talvez, fosse perfeitamente possível fazer a interpretação certa, ou que embora esta estivesse certa, a decisão fora equivocada. Poderíamos citar como exemplo o caso de Édipo. Ele interpretou corretamente o oráculo quando ouviu que mataria o pai e casaria com a mãe. Porém, ao decidir fugir, sua decisão como conseqüência do que ouvira não atingiu o objetivo que era evitar tais acontecimentos.

A vida humana é feita de alternâncias, e se os heróis são senhores de suas escolhas, não o são da sorte, cujas conseqüências são eles os primeiros a sofrer. Eles não são capazes de enxergar os resultados de seus atos. No mundo trágico estas conseqüências são a marca da condição humana e só os deuses escapam a elas. Na alternância entre a sorte e o domínio divino explica-se que o homem não pode penetrar no mistério da vontade divina e nem deve tentar fazê-lo.

Nesta perspectiva, a hamartía apresentaria quatro significados plausíveis: seria um erro devido à insuficiência de conhecimento - a respeito de circunstâncias fundamentais para a compreensão dos eventos que se apresentam ao herói – e que por isso culmina num erro por ignorância ou desconhecimento; um erro inevitável a partir da ignorância; ato consciente e intencional, mas não deliberado, tal como um ato cometido e motivado pela raiva ou pela paixão; seria um delito de caráter, de certa forma, vicioso109.

Uma ação por ignorância é, portanto, aquela em que o agente escolheria agir de outro modo se tivesse sido capaz de prever suas conseqüências e se tivesse podido apreender corretamente todas as particularidades relevantes de sua ação, desde que tal ignorância não seja, ela própria, resultado de uma ação voluntária dele110.

109

CAREL, Havi Hannah. “Moral and Epistemic Ambiguity in Oedipus Rex”. Janus Head, 9(1), NY, 97-115, 2006, p. 104. Cf., nota 13. Como Stinton, Havi Hannah Carel também apoiá-se em Butcher em suas considerações para hamartía.

110

Retornemos ao eixo que se apodera da ação por ignorância como a principal definição para a hamartía. As ações com conseqüências fatais realizam-se, ironicamente, no ápice da paixão e a partir da ignorância de elementos cruciais para a interpretação dos eventos em torno de um acontecimento enfrentado pelo herói trágico111. Esta insuficiência de conhecimento seria comparável à montagem de um quebra-cabeça com algumas peças faltando. A visualização da totalidade seria prejudicada pela ausência de elementos que o completariam. Contudo, mesmo a ignorância pode ser produzida por negligência ou imprudência do agente. Não poderíamos ignorar certo grau de culpabilidade do agente, mesmo em se tratando de uma ação involuntária112. Frisando melhor esta interpretação, podemos inferir que a hamartía provém do limitado conhecimento humano e que por isso estaria diretamente

ligada à capacidade cognitiva e intelectual113.

Alberto Alonso Munõz, a partir de Aristóteles na Ética a Nicômaco, elabora um esquema com detalhes essenciais à acepção de uma ação por ignorância. Precisamos, contudo, responder seis questionamentos para apreendermos as suas particularidades. Assim, precisamos saber: (1) quem está praticando a ação; (2) o que está fazendo; (3) sobre o que ou em quem está agindo; (4) com o que está fazendo, isto é, o instrumento; (5) com que finalidade; (6) de que maneira114.

Em alguns casos o agente pode até mesmo desconhecer o que está fazendo, percebendo-o diferentemente do que o fará posteriormente. Poderíamos citar,

111

Não podemos ignorar a importância da paixão na realização da ação do agente trágico. Veremos como estes elementos se intercalam na sua aplicação direta nas tragédias.

112

HARSH, 1975, Op. Cit., p. 53. 113

SAÏD, 1978, Op. Cit., p. 15. 114

MUNÕZ, 2002, Op. Cit., pp.123-124. Munõz cita os exemplos utilizados por Aristóteles para sustentar sua argumentação, mas tentaremos, se possível, utilizar este esquema para a compreensão da hamartía – enquanto ação involuntária ou contravoluntária - em três tragédias de Sófocles: As Traquínias, Antígona e

Édipo em Colono. Nossa hipótese nos parece viável porque o autor usa, literalmente, o exemplo de Édipo,

sustentado por Aristóteles, quando fala do erro por desconhecimento e ação por ignorância contravoluntária.

seguramente e por motivos óbvios: Édipo, pois ele desconhecia que, ao descobrir a identidade do assassino de Laio, descobriria a própria identidade. A finalidade da ação também pode ser imprecisa, pois poderíamos interpretá-la mais como ignorância a respeito das conseqüências do que das circunstâncias.

O mais importante é pensarmos “a ignorância do que o agente está fazendo e a ignorância concernente ao resultado da ação115.” Munõz, assim, nos apresenta dois tipos de ação que ele denominará “ação não-voluntária, praticada por ignorância: (a) ação involuntária, na qual as circunstâncias e conseqüências da ação diferem das previstas, mas não há arrependimento; (b) ação contravoluntária, na qual as circunstâncias e conseqüências da ação diferem das previstas, e há arrependimento116”.

Da argumentação de Munõz nascerá uma possibilidade interpretativa para a ação por ignorância que não seria simplesmente um ato involuntário, mas contravoluntário. Na ação contravoluntária, se o agente soubesse de detalhes pertinentes aos resultados de seu ato, ele não o teria realizado. Além disso, temos o arrependimento, de acordo com o resultado da ação contrária ao previsto, como sua norma117.

No entanto, faz sentido defender a idéia de que a hamartía não existe isoladamente, associando-a a outros conceitos com os quais ela teria algo em comum, tal como a áte, pois a hamartía freqüentemente associa-se à força da áte nas peças trágicas118. Esta interpretação representa um grande passo na análise do que seria a hamartía porque levanta questões pertinentes ao enredo trágico. Em primeiro lugar

porque as diferenças entre os conceitos não são tão profundas quanto parecem. Embora

115

MUNÕZ, 2002, Op. Cit., p. 125. 116

MUNÕZ, 2002, Op. Cit., p. 120. Uma ação, contravoluntária por ignorância é, portanto, aquela em que o agente age por ignorância e, em que, após sua realização, se arrepende. Trata-se de uma ação na qual há falha epistêmica quanto à previsão das circunstâncias e conseqüências e em que o agente, caso tivesse tido acesso epistêmico a elas, teria agido diferentemente. C.f., p. 126. Adaptação nossa.

117

MUNÕZ, 2002, Op. Cit., p. 414. Assim, em relação à ação contravoluntária seria possível abster o agente de responsabilidade

118

DAWE, 1968, Op. Cit., pp. 94-95. Concordamos que a argumentação carece de uma atenção mais detalhada, mas não nos propomos a fazê-lo porque utilizaremos o conceito apenas como um dos vieses para o estudo da hamartía.

o conceito não apareça em Aristóteles, existe uma estreita relação entre a áte e o sentido de ruína, destruição, desastre e azar119.

A linguagem poética trata da áte e da hamartía como conceitos ligados, porém, a hamartía aparece significativamente na poesia trágica, de maneira que a sua relevância

se tornou fundamental120. A hamartía seria uma decisão fatal cujos resultados apresentar-se-iam ao agente através do reconhecimento. O herói, ignorante da real situação que enfrentava, seria tomado de surpresa porque não contava com a sua própria ruína. Os heróis caem em desgraça porque falharam, e a tragédia versa sobre uma figura heróica que cai movido por forças que ele é incapaz de conter121. A tragédia descreve personagens que são, pelo menos parcialmente, responsáveis pela própria queda. O poeta trágico expõe a responsabilidade da personagem através das observações do coro ou de uma personagem secundária que interage com a personagem principal122.

O erro é considerado involuntário porque converge em direção oposta ao pretendido, e, mesmo que o herói estivesse buscando o bem, alcançaria o mal. Tudo deriva de uma escolha cujos resultados são imprevisíveis ou o contrário daquilo que foi calculado123. À primeira vista, as ações que se aproximam da hamartía e salientadas por Aristóteles são as que suscitam o terror e a piedade. O sofrimento do agente é essencial, senão não teríamos estes sentimentos em relação a ele. Assim, poderíamos considerar que o lamentável é a reviravolta da boa à má fortuna.

Tentaremos, portanto, compreender a natureza de uma falta que por ser trágica desperta a compaixão nos espectadores e também porque Aristóteles recorre a exemplos nas tragédias para ilustrar sua teoria, citando em particular Édipo Rei.

119

DAWE, 1968, Op. Cit., p. 95. 120

DAWE, 1968, Op. Cit., p.107. Na linguagem poética, a escolha de uma ou outra palavra dependeria mais do ponto de vista do poeta do que de alguma diferença substancial de sentido.

121

DAWE,1968, Op. Cit., pp. 93-94. Embora a falta trágica quase sempre se associe aos atos condenáveis no sentido da lei, da religião ou mesmo da moral, as ações do herói são conduzidas por seu próprio interesse, e quase sempre incorrendo em engano.

122

HARSH, 1975, Op. Cit., p. 48 123

Apesar da culpabilidade de Édipo ser motivo de debates acirrados, ele cometeu

homicídio porque foi agredido pelo condutor do veículo. É claro que sua reação foi extremamente violenta em virtude da afronta sofrida, mas este trecho não se encontra bem definido no texto de Sófocles, exceto pela narrativa do próprio Édipo. Ele não pretendia deliberadamente fazer o mal a um parente e não merece os próprios infortúnios, mas é culpado124 pelo crime de assassinato. Ele agira contra o próprio pai sem o saber. Em se tratando do incesto, o casamento em si significa a fatalidade em se casar por acaso e na ignorância com a própria mãe125. Segundo o relato do próprio Édipo sabemos que ao cometer um assassinato, motivado pelo conflito na trifurcação, ele pretendia defender-se. Alguém poderia defini-la como uma ação motivada pelo orgulho e fúria, mas não podemos negar que se tratou de uma autodefesa. Em relação ao incesto, ao casar-se com Jocasta, ele não poderia imaginar que esta era sua mãe verdadeira. Entre outras coisas, poderíamos afirmar que ele pretendia alcançar o bem e realizou o mal ao aceitar casar-se com ela como fruto de uma recompensa pela derrota da Esfinge.

Sófocles não menciona o termo hamartía em Édipo Rei diretamente, levando- nos a questionar o conceito, sua aplicação e seu significado no contexto geral da peça. Usa, decerto, alguns cognatos difíceis de serem identificados. A hamartía de Édipo que todos conhecem ressoa no enredo não como ação, mas enquanto menção. São ecos de um passado esquecido, levando-nos a pensar que não se pode escapar do passado e nem desdenhar a fortuna.

Ao nos questionarmos sobre a hamartía de Édipo identificamos na Poética uma resposta. Segundo o ponto de vista de Aristóteles, apesar de se encontrar fora do

124

HARSH, 1975, Op. Cit., p. 48. 125

Neste caso, em específico, a piedade e o horror são despertados porque a ação foi praticada na ignorância.

contexto cênico da peça, o incesto e o parricídio poderiam ser considerados hamartías, e seriam erros por desconhecimento, tendo em vista que ele ignorava a identidade de seus verdadeiros pais. Mas a advertência do oráculo deveria ter dissuadido Édipo de assassinar qualquer homem em idade para ser seu pai e de casar com qualquer mulher em idade para ser sua mãe. Não obstante, apesar deste aviso, ele realizou os atos que deveria ter evitado126.

Poderíamos definir que a hamartía de Édipo consistiria em sua delicada relação com os oráculos e na sua incapacidade de compreensão dos mesmos, cometendo um erro de interpretação. Daí, o elemento trágico da história seria a sua insistência na busca pela verdade. Além disso, a queda de Édipo deve-se à descoberta de quem ele era, sem este reconhecimento não haveria a reviravolta e tampouco ele deixaria de ser quem ele até então acreditava ser127.