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Forståelsen av Munchausen by Proxy

In document NSD sin vurdering (sider 35-41)

Jean Piaget [Fig. 1] criou uma teoria sobre o processo de aquisição

de conhecimento pelas crianças, utilizando principalmente a observação directa e a interacção. Piaget explica as diferentes etapas de aprendizagem que uma criança atravessa, caracterizando, em cada etapa, as percepções que a criança tem de si própria e do mundo que a rodeia (EB 2011d).

Diz-nos Ungar (2004) em Developmental psychology: Piaget (…and his

critics) que, segundo Piaget, o conhecimento não é apenas resultado da ex- periência sensorial, sendo necessária a existência de uma estrutura cognitiva inicial mínima para se poder perceber o mundo. As crianças nascem com essa estrutura, que engloba um conjunto de reflexos e capacidades de percepção e processos genéricos e adaptativos que lhe permitem a transição entre as diferentes etapas ou estádios de desenvolvimento.

A teoria do conhecimento de Piaget inclui assim três componentes básicos: • Unidades ou blocos de conhecimento, também designados por esquemas, cada um representando um aspecto do mundo (objectos, acções e conceitos abstractos);

• Processos que permitem a transição de um estádio para outro; • Quatro estádios principais de desenvolvimento intelectual

(sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal). Quando a criança se depara com um novo objecto ou situação, tenta adaptar-se, perceber ou responder, usando um esquema pré-existente na sua mente (assimilação); se o novo objecto ou situação não ‘se enquadra’ ou é compreendido através do esquema existente, este é alterado de modo a poder ‘lidar’ com a nova informação (acomodação). Qualquer que seja o processo usado, a aprendizagem tende sempre a chegar a um equilíbrio; quando uma nova informação surgir, causando um desequilíbrio no processo de adaptação ao mundo, o equilíbrio é procurado por assimilação e, caso esta não resulte, por acomodação (McLeod, S 2012).

Podemos pois sublinhar que a assimilação é o processo através do qual uma realidade exterior se integra num esquema e que a acomodação é a actividade

através da qual um esquema é modificado ou se transforma para se ajustar a um meio ou a um objecto. E que o equilíbrio [Fig. 2] é conseguido através de

mecanismos de auto-regulação que utilizam compensações activas do indi- víduo em resposta a perturbações exteriores (FJP 2012a).

“Se chamarmos acomodação ao resultado das pressões exercidas pelo meio, podemos então dizer que a adaptação é um equilíbrio entre a assimilação e a acomodação. Esta definição aplica-se também à própria inteligência. [...] Também não podemos ter dúvidas de que a vida mental seja, simultaneamente, uma acomodação ao meio ambiente. A assimilação não pode ser pura porque, quando incorpora os elementos novos nos esquemas anteriores, a inteligência modifica imediatamente estes últimos para adaptá-los aos novos dados.”

(Munari, A 2010, pp. 30-31)

Fig. 2 | Processo de assimilação e acomodação

Debrucemo-nos agora um pouco sobre as quatro grandes etapas ou estádios do desenvolvimento intelectual constantes da teoria de Piaget, sem referir, no entanto, as várias subdivisões de cada uma delas [Tabela 1]:

• Período da inteligência sensório-motora: estende-se desde o nascimento até ao aparecimento da linguagem (fala), o que corresponde aproximadamente aos primeiros dois anos de vida (McLeod, S 2010e; Piaget, J 1956);

• Período das representações pré-operatórias: entre os dois e os sete anos sensivelmente, a criança consegue fazer e articular representações mentais de situações e objectos, embora de forma egocêntrica, isto é, centrados apenas na sua própria visão do mundo (McLeod, S 2010d; Piaget, J 1956);

• Período das operações concretas: dos 7/8 aos 11/12 anos, menos egocên- trica, a criança consegue usar lógica nas operações (regras), embora só consiga aplicar essa lógica a objectos físicos (McLeod, S 2010b; Piaget, J 1956);

• Período das operações formais: a partir dos 11/12 anos ganha-se capaci- dade para pensar de modo mais abstracto, manipular ideias não ligadas a objectos físicos, fazer cálculos matemáticos, pensar com criatividade, prever resultados (McLeod, S 2010c; Piaget, J 1956).

Tabela 1 | Quatro fases do desenvolvimento da criança segundo Jean Piaget

“(...) equilíbrio estrutural do mais flexível e durável da conduta, a inteligência é essencialmente um sistema de operações vivas e actuantes. Ela é a adaptação mental mais desenvolvida, quer dizer, o instrumento indispensável das trocas entre o sujeito e o universo...” (Piaget, J 1977, p. 16)

Apesar de toda a classificação em fases e sub-fases do desenvolvimento intelectual ter sido resultado de muitos anos de investigação e experimentação por parte de Piaget, e tendo estes estudos sido complementados por muitos seguidores da sua teoria, não deixa de ser importante mencionar também alguns críticos:

• Lev Vigotsky e Jerome Bruner não discordavam de Piaget no que con- cerne a acreditar que a criança nasce já com um conjunto básico de estruturas cognitivas. Mas consideravam que o desenvolvimento intelectual ocorre de forma gradual e contínua, sem etapas ou fases definidas, que a linguagem é um elo essencial entre os estímulos exteriores e a resposta do indivíduo; e que a comunidade desempenha um papel muito importante no desen- volvimento do conhecimento.

Piaget defende uma teoria que se baseia numa dupla perspectiva. A primeira, que as estruturas racionais e sensoriais do conhecimento vêm da evolução da espécie humana; e a segunda, que todas as transformações do ser humano só são estimuladas consoante as actividades da criança (Oliveira, F & Monteiro, A & Martins, L 1988). Essas actividades não podem ser dissociadas do ambiente que as rodeia e, consequentemente, da maior ou menor influência da cultura e dos factores sociais.

A aproximação sócio-cultural de Vigotsky e Bruner, que colocam grande ênfase na cultura, nos factores sociais e na linguagem, dando por isso maior importância à influência de um bom tutor ou à interacção com crianças mais experientes do que à descoberta por auto-iniciativa defendida por Piaget, não é, portanto, contraditória das ideias deste, podendo antes afirmar-se que ambas as teorias têm valor e se complementam (McLeod, S 2012; McLeod, S 2007; McLeod, S 2010a).

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