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O trabalho de Koellreutter está baseado em uma proposta que visa, além de desenvolver a criatividade e a reflexão, suscitar “[...] o desenvolvimento global das capacidades humanas.” (BRITO, 2011, p. 21). Diante da experiência como músico e professor de composição, harmonia e contraponto, Koellreutter passou a se preocupar com questões musicais pedagógicas mais amplas – e “[...] com a ampliação de sua experiência pessoal, redimensionou o papel da música na educação, de modo mais geral, conferindo-lhe funções que transcendem os limites da formação musical.” (BRITO, 2011, p. 31). Considerado como um educador musical à frente de seu tempo, Koellreutter

[...] passou a falar em educação musical funcional, ou seja, aquela voltada às necessidades da sociedade, do indivíduo, em “tempo real”, atual, e não fundamentada em objetivos, valores, princípios e conteúdos que remetem a épocas passadas, em que viviam outros seres humanos, com necessidades e características próprias (BRITO, 2011, p. 33).

A partir de sua postura didática ativa e sempre questionadora, Koellreutter apropriou- se de um conceito chamado ensino pré-figurativo, que

[...] orienta e guia o aluno, não o obrigando, porém, a sujeitar-se à tradição, valendo- se do diálogo e de estudos concernentes àquilo que há de existir ou pode existir, ou se receia que exista. Um sistema educacional em que não se ‘educa’, no sentido tradicional, mas, sim, em que se conscientiza e ‘orienta’ os alunos através do diálogo e do debate. (KOELLREUTTER, 1997, p. 37-44).

A proposta de educação musical funcional de Koellreutter é desafiadora posto que os espaços de ensino de música, escolas e conservatórios ainda possuem uma visão romântica do ensino de música.

Acontece que os nossos estabelecimentos de ensino musical ainda se orientam pelas normas e pelos critérios em que estavam baseados os programas e currículos dos conservatórios europeus do século passado, revelando-se instituições alheias à realidade social brasileira, na segunda metade do século XX, e servindo, dessa maneira, a interesses que não podem ser os interesses culturais de nosso país. (KOELLREUTTER, 1997, p. 37-44).

O conservadorismo desses espaços tradicionais de ensino não se afina com a ideia e transparência dos princípios de educação musical propostos por Koellreutter. Assim,

Em sua maioria, as escolas de música não passam de pretensas fábricas de intérpretes para as promoções musicais de elite burguesa, o que significa, em termos de ensino musical, especialização uni lateral, aperfeiçoamento exclusivo das habilidades instrumentais e preparação de um tipo de musicista que vê seu ideal na apresentação de um repertório inúmeras vezes repetido de valores assim chamados "eternos", estabelecidos pela elite. (KOELLREUTTER, 1997, p. 37-44).

A educação musical defendida por Koellreutter se destaca como uma proposta não profissionalizante, que não intenta a formação de músicos instrumentistas virtuosos ou compositores célebres, mas sim, um trabalho de ampliação dos horizontes e da realidade social na qual o estudante está inserido. Mais uma vez encontramos uma afinação entre as ideias de Koellreutter e Herbert Read, pois para este último, “[...] o objectivo de uma reforma do sistema educacional não é produzir mais obras de arte, mas pessoas e sociedades melhores.” (READ, 1982, p. 79).

Com efeito, uma educação voltada para uma finalidade de sensibilização musical mais humana e social através da arte, diminuiria o competitivo e acirrado panorama dos

valores sociais capitalistas vigentes, possibilitando condições para uma formação mais compartilhada e menos competitiva. Para Koellreutter, a arte funciona como um instrumento de libertação, tal qual a pedagogia libertária proposta por Herbert Read, de modo que

A arte poderia tornar-se um meio indispensável de educação, pois oferece uma contribuição essencial à formação do ambiente humano. Assim, através de sua integração na sociedade, a arte poderia tornar-se um fator central da nova sociedade desde que, por meio de integração, ela vença a sua alienação social e sobreviva à sua crise atual. (KOELREUTTER, 1990, p. 1-8).

Os aspectos de educação musical propostos por Koellreutter nos fazem refletir sobre a postura do professor frente ao desafio de educar musicalmente estudantes desta geração individualista. É papel do educador se transformar em um parceiro de estrada mais experiente e buscar agir de modo a pensar estratégias de colaboração na busca por uma construção musical menos pragmática e consumista da pós-modernidade, auxiliando, assim, o estudante a interagir de modo solidário e nos convidando a pensar como se aprende música compartilhadamente. Portanto, não se trata mais de ensinar conteúdos musicais prontos, mas de como proporcionar a apropriação de conhecimentos socialmente construídos, gerando, assim,

Autodisciplina, concentração, a subordinação de interesses pessoais aos interesses do grupo, auto-crítica, criatividade e o desenvolvimento da sensibilidade do jovem, relativa a valores qualitativos – tanto tempo desprezados sob a ditadura de conceitos positivistas e mecanicistas. (KOELLREUTTER, 1990, p. 1-8).

Encontramos forte presença da proposta de educação musical de Koellreutter na construção dos âmbitos de formação musical da UFC. Segundo Matos (2008, p. 149), “[...] o Projeto de Criação do Departamento de Arte da UFC, elaborado por uma equipe coordenada pela Professora Izaíra Silvino Moraes, com cooperação, inspiração constante do Professor Hans-JoachinKoellreutter”, foi um dos documentos pilares para a criação do Curso de Música da UFC.

No próximo capítulo vamos analisar a ênfase dada ao papel do professor nas propostas de Educação Musical que, no Brasil, convencionou-se chamar Ensino Coletivo. Tal metodologia não pode ser confundida com as atividades compartilhadas ocorrentes nos grupos de estudos do Curso de Licenciatura em Música da UFC, uma vez que estas últimas, mesmo possuindo características de um encontro coletivo, procuram focar suas atividades nos processos de troca realizados entre os estudantes.