• No results found

Os métodos que Piaget, para além de defender, argumenta cientificamente4 justificando, desse modo, as suas ideias, são os métodos da escola activa onde têm importância os princípios da liberdade, de actividade e de interesse da criança com o objectivo primordial de favorecer o seu desenvolvimento “natural”. A “escola activa” (Piaget, 1999: 40) assenta na ideia de que as matérias a ensinar às crianças não devem ser impostas do exterior, mas serem redescobertas por ela, por meio de uma pesquisa real e de uma actividade espontânea.

Uma educação centrada na criança e na sua acção foi igualmente defendida por grandes reformadores da pedagogia, como, Dewey, Ferrière, Decroly, Wallon, Dalcroze, entre outros. Os métodos activos de educação pressupõem que a criança possa fazer experiências e que a escola constitua um meio adequado a tais experiências, que se

4

Jean Piaget revolucionou os conceitos de inteligência e de desenvolvimento cognitivo a partir de investigações baseadas na observação e em entrevistas que efectivou com crianças. Interessou-se essencialmente pelas relações que se deliberam entre o sujeito que conhece e o mundo que tenta conhecer. Foi considerado um epistemólogo genético porque pesquisou a natureza e a génese do conhecimento nos seus processos e estágios de desenvolvimento. Piaget desenvolveu estudos sobre os próprios processos metodológicos, concretamente o método clínico e a observação naturalista. Estes métodos correspondem a importantes avanços na investigação em psicologia.

forneça um material conveniente, a fim de que, jogando, as crianças assimilem as realidades intelectuais, que, sem isso, permanecem exteriores à inteligência infantil (Piaget, 1976).

Não constituindo um ramo especial do ensino, a educação artística poderá ser considerada um aspecto particular do conjunto do sistema podendo e devendo ser contiguamente desenvolvido. A concepção piagetiana da pedagogia remete-nos para a ideia de que para compreender é preciso criar, criar os instrumentos que permitem entender o mundo. E, para criar, é imprescindível um espaço de liberdade, um espaço que só a auto-gestão e o trabalho em equipa podem proporcionar. Será neste contexto, pois, que se encontrará uma educação de qualidade baseada nas expressões artísticas.

Tomemos, ainda, em consideração a premissa de Piaget, entre outros, de quanto o homem pode ser moldável, o quanto o homem pode ser transformado, consoante o meio social em que vive, mas ainda, o quanto essa transformação depende, essencialmente, da educação.

A actividade lúdica desponta no comportamento infantil como uma manifestação frequente e espontânea, denota ser natural e indispensável ao seu desenvolvimento. A criança brinca e não existe nada que lhe dê mais prazer (Pessanha, 2001). Sob este ponto de vista, verdadeiro, será lícito defender e valorizar o importante papel da actividade lúdica na escola, podendo e devendo coexistir com a aprendizagem, tornando-a um prazer, facilitando-a bem como ao domínio das competências.

Já se constatou através de diversos autores, que a actividade lúdica favorece, muito particularmente, o desenvolvimento global da criança, nos aspectos de integração afectiva, social e cultural. O brincar é visto como o espaço da criação cultural por excelência. Deve-se a Winnicot (1975) a reactivação de um pensamento, segundo o qual, o espaço lúdico possibilita ao indivíduo criar e manter uma relação aberta e positiva com a cultura. É dada importância à noção de interpretação o que supõe um contexto cultural subjacente ligado à linguagem que permite dar sentido às actividades.

A expressão do indivíduo, no jogo, encontra-se inserida num sistema de significações, ou seja, numa cultura que lhe dá sentido. Todos os processos culturais mostram a presença activa do factor lúdico como criador de coisas elementares da vida em sociedade. O espírito de competição lúdica, enquanto impulso social, é tão antigo quanto a cultura e a própria vida social impregna-o. Então, a fase primitiva da cultura é o jogo, como os jogos de guerra e os próprios jogos rituais. A cultura surge no jogo e

enquanto jogo aí permanece. Acaba por ser uma forma de realidade muito particular, produz aspectos dessa mesma realidade através de regras, utiliza um comportamento lúdico, prático e convencional em simultâneo. Jogar é conciliar os comportamentos lógico e lúdico e esta relação possibilita ao homem encontrar a sua natureza mais profunda e aqui pode-se comparar o jogo com a arte, ambos possibilitam ao indivíduo familiarizar-se com o seu Eu.

Diferentes formas de jogo têm acompanhado a humanidade no seu desenvolvimento. Nunca se opõe ao conhecimento, tornando-se um dos meios mais relevantes de aquisição das diferentes situações de aprendizagem dos tipos de comportamento (Lotman, 1978), da cultura e das culturas. Todas as civilizações revelam uma ligação muito forte aos jogos, desde os pequenos jogos entre familiares e amigos, os jogos desportivos ou os rituais de magia e religiosidade.

Cremos que as suas origens estão ligadas a cerimónias e rituais religiosos, costumes antigos e ritos aliados ao longo passado do homem. Nas as origens da sua existência estão incluídas o espírito lúdico e a necessidade que o homem tem de comunicar, sendo as brincadeiras infantis a sua primeira manifestação. Todo o tipo de jogo desempenha um papel muito importante no desenvolvimento físico e intelectual do indivíduo. Como ferramenta auxiliar no processo do crescimento infantil, habilita a criança a defrontar-se com as situações do dia a dia, com circunstâncias de medo e contribui para a estrutura da sua dinâmica emocional na vida adulta.

A aplicação de programas de actividade lúdica em contexto escolar produz progressos nas crianças envolvidas e apresenta a vantagem de propiciar experiências encantadoras e positivas, tanto para as crianças como para os adultos intervenientes no processo educativo (Pessanha, 2001).

O equilíbrio entre a função lúdica e a função educativa torna-se no objectivo principal do jogo educativo. Jogo e educação parecem, à priori, ser incompatíveis: o jogo, provido da natureza livre, parece não se conciliar com a busca de resultados alegórica do processo educativo (Kishimoto, 1994). Embora se destaque no jogo a liberdade como atributo principal, em educação procura-se conciliar a liberdade com a orientação própria dos processos educativos. Elimina-se, assim, o paradoxo na prática pedagógica preservando-se a liberdade de brincar da criança. Desde que não entre em conflito com a acção espontânea da criança, a acção pedagógica intencional do educador pode reflectir-se na organização do espaço, na selecção dos brinquedos que

coloca ao dispor e na interacção com as crianças e ainda no tipo de propostas pedagógicas.

Acreditamos na vantagem de associar o jogo às actividades de natureza cognitiva em contextos pedagógicos, prevendo a ocorrência de situações lúdicas associadas à interiorização de todo o tipo de valores, de conteúdos, à literacia, enfim, no desenvolvimento harmonioso da criança e na sua integração escolar.

É de salientar que, apesar das limitações económicas, se assiste actualmente em Portugal a uma maior abertura por parte dos variados mentores da política educativa, consideram novas metodologias com objectivos pedagógicos que contemplam aspectos lúdicos e criativos. A Lei de Bases do Sistema Educativo5 consagra explicitamente a importância atribuída à actividade lúdica, nomeadamente quando afirma constituir um dos objectivos da educação pré-escolar “desenvolver as capacidades de expressão e

comunicação da criança assim como a sua imaginação criativa e estimular a actividade lúdica.

Igualmente, as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (1997) consignam no seu programa a área da expressão e comunicação, dando ênfase à sua situação pedagógica e lúdica, sendo ainda considerada como território basilar de conteúdos porque recai sobre os aspectos fundamentais do desenvolvimento e da aprendizagem e abrange instrumentos indispensáveis para a criança continuar a aprender ao longo da vida. Nesta área inclui-se os domínios das expressões: motora, dramática, plástica e musical, numa acentuação da sua inter-relação.

O domínio das diferentes formas de expressão implica diversificar as situações e experiências de aprendizagem, de modo a que a criança vá dominando e utilizando o seu corpo e contactando com diferentes materiais que poderá explorar de forma a tomar consciência de si própria na relação com os objectos” (op. cit.: 57).

E nós acrescentaríamos, na relação com os outros que contempla a expressão dramática em todas as suas vertentes. São assim, legitimados, todos os programas e projectos inovadores que contemplam experiências pedagógicas criativas e lúdicas, que

5 Lei nº 46/86, Capítulo II, secção I, Artigo 5º, número 1, parágrafo f, consultado em: http://www.sg.min-edu.pt/leis/lei-46-86.pdf

procuram proporcionar às crianças momentos únicos, situações de sucesso, motivadores e propensos à criação de mais actividades lúdicas no dia a dia das crianças como forma de desenvolvimento global.

Muito mais haveria a referir sobre a actividade lúdica nas crianças. Existem evoluções, conquistas, muitas considerações, todas elas relevantes para o desenvolvimento humano. Não podendo abordar todas, destacaremos seguidamente, aquelas que mais directamente se relacionam com a fundamentação de um dos grandes jogos da vida que pode constituir a actividade teatral.