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Por meio da crítica literária e usando adequadamente sua metodologia, o estudo da exegese dos textos sagrados pode avançar muito no esclarecimento de dados essenciais para sua melhor compreensão. Sua função principal é a de analisar os próprios textos objetos de estudos com critérios muito rigorosos e científicos. A análise de cada elemento que compõe o todo do texto proporciona muitos avanços na exegese, pois, com esse método, é possível saber se um texto é autêntico, qual é seu gênero literário, sua semântica, sua delimitação, suas estruturas internas, suas fontes ou camadas com as quais o texto é composto.61

59 Nesta passagem, Bruce assegura que Hebreus aparece como a segunda dentre as cartas paulinas

imediatamente após a Carta aos Romanos. Vielhauer (2005, p. 281) afirma que “a Igreja ocidental posicionou-se de modo cético contra a autoria paulina. O Cânon Muratori sequer a menciona”. Temos dessa forma uma ideia das dificuldades encontradas por Hebreus para que fosse aceita como texto sagrado e entrasse para o cânon bíblico.

60 Vielhauer (2005, p. 281) escreve que “o Ocidente dignou-se a reconhecer Hebreus como paulino e

a cononizá-lo só tardiamente sob a influência ou pressão da Igreja oriental; é muito bonita a fórmula concessiva do Sínodo de Cartago de 379: ‘Epistulae Pauli apostoli tredecim, eiusdem ad Hebraeos una’. Kistemaker (2003, p. 28) também afirma que Hebreus só foi aceito pelo Ocidente no quarto século.

1.3.1 Gênero Literário

O gênero literário de Hebreus não segue o estilo de Carta,62 como as de Paulo ou as católicas. Entre os exegetas o texto é tido por um sermão homilético de cunho exortativo.63 Esse texto foi enviado a uma comunidade judaico-cristã e, uma vez conservada, mais tarde foi canonizada como texto sagrado. O texto passou a ser classificado como discurso homilético64 porque difere da grande maioria das Cartas paulinas e também por causa de seu gênero literário.

Seu gênero é discursivo com forte ênfase na exortação. A ênfase na exortação está presente também em Hb 4,14: “Tendo, portanto, um grande sumo sacerdote que penetrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, conservemos a profissão de fé.”

1.3.2 Delimitação, Composição e Estrutura Interna de Hb 4,14-16

Na delimitação do assunto de nossa pesquisa, escolhemos Hb 4,14-16. Em algumas traduções, esse texto vem separado, formando uma perícope própria. Contudo, optamos por elaborar a estrutura interna levando em conta o contexto literário maior.

Percebemos que nessa perícope centra-se de melhor forma o conteúdo de nossa tese, qual seja, a ação de penetrar o céu, em Hb 4,14, como elemento simbólico da ressurreição de Jesus Cristo. A escolha do objeto foi feita a partir de (ALAND, 1999). Ao iniciarmos a crítica literária, percebemos que, entre várias

62 Vielhauer (2005, p. 89) informa o seguinte sobre o gênero de Cartas: “o estilo de Carta tem que ter

endereço determinado e limitado, isto é, destinatários, tem que ter uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão, saudação”. Hebreus não obedece esse esquema. Também Fabris (1992, p. 342) enumera uma sequência de elementos que compõe as características de uma Carta: “início protocolar de uma Carta, indicação do remetente, indicação do destinatário e a saudação final da Carta”.

63 Sobre esse assunto esvrevem MacRae (1999, p, 305), Vielhauer (2005, p. 272) e Vanhoye (1983,

p. 17) que Hebreus é um “sermão sacerdotal”; Kümmel (1982, p. 523) opta pelo termo “sermão”. Outros autores seguem a tradição nomeando-a de Carta de São Paulo aos Hebreus, mas, quando fazem sua análise, afirmam não ser uma Carta, mas sim um discurso ou sermão homilético. A favor dessa opinião também estão Ballarini (1969, p. 214), Konings (1995, p. 7) e MacRae (1999, p. 305).

64 MacRae (1999, p. 305) escreve que “Hebreus é, na verdade, um sermão escrito, e é importante

como um dos primeiros sermões cristãos que se tem notícia. Combina explicações teológicas, em grande parte baseadas na interpretação da Bíblia, do Antigo Testamento, com exortações à perseverança na esperança e na fé. As passagens de exortação estão espalhadas pelo sermão e fica claro ao leitor que, como em todo bom sermão, essas passagens são o principal foco da obra”.

edições, algumas delas apresentam esse texto com uma delimitação distinta das outras.

A BJ,65 a TEB e a BP dividem o texto formando uma perícope própria em Hb 4,14-16. A BS se diferencia das outras edições por apresentar o texto como o início de um longo trecho que inicia em Hb 4,14 e vai até Hb 6,20. Portanto, Hb 4,14-5,10 é somente o início dessa longa perícope que engloba mais de dois capítulos inteiros. Uma forma de analisar a opção dos tradutores é seguir as conjunções apresentadas nessa perícope para caracterizá-la como um corpo único, dividi-lo ou uni-lo a outro texto anterior ou posterior, conforme as sugestões apresentadas pelas distintas edições supracitadas.

No início de Hb 4,14, temos a primeira conjunção que indica uma conclusão. “Tendo, portanto (oun)”. Essa conjunção pode ser um fator de ligação com a parte imediatamente anterior, porque vem sendo exposto o assunto e segue-se a conclusão. Hebreus 5,1 inicia com uma nova conjunção: “portanto” (gar). Nesse sentido, pode estar abrindo um novo assunto. Essa parece ter sido a lógica da divisão do texto.

A nosso ver, os tradutores da BJ, TEB e BP devem ter seguido a metodologia da estrutura concêntrica e preferiram separar o texto da parte seguinte e apresentar o texto de Hb 5,1-10, formando uma perícope independente. Ao contrário, na forma que a BS apresentou o texto, parece-nos que o editor não respeitou o primeiro passo da crítica literária, a delimitação do texto, e passou diretamente para o passo seguinte, que é a estrutura interna do texto. Aquela unidade maior (Hb 4,14-5,10) pode perfeitamente ser dividida em três partes, como estrutura interna, mas, em nossa opinião, não pode ser dividida e formar duas unidades individuais, como estas edições apresentam.66

Por sua particularidade, a BS apresenta este texto Hb 4,14-16 como parte inicial de uma unidade maior que vai até Hb 6,2. A nosso ver, o tradutor/editor não levou em conta todos os passos da crítica literária, pois esta longa unidade Hb 4,14- 6,2 está muito mal demarcada, haja vista que, em Hb 5,11, o autor de Hebreus

65 A BJ edição de 1980 apresenta o texto imediatamente ligado ao capítulo 5, compondo uma

perícope mais longa que vai até Hb 5,10. A nova edição de 2003 já traz uma alteração no texto, apresentando uma divisão em duas perícopes, a saber: Hb 4,14-16 e Hb 5,1-10. Optamos por seguir a edição mais recente por pensarmos que ela tenha levado em conta os resultados dos estudos mais recentes, embora não concordemos com essa divisão.

muda a temática do texto, deixando de escrever sobre o sacerdócio e passando a discorrer sobre a “maturidade” de fé das pessoas destinatárias do texto.

Por último, analisamos a edição de (ALAND, 1999), que apresenta o texto formando uma única perícope abrangendo Hb 4,14-5,10. Essa delimitação a nosso ver, está bem fundamentada. Primeiro, porque Hb 4,13 fecha a temática que vinha sendo exposta em torno da Palavra de Deus. Em Hb 4,14 começa abordar o tema do sacerdócio, mudando, portanto, o assunto discorrido. Todo este trecho Hb 4,14- 5,10 discorre sobre a temática sacerdotal, terminando em Hb 5,10, uma vez que Hb 5,11 aborda outro assunto, a maturidade da fé. Em segundo lugar, a temática sacerdotal ainda não tinha aparecido no texto de Hebreus. O autor estava tratando de situar o leitor e a leitora em um contexto para depois informar que é por meio de Cristo, sumo sacerdote, que tudo aquilo que foi escrito antes tem sua confirmação. Logo, essa perícope é iniciada pela conjunção “portanto” (oun), em Hb 4,14, concluído com outra conjunção conclusiva “deste modo” (utos), em Hb 5,5, seguida de uma longa e fundamentada argumentação que vai até Hb 5,10, chamando a atenção para o fato de que o título de sumo sacerdote, introduzido em Hb 4,14, foi atribuído por Deus (Hb 5,10). Dessa forma, fecha a temática dessa unidade. Podemos concluir dizendo que o texto extraído da edição de (ALAND, 1999) está bem delimitado. A nosso ver, as edições BJ, TEB e a BP cometem um equívoco em dividir o texto, pois o assunto tratado não permite essa separação. A BS não apresentou o texto mais longo, não levando em conta todos os passos da crítica literária.

Realizamos uma subdivisão do trecho de Hb 4,14-5,10 que compreende três partes (ARAÚJO, 2001).

Em Hb 4,14-16, o autor abre a temática sacerdotal que vinha sendo introduzida desde o início do texto. Primeiro, era preciso fundamentar bem sobre a pessoa de Jesus, e só depois poder-se-ia descrever qual a sua ‘função religiosa’, isto é, ser sumo sacerdote.

Se levamos em conta os critérios da demarcação de um texto67, veremos que Hb 4,14-5,10 não pode ser apresentado dividido em duas ou três68 perícopes individuais. Essa subdivisão só é aceita como subunidade daquela perícope maior,

67 Veja os critérios de demarcação de um texto em Egger (1994, p. 53-55) e Wegner (1998, p. 84-8). 68 Veja a edição argentina: El Livro del Pueblo de Dios

que assim está bem delimitada. Segundo o esquema de quiasmo, analisamos o texto de Hb 4,14-5,10 da seguinte forma:69

a) Na primeira, parte temos o trecho de Hb 4,14-16: