4 Empiriske funn
6.1 Forslag til videre forskning
Como já foi dito anteriormente, o caráter mutante da modernidade se deve, em boa parte, à dinâmica do sistema capitalista e ao desenvolvimento tecnológico. O modo de produção capitalista se vale da destruição criativa para acumular capital e superar crises. Essa destruição criativa também se dá na dimensão espacial, pois a mudança das necessidades e dos interesses dos agentes produtores do espaço, gera novos processos e novas formas espaciais, em um processo constante de reestruturação espacial.
Roberto Lobato Corrêa (1989) destaca seis processos espaciais e suas respectivas formas: centralização e a área central, descentralização e os núcleos secundário, coesão e as áreas especializadas, segregação e as áreas sociais, dinâmica espacial da segregação, inércia e as áreas cristalizadas. Vale destacar que cada processo e sua forma espacial correspondente não ocorrem, necessariamente, de forma isolada, podendo aparecer de forma simultânea, dependendo do contexto. Pela sua relevância para o tema desta dissertação, serão abordados os processos de centralização e de descentralização e suas respectivas formas espaciais, a área central e os núcleos secundários.
A centralização está associada ao poder de aglomeração de um determinado espaço da cidade, gerando assim uma área central. Nesse sentido, muitos autores argumentam que a centralidade está associada à própria idéia de cidade. Assim, ao longo da história, as sociedades produziram um ou mais centros, dando forma e coerência à cidade, estruturados em função de uma ou mais atividades, sejam elas religiosas, por exemplo os templos das cidades egípcias, políticas, como foram as ágoras das cidades gregas, econômicas e/ou sociais, como o centro das cidades industriais do século XIX. Assim, de acordo com a organização social, determinada atividade assume o papel de aglutinadora das atividades sociais, estruturando assim o espaço da cidade (VILLAÇA, 2001).
O processo de centralização das cidades industriais do início do século XIX, merece destaque pela sua dimensão e força. Segundo Roberto Lobato Corrêa, “o seu aparecimento [área central na cidade industrial] se deve às demandas espaciais do capitalismo em sua fase concorrencial, onde a localização central constituía-se em fator crucial na competição capitalista” (CORRÊA, 1989, p. 40). Assim, a importância da acessibilidade às fontes de matérias-primas e ao mercado consumidor fez com que as principais atividades econômicas da época, como a indústria, os escritórios, os depósitos e o comércio atacadista, se localizassem próximos aos terminais de transporte (ferroviário e/ou marítimo), diminuindo assim os custos dos deslocamentos. A concentração dessas atividades em uma área específica da cidade gerou grandes sinergias, criando um grande mercado de trabalho, e gerando também economias de aglomeração, onde a proximidade geográfica de determinadas atividades implicavam em ganho de eficiência. As atividades sociais e culturais da sociedade burguesa também passaram a se concentrar nessa área,
com a construção de teatros, universidades, galerias de arte, entre outros. Nesse cenário, toma forma a área central, espaço urbano de melhor acessibilidade, onde o uso do solo é mais intenso e, conseqüentemente, mais valorizado e escasso, e, freqüentemente, um lugar de grande significado simbólico (CORRÊA, 1989; VILLAÇA, 2001).
Após a Segunda Guerra Mundial, um novo processo espacial tem início, transformando a própria forma do espaço urbano. O crescimento demográfico, econômico e espacial das cidades gerou uma excessiva “centralização das áreas centrais”, resultando no aumento do preço da terra, no congestionamento dos meios de transporte e de comunicação e na dificuldade de expansão espacial, o que ocasionou uma crescente desvalorização desses espaços. Associado à sobrecarga das áreas centrais, e sua conseqüente desvalorização, o desenvolvimento tecnológico, com a ampliação e o aperfeiçoamento dos sistemas de transporte e de comunicação, permitiu uma separação progressiva dos vários segmentos das organizações empresariais. Esses fatores contribuíram para uma maior mobilidade espacial das empresas, fazendo com que outros critérios fossem levados em consideração na escolha de suas localizações, como valor dos terrenos, vantagens fiscais e proximidade de mão-de-obra de baixo custo. Além da descentralização das atividades empresariais, a popularização do automóvel e a crescente repulsa ao caos urbano também possibilitaram a descentralização social e funcional em um território em constante expansão. Nesse contexto, a suburbanização aparece como novo padrão de desenvolvimento urbano da segunda metade do século XX – “exportado” pelos Estados Unidos para o resto do mundo ocidental – confirmando a tendência à desconcentração, sem, no entanto, excluir outros processos espaciais e suas formas espaciais correlatas17 (LUCIO, 1993; GOTTDIENER, 1997; HALL, 1995).
17 A suburbanização se manifesta de formas e intensidades diferentes de acordo com o contexto histórico, político e econômico de cada lugar. A composição social dos subúrbios também depende das estratégias dos promotores imobiliários associados, via de regra à ação do Estado. As áreas periféricas de uso residencial voltadas à população de status, costumam ser valorizadas por amenidades físicas, tais como o verde, a lagoa, o mar. Os promotores imobiliários pressionam o Estado no sentido de prover infra-estrutura, valorizando mais ainda esses espaços. Já as áreas periféricas de uso residencial voltadas à população de baixa renda não possuem atributos físicos que as valorizem, sendo voltadas para a construção de loteamentos populares com mínimo de infra-estrutura, onde a construção das habitações pode se dar através da autoconstrução ou da ação estatal. Existem ainda as áreas periféricas onde grupos sociais excluídos agem por conta própria na produção do espaço, construindo suas casas em terrenos públicos ou privados invadidos, normalmente inadequados para a ação dos promotores imobiliários (áreas alagadiças, encostas íngremes, etc.), formando as favelas (CORRÊA, 1989).
O desenvolvimento de novos materiais e de novas tecnologias na construção civil e o financiamento das habitações possibilitaram a explosão imobiliária, com a construção em massa e em série (assim como o modo de acumulação vigente na época, o fordismo) de conjuntos habitacionais em áreas até então periféricas e afastadas do centro da cidade. A suburbanização passou a ser um fenômeno de massa, orquestrado pelo setor imobiliário e/ou pelo Estado (dependendo do país em questão), e se consolidou como modelo de desenvolvimento urbano por excelência, culminando em um êxodo em massa daqueles que tinham condições de pagar pelas vantagens de uma maior qualidade de vida fora dos limites da cidade e no aparecimento de núcleos secundários ou subcentros. Juntamente com parte da população, muitos comércios e serviços migraram para os subúrbios, culminando no surgimento de novas centralidades, os núcleos secundários, uma espécie de miniatura da área central que atende às demandas da população suburbana (CORRÊA, 1989; GOTTDIENER, 1997; HALL, 1995).
Apesar do ideal de uma melhor qualidade de vida diante de um espaço urbano caótico, na prática, os subúrbios têm apresentado, muitas vezes, uma outra realidade.
Logo que o automóvel se tornou comum, desapareceu a escala pedestre do subúrbio, e com ela, a maior parte da sua individualidade e do seu encanto. O subúrbio deixou de ser uma unidade de vizinhança: tornou- se uma massa difusa, de baixa densidade, envolvida pela conurbação e posteriormente envolvendo-a mais. O subúrbio precisava de sua própria pequenez, assim como precisava de seu background rural, para realizar seu próprio tipo de perfeição semi-rural. Uma vez ultrapassado aquele limite, o subúrbio deixou de ser um refúgio da cidade e passou a
fazer parte da metrópole inescapável, „la ville tentaculaire‟, cujos
espaços abertos contíguos e distantes e cujos parques públicos também eram outras manifestações da cidade congestionada (MUMFORD, 2004, p. 546).
Essa nova configuração urbana implicou no aumento da segregação socioespacial e, consequentemente, em uma progressiva segmentação da vivência urbana cotidiana, resultando inclusive no aumento da intolerância nos mais diversos aspectos (religioso, étnico, social, etc.). Provocou também uma crescente dependência do automóvel devido à dispersão espacial e à especialização funcional.
A descentralização e a suburbanização deram forma a uma cidade dispersa, fragmentada (não contínua no espaço), polinucleada e em permanente expansão, ao contrário da cidade compacta, característica do espaço urbano no início do século XX. A
descentralização econômica e espacial veio acompanhada de uma especialização funcional dos espaços, com uma progressiva separação das atividades e grupos sociais. Nesse sentido, a desconcentração e a suburbanização tiveram fortes implicações sócio- econômicas. A área central passou por uma redefinição funcional e social, visto que, com o surgimento de novos processos espaciais, moradores e atividades, principalmente as mais modernas ou aquelas ligadas à proximidade com as elites, foram se deslocando para áreas mais afastadas, culminando no surgimento de novas centralidades. Ao mesmo tempo, novos (ou antigos) moradores e atividades foram se estabelecendo nas áreas centrais, configurando uma nova dinâmica social e econômica nessas áreas, que, na maioria das vezes, apresentam grande vitalidade, principalmente devido ao comércio e ao serviço populares. Entretanto, a desvalorização das áreas centrais tradicionais veio acompanhada de um crescente descaso por parte das autoridades públicas com a qualidade dos seus espaços. A constante valorização de áreas afastadas do centro e a conseqüente desvalorização das áreas centrais fizeram com que as classes de mais baixa renda se concentrassem nestas áreas. Já as classes média e alta se concentraram em áreas mais afastadas dos centros tradicionais, aumentando a segregação socioespacial (CORRÊA, 1989; GOTTDIENER, 1997).
Entretanto, o desenvolvimento urbano do final do século XX e do início do século XXI tem apresentado uma nova tendência (ainda que de forma inicial ou sutil), sem, no entanto, excluir outros processos e formas espaciais. Iniciativas públicas e/ou privadas têm apontado no sentido da (re)valorização das áreas centrais e suas características, como a concentração, o burburinho, a diversidade e a mistura. Para entender melhor essa tendência, é preciso analisar as novas formas de planejamento e gestão da cidade e suas estratégias de desenvolvimento urbano.
2.4.3. A cidade contemporânea: as transformações na gestão e no planejamento