Na investigação em curso a caracterização do terrorismo é abordada ao nível do número total de incidentes ocorridos, número total de mortos e número total de feridos. Pela observação da evolução destas três variáveis, em termos médios, (Figura 4) verifica-se um comportamento semelhante entre os três indicadores.
Figura 4: Evolução do terrorismo no período em estudo
Total %
África Sub-Sahariana 486.073.400 18,62 América do Norte 432.193.580 16,55 Rússia e os Novos Estados Independentes (NEI) 365.410.250 13,99 América do Sul 354.332.330 13,57 Médio Oriente e Norte da África 236.535.760 9,06 Leste Asiático 203.957.260 7,81 Australásia e Oceania 170.679.400 6,54 Ásia do Sul 102.714.030 3,93 Sudeste Asiático 76.366.190 2,92 Europa Ocidental 73.904.800 2,83 Ásia Central 70.295.980 2,69 Europa de Leste 23.753.980 0,91 América Central e Caraíbas 14.816.200 0,57
Total 2.611.033.160 100,00
Área geográfica (km ²) Região
A evolução do número de incidentes surge acompanhada por uma aproximada movimentação dos valores médios de mortos e feridos. No ano de 1993 existe uma quebra acentuada em todas as variáveis, justificada pelo extravio de uma parte da base de dados GTD, os quais se afiguraram de difícil reconstituição, causando um lapso de informação relativa a esse ano, conforme reportado no ponto 5.3.1, o que justifica a exclusão deste ano da análise.
No ano de 1995 constata-se uma redução do número de incidentes terroristas e mortos, mas por outro lado uma quase duplicação na contagem dos feridos relativamente ao ano anterior. Em 2001 também se observa uma discrepância quanto ao número de mortos que apresenta praticamente o dobro do ano anterior, tendo-se mantido a média de incidentes e feridos. Estes desvios justificam-se com a intensidade e impactos de cada incidente. No ano de 2001 o diferencial relativamente ao número de mortos22, que perfaz aproximadamente 3000, encontra explicação nos atentados de 11 de Setembro nos EUA em que apenas um incidente causou um valor muito elevado de mortos.
De 2003 para 2004 deu-se uma descida do número de incidentes, enquanto que o número de mortos e feridos praticamente atingiu o dobro. No ano de 2006 para 2007 constata-se uma subida de valores nos três impactos do terrorismo, mas comparativamente com o ano seguinte existe um aumento de incidentes em cerca de metade, ao passo que os valores de mortos e feridos têm uma queda acentuada.
O enquadramento geral dos dados apresentado pela Tabela 6 permite aferir que na amostra em estudo existe uma elevada concentração de incidentes, mortos e feridos, particularmente em 25% das observações (países/ano). Em metade das observações o valor máximo de incidentes é de 1, e de mortos e feridos 0. A análise a 75% dos casos conclui o valor máximo de 5 incidentes, 3 mortos e 4 feridos, enquanto que no total da amostra o número mais alto de incidentes é de 1176 (país/ano), de mortos 6534 (país/ano) e de feridos 11965 (país/ano). Desta forma, as médias de 16 incidentes, 40 mortos e 61 feridos por ano em cada país, constituem uma medida bastante desfasada da realidade e neste caso inadequada para caracterizar a distribuição, como aliás se verifica pela análise dos valores do desvio padrão. No total dos incidentes o peso do desvio padrão em relação à média é de 419%, o que se traduz num valor muito elevado, reflectindo uma grande dispersão nos dados. Quanto ao número de mortos e feridos constatam-se igualmente coeficientes de variação muito altos, nomeadamente de 573% e 685%.
Tabela 6: Medidas descritivas das variáveis de terrorismo
Observ. Média Desv.
Padrão Mínim o
Percentil
25 Mediana
Percentil
75 Máxim o
Nº total de incidentes terroristas 3460 15,74 67,27 0 0 1 5 1176 Nº total de mortos 3460 40,04 228,62 0 0 0 3 6534 Nº total de feridos 3460 61,18 417,71 0 0 0 4 11965
Numa perspectiva global parece evidente a existência de uma relação positiva entre os três indicadores. Pela análise da Tabela 7 pode confirmar-se uma correlação positiva intensa. O número total de incidentes quando associado ao número total de mortos apresenta um coeficiente de correlação Pearson de 0,773 (p<0,001) e em relação ao número total de feridos um coeficiente de 0,753 (p<0,001), valores estes correspondentes a uma correlação forte e positiva, tal como o valor resultante da relação entre o número de mortos e o número de feridos (Pearson 0,810; p<0,001).
Assim, verifica-se a existência de uma tendência forte para quando aumenta o número de incidentes aumentar o número de mortos e feridos e também que quanto maior o número de feridos, maior tende a ser o número de mortos.
Tabela 7: Matriz de correlações entre características do terrorismo
Relativamente à ponderação sobre o número e impacto dos ataques terroristas por região, exposta na Tabela 8, verifica-se que nesta avaliação a África Sub-Sahariana - que detém 25,43% dos países da amostra - é largamente ultrapassada pelas regiões da Ásia do Sul, Médio Oriente e Norte de África e América do Sul. A Ásia do Sul, que no apuramento dos valores ao nível dos países e área deteve 5,78% e 3,93% respectivamente, na avaliação quanto ao número de ataques e impactos do terrorismo posicionou-se em ponto de destaque, com 26,49% do número total dos incidentes terroristas, 29,19% do total de mortos e 30,45% do total de feridos.
A região do Médio Oriente e Norte de África, representativa de 10,98% dos países e de 9,06% da área total da amostra, encontra-se posicionada no segundo lugar relativamente à contagem do número total de incidentes com 24,79%, mas detém os valores mais elevados em referência ao número total de mortos, com 30,97%, e ao número total de feridos, com 36,89%.
As duas variáveis dependentes relativas ao número de mortos e feridos dão a conhecer o impacto ao nível dos danos humanos causados pelos incidentes terroristas ocorridos nessa região. Valores percentuais mais elevados nos totais de mortos e feridos em referência aos incidentes terroristas denotam que essa região foi alvo de terrorismo de cariz mais violento. A Ásia do Sul e com maior evidência o Médio Oriente e Norte de África destacam-se pelo elevado número de atentados, que entre as duas consiste em cerca de metade do valor total da amostra (51,28%), bem como pela dimensão dos impactos resultantes, perfazendo 60,16% do total de mortos e 67,34% no total de feridos relativamente ao conjunto global de valores.
Nº total de incidentes terroristas Nº total de mortos Nº total de feridos
Nº total de incidentes terroristas 1,000 0,773*** 0,753***
Nº total de mortos 1,000 0,810***
Nº total de f eridos 1,000
Os baixos índices no número de mortos e feridos na Europa Ocidental, que representa 8,33% dos incidentes terroristas em análise, mostram que esta região é caracterizada por terrorismo de menor intensidade, diferenças associadas em parte às diversas motivações ideológicas que movem as várias organizações terroristas em actividade por todo o mundo.
Tabela 8: Totais dos valores das variáveis dependentes por região