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O Navio-Museu Santo André constitui um pólo do Museu Marítimo de Ílhavo. Atracado na Ria de Aveiro, no Porto Bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré, Aveiro, foi fundado como museu, a 23 de Agosto de 2001, com o apoio da Câmara Municipal de Ílhavo e do armador do navio, António do Lago Cerqueira, Lda. (Pescas Tavares Mascarenhas, S.A.). Estes, em conjunto decidiram preservar e mostrar ao público como era a pesca de arrasto do bacalhau, e desta forma honrar a memória de todos os seus tripulantes durante meio século de actividade, iniciando um novo ciclo da sua vida: mostrar no presente, o passado da pesca bacalhoeira de arrasto.

Figura 4 - Navio Museu Santo André, Ílhavo

Fonte: Autora, 2012.

Este navio-museu constituiu um arrastão lateral (ou clássico) que nasceu em 1948, na Holanda, por encomenda da Empresa de Pesca de Aveiro, no entanto o seu fim chegou em 1997, ano em que foi desmantelado, devido às restrições à pesca em águas exteriores nos anos oitenta, que levou à redução da frota e abate de grande parte desta. A sua primeira viagem foi em 1949 nos mares da Terra Nova e a última foi à Noruega em 1997. Ao longo de cinquenta anos, este navio serviu como arrastão salgador, congelador, pesca com redes de emalhar, operando nos mares da Terra Nova, Angola e Gronelândia.

Apesar de já funcionar como espaço museológico desde 2001, em Dezembro de 2006, este encerrou para ser submetido a trabalhos de remodelação e renovação, reabrindo em Janeiro de 2007. Desde a sua reabertura que este museu tem “mostrado as estórias e histórias, as memórias e identidades” de quem se dedicou a esta faina (Garrido, 2007).

Este navio é composto por diversas áreas: desde o guincho, o parque de pesca, o porão de salga, o porão de congelados, o paiol de redes, camaratas, casa do leme, casa das máquinas, cozinha, câmara dos oficiais e ponte de comando. O guicho encontra-se no centro do navio, no convés principal, juntamente com o sistema de roldanas, as patescas, as portas de rede de arrasto, componentes estas que permitiam a manobrar as redes para a pesca. Outra área presente no navio é o parque de pesca, uma pequena fábrica que permitia a transformação de pescado a bordo, com capacidade de processamento doze toneladas/dia. Esta área destinava-se à preparação do peixe para a conservação através da salga ou da congelação. Neste navio, não se pescava apenas bacalhau, por isso é que existiam dois tipos de escala, a manual que era realizada no bacalhau e a mecânica que servia para processar e congelar outras espécies pescadas. No porão de salga, era colocado o peixe salgado individualmente e empilhado, este vinha por uma manga desde o parque de pesca. Esta função era desempenhada por dois homens, os salgadores. Este porão suportava cerca de 80% da capacidade total do navio, cerca de mil toneladas de peixe. Já no porão de congelados, inicialmente concebido como porão de salga e posteriormente, em 1960, convertido em espaços para conservar peixe congelado, era o local onde se colocava o peixe previamente submetido a um processo de ultracongelação no parque de pesca. No paiol de redes, armazenavam-se as redes e todos os materiais necessários para compor uma rede de arrasto ou de emalhar. No piso inferior encontrava-se ainda um tanque de combustível e um paiol de equipamentos. As áreas de descanso dos pescadores eram as camaratas, na área da proa, permitindo alojar quarenta homens, em seis camarotes. Cada tripulante ocupava um beliche e um cacifo e podia ainda desfrutar de um pequeno aquecedor no centro do camarote, que permitia suportar o frio do Atlântico Norte. No entanto, os ‘mais privilegiados’ eram os pescadores mais experientes e da ‘casa’, pois podiam escolher o beliche com melhores condições, sendo os restantes distribuídos pelo Contramestre. Na casa do leme, estava instalado o mecanismo de rotação do leme, do qual dependia o governo do navio. Junto a esta casa, estavam os camarotes dos homens da máquina: 1º maquinista ou chefe de máquinas, o 2º e 3º maquinistas, o electricista e quatro ajudantes de maquinista. Na cada das máquinas, o ‘coração’ do navio, estão instalados os

equipamentos necessários à vida a bordo. Já na cozinha, o cozinheiro e os seus dois ajudantes cumpriam a rotina de confeccionar as refeições da tripulação, este tinha também que desempenhar funções de padeiro e pasteleiro. No entanto, as refeições eram sempre submetidas à aprovação do Comandante. A cozinha estava equipada com fogão e forno a gasóleo, dois refeitórios destinados às refeições dos pescadores e mestrança e uma câmara fraca (onde se guardavam os alimentos de consumo diário e que servia também de adega). Próximas desta área encontravam-se os camarotes do pessoal de cozinha. Os oficiais tinham uma área reservada ao seu uso, a câmara dos oficiais, em que fazia parte a copa, a sala de jantar, os camarotes do capitão, piloto e enfermeiro, bem como uma casa de banho. Por fim na ponte de comando, local onde se encontram os equipamentos que permitem controlar a navegação em viagem e garantir a segurança do navio durante as operações de pesca, detectam também navios e icebergs com o radar instalado no navio, e localizam cardumes com a sonda, enquanto que na mesa de navegação se traçam os rumos e calculam as distâncias. Neste local, existe também uma sala destinada ao telegrafista (através do T.S.F., permitindo a comunicação para terra e para outros navios. Encontram-se também a casa de navegação e o camarote do imediato.

Este navio permite a quem o visita, ter a noção das condições em que os homens viviam e trabalhavam durante as suas campanhas no mar, constituindo assim mais uma parte do património marítimo bacalhoeiro português.