(cientistas), determinariam as políticas, os meios e objetivos a serem seguidos. No primeiro modelo, ocorre uma decisão por parte da sociedade dos fins, cabendo aos especialistas determinarem os meios, enquanto que, no segundo, a decisão é conjunta, tanto com respeito aos fins, quanto aos meios. Tanto os fins quanto os meios, no terceiro
Na sociedade contemporânea, segundo Fourez (1995), há uma tendência de se recorrer ao modelo tecnocrático. Parte-se do princípio de que os especialistas podem resolver qualquer problema, baseando-se na “neutralidade” da Ciência, o que acaba por se tornar, um “abuso de saber.” (Ibid., p. 212), pois, como é notório, o conhecimento científico não é neutro, mas sim, faz parte de um projeto organizado. Além disso, para o autor, a tecnocracia pode também vir representada por um só técnico ou por vários, o que lhe daria maior legitimidade, uma vez que os especialistas estariam trabalhando em equipe, ou seja, interdisciplinarmente.
A questão maior aqui é que a suposta neutralidade da Ciência deriva do fato de que as decisões são baseadas em um paradigma11 (disciplinar ou multidisciplinar) adotado pela
Ciência em si, aceitando assim todos os seus pressupostos, provendo o convencional ligado às escolhas paradigmáticas. O parecer científico fornecido a um determinado tema segue sempre um prisma paradigmático, que o especialista acaba por aplicar para um problema social – e não só científico – traduzindo os problemas comuns em problemas científicos, utilizando às vezes do senso comum12. Muitas vezes recorre ao modelo teórico equivalente à
situação real, induzindo, evidentemente, a erros (FOUREZ, 1995). Assim,
Os críticos do determinismo tecnológico afirmam que os aspectos sociais e os temas políticos contam mais do que a tecnologia em si, pois importa saber, principalmente, “quem usa, quem controla, para que se usa, como se amolda na estrutura de poder, como é expandida e distribuída a tecnologia” (Finnegan, 1988, p.176-7). (GOUVÊA e LEAL, 2001, p. 69).
Refletindo sobre essas questões, Sampedro (2002) lembra que a Ciência não vive no limbo do conhecimento puro, não é neutra, bem como está sujeita a vários interesses e valores como consequência da sua atividade e do desenvolvimento tecnológico. Valores esses que podem ser morais, religiosos, estéticos, sociais, políticos, ecológicos e, sob uma perspectiva “Kuhniana”, valores epistemológicos de precisão, rigor, coerência, utilidade e generalidade, a ponto da ética e da moral terem perdido o monopólio sobre os valores.
11 Kuhn (1975), ao estudar as diferenças entre os cientistas das comunidades ligadas às Ciências Naturais e Sociais,
reconheceu o papel desempenhado na pesquisa científica por aquilo que chamou de paradigma. Assim, paradigmas são as “(...) realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (Ibid., p. 13). Daí para o autor a necessidade de se estudar as anomalias ou violações de expectativas para uma determinada comunidade científica, na qual a revolução científica altera a perspectiva histórica de toda esta comunidade.
12Bachelard (1996) afirma que o conhecimento construído ao longo da história não pode ser avaliado em termos de acúmulos,
mas sim de rupturas, em um processo de constante debate (dialético), no qual o conhecimento científico é constantemente construído. Dessa forma, o dito novo espírito científico encontra-se em ruptura com o senso comum, ou seja, há um choque entre o saber popular e o saber científico, mais precisamente entre as opiniões, os preconceitos (senso comum ou conhecimento comum) e o universo das Ciências (saber científico). Assim, para o autor, quando se procuram as condições psicológicas do progresso da Ciência é que se chega à questão dos obstáculos epistemológicos. Ou seja, “É aí que mostraremos causas de estagnação e até de regressão, detectaremos causas da inércia às quais daremos o nome de obstáculos epistemológicos” (Ibid., p. 17). Assim, com relação ao primeiro obstáculo, a opinião, afirma que “o espírito científico proíbe que tenhamos uma opinião sobre questões que não compreendemos, sobre questões que não sabemos formular com clareza. Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas” (Ibid, p. 18). Ou seja, todo conhecimento é resposta a uma pergunta. Já o segundo obstáculo, o senso comum, também se relaciona com a separação entre o conhecimento comum e o conhecimento científico, que deve estar comprometido com a busca da verdade. Ou seja, o cientista deve deixar de lado suas convicções, princípios, paixões, questões de cunho econômico ou social e buscar a verdade científica.
Dessa forma, para o autor, a Ciência está transformando a própria democracia, por interferir em assuntos específicos, como é o caso da biomedicina e dos transgênicos, em que para cada área da tecnociência13 há valores que predominam sobre os outros. Assim, de acordo
com o autor, para entender a Ciência hoje é necessário vestir as diferentes lentes de áreas como as da história, filosofia, sociologia e outras. Logo se enxergará que a Ciência interage e se verá que a tecnociência é transformação social, do homem e da natureza, e, com estas lentes, também se enxergará que a Ciência é um processo humano de ação e não uma atividade passiva.
Por outro lado, mas também tecendo críticas ao cientificismo, Goldemberg (2001) acredita que exista uma crença de que o cientista tem grande influência na forma como a sociedade se desenvolve tecnologicamente, uma vez que, em geral, os avanços tecnológicos são lentos, dispersos e descentralizados, com um grande espaço de tempo entre uma descoberta e sua aplicação tecnológica. Entretanto, seria o próprio governo quem teria um papel crucial nesse processo, apoiando ou não as pesquisas. Porém, para ao autor, o relacionamento cientistas-governo é distante, a não ser em situações emergenciais, como ocorreu, por exemplo, com Oppenheimer, Curie e Einstein. Assim, de forma geral, os cientistas não recebem tratamento preferencial de governos, a não ser que seu trabalho seja considerado útil. Para o autor, entretanto, essa relação vem se estreitando, devido à dependência da alta tecnologia, mas dificilmente se tornará prática corriqueira. Logo, por estar sujeito às necessidades e interesses do governo, o próprio cientista, em certas ocasiões, não tem total controle ou decisão sobre o seu trabalho.
Portanto, apesar de o seu papel crucial para a democratização da sociedade moderna – via processo educativo (no auxílio à educação formal) e com relação ao letramento científico da população em geral – deve-se pensar e analisar a PC, sob todos os seus aspectos, nuances e interesses, tentando identificar, na sua prática, seus objetivos reais ou escusos.
Dessa forma, vale à pena citar os trabalhos apresentados por Loureiro (2003) e Navas (2008), de como estes autores entendem a maneira com que a PC está sendo efetivamente realizada em museus do nosso país, e de como vêem o processo de transmissão de conhecimentos junto ao público.
1.8. Modelos Adotados de PC em Museus no País
Analisando o museu de Ciência público como um campo informacional, levando-se em consideração as condições de produção, gestão, disseminação da informação, utilização do objeto musealizado nas exposições e de seu uso social, Loureiro (2003) estuda a presença de uma ação hegemônica, conceitualmente baseada em Antônio Gramsci – que a
caracteriza como uma ação pedagógica dominante – para analisar as representações da Ciência existentes nestes espaços. Para o autor, a opção por pesquisar o conceito de hegemonia deve-se também a carência e as divergências nas poucas reflexões teórico- conceituais dirigidas sobre o fenômeno informacional que ocorre nos espaços museológicos científicos públicos brasileiros, “bem como a inexistência de pesquisas, concepções instrumentais e critérios teóricos relativos às questões pertinentes à representação da informação museológica no horizonte expositivo.” (LOUREIRO, 2003, p. 88).
Conclui então Loureiro (2003) que as formas atuais de apresentação das exposições utilizam um novo design, nos quais os aspectos lúdicos e interativos estabelecem transformações essenciais no processo, por meio da introdução de elementos que tem por finalidade facilitar a assimilação dos produtos da Ciência, apesar de manter uma certa indiferença quanto à forma de participação do público. A Ciência, conteúdo principal, tem sua representação condicionada a um produto final, sem se levar em consideração as suas singularidades e idiossincrasias envolvidas no processo construtivo. Portanto, o que se verifica são “representações de representações do conhecimento científico.” (LOUREIRO, 2003, p. 93). Dessa forma, o autor entende que
O caráter fundamental da ciência para o desenvolvimento das forças produtivas no âmbito do horizonte capitalista e sua vinculação às classes dirigentes fariam com que as representações expositivas científicas presentes na maior parte dos museus de ciência públicos brasileiros estivessem substantivamente permeadas por valores e determinações de ordem histórico-cultural e político-ideológica. As representações ali divulgadas por meio das exposições constituir-se-iam de valores e determinações de perspectivas cientificistas que reiteram determinações de ordem histórico-cultural e político-ideológico das classes dominantes. A informação enquanto ferramenta semiótica que engendra e estrutura as representações museológicas transferidas no âmbito expositivo museológico por meio dos produtos finais da ciência encontrar-se- ia permeada de valores, crenças, normas, interpretações e reflexões que circunscreveriam a divulgação científica a um sistema modelar de incorporação do pensar, do conhecer e da ideologia das classes ou frações de classe dominantes. (LOUREIRO, 2003, p. 91).
Logo, para Loureiro (2003), os museus de Ciência públicos brasileiros, por meio de suas representações expositivas, contribuem para a efetivação da hegemonia, uma vez que sua ação no âmbito pedagógico mascaram a inter-relação Ciência/forças produtivas/classes, articulando um discurso como meio de persuasão, orientação e direção cultural e ideológica. Dessa forma, tais representações não estimulam a dialogicidade, tornando-se um obstáculo para possíveis transformações sociais.
Já Navas (2008), ao caracterizar as concepções de popularização de C&T que permearam o discurso e as ações do MCTI na gestão 2003-2006 – explorando as relações estabelecidas entre museus de Ciências e PC (a autora utiliza DC), tomando como referência o Edital Seleção Pública de Proposta para Apoio a Museus e Centros de Ciências, de 2003 –, constatou que o discurso de popularização é caracterizado por tensões entre atividades informacionais e dialógicas, se dividindo entre a transmissão de conteúdos
científicos e o estímulo à participação cidadã, podendo se identificar por parte do governo claras intenções em abandonar modelos deficitários por modelos mais participativos e democráticos. No entanto, com relação ao edital e aos projetos participativos, estes acabam por privilegiar atividades informacionais, voltadas para a transmissão de conteúdos científicos e associados a públicos escolares – apesar de também ser possível identificar atividades dirigidas para públicos não-escolares, propostas em uma lógica participativa e democrática.
Com relação à comunicação pública de C&T, a autora descreve basicamente quatro modelos atualmente utilizados, a saber: