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A historiografia brasileira de fins da década de 1970 em diante foi marcada por um processo cada vez mais acentuado de renovação. O ambiente intelectual esteve fortemente relacionado ao contexto político, econômico e social então em curso, tal como o tipo de produção que passou a elaborar, sobretudo no interior das instituições universitárias. Não são poucos os autores que avaliaram que nesse momento houve profundas alterações nos parâmetros de construção do conhecimento histórico, diagnosticando, inclusive, que os anos 1980 marca a emergência de uma cultura historiográfica diferenciada (DIEHL, 2004).
Entre o fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 alguns historiadores se concentraram em analisar a historiografia brasileira, fazendo um balanço do tipo de produção que até então a caracterizou. O XI Simpósio Nacional de História, organizado pela ANPUH, que ocorreu em 1981 na cidade de João Pessoa, pode fornecer indício dessa crescente importância concedida à revisão dos parâmetros que se assentou a historiografia brasileira, já que o tema central do encontro foi “História, Historiografia e Historiador”192. Nesse simpósio foram discutidos, por exemplo, temas que iam do “Historiador e a realidade atual”, que deu o título à mesa-redonda composta por Fernando Novaes, Adalberto Marson, Francisco Falcón, Denis Bernadis e Ricardo Maranhão, passando pelo debate em torno do “Mercado de Trabalho do Historiador”, do “Currículo de História” e o “Livro Didático de História”, e chegando a problematização das “Tendências Atuais da Historiografia brasileira”, que contou como debatedores nomes como Maria Ifigênia Lage de Resende, Helga Piccolo, Gadiel Perrucci e José Roberto do Amaral Lapa.
Este último, inclusive, foi autor de inúmeros trabalhos que pretenderam colocar a história e a historiografia brasileira “em questão” e cujas pesquisas demonstram não apenas o estado da arte que se encontrava a historiografia brasileira, mas procurou utilizar a crítica historiográfica como um canal de crítica ao seu próprio tempo histórico, marcado, como procurou salientar, por uma profunda crise.
A história em questão: Historiografia brasileira contemporânea (1976) e História e Historiografia: Brasil pós-1964 (1985), ambas escritas por José Roberto do Amaral Lapa. São
192 Elenco do XI Simpósio Nacional de História. Associação Nacional dos Professores Universitários de História
(ANPUH). Organizado pela profa. Dra. Alicer Piffer Canabrava com a colaboração do Núcleo Regional da ANPUH-PB. João Pessoa, 1981.
fundamentais para a compreensão do processo histórico-historiográfico que se estende entre 1976 e 1985, já que ao avaliar a historiografia das décadas de 1960 a 1980, Lapa acaba por discutir como os historiadores desse período, na própria prática de escrita da história, se situaram frente ao tempo histórico que estavam imersos.
A história em questão a ser contada por Lapa em 1976 é a história da crise da historiografia brasileira. O perfil dessa crise não se encerraria à defasagem conceitual e terminológica, mas envolve outros elementos, como a “desinstitucionalização do ensino de História, em todos os níveis, vem agora acentuar ainda mais essa conjuntura desfavorável, despojando a nossa ciência de uma motivação que a conduzira ao ponto que atingiu” (LAPA, 1976, p. 9).
Lapa (1976) parece alinhar a crise da historiografia a uma crise da própria experiência histórica, entendendo que a situação em que se encontra uma dada historiografia é reveladora da sociedade sobre a qual se debruça nesse sentido, narrar a crise da historiografia brasileira contemporânea seria ao mesmo tempo evidenciar a crise do Brasil no tempo presente. Esse alinhamento entre história e historiografia fica explicito na primeira epigrafe do livro, que abre o capítulo Historiografia brasileira contemporânea, dizendo:
É evidentemente, bastante claro que para compreender uma sociedade que movimenta lentamente, presa por séculos num ciclo de pobreza e tradição e moléstias, e ignorância, temos de estudar o terreno histórico e os mecanismos históricos persistentes de sua terrível limitação pela sua própria história. A explicitação desse ciclo, e da mecânica de cada uma de suas fases, exige uma análise histórica profunda. (MILLS, C. Wright. Apud. LAPA, 1976, p. 13)
O alinhamento entre o conhecimento histórico e a realidade histórica deveria ser estreitado dentro da prática compreendida por historiografia, ou seja, “a análise crítica desse processo de produção o conhecimento histórico e desse conhecimento enquanto conhecimento, isto é, um conhecimento científico que se perfila pelos métodos, técnicas e leis da ciência histórica” (LAPA, 1976, p. 15). Dessa maneira, a historiografia é entendida, pelo referido autor, como um dos melhores sintomas do grau de amadurecimento ou não da experiência histórica que a sustentou.
A questão da contribuição que os historiadores poderiam dar na resolução da propalada crise, devido ao grau de envolvimento demonstrado por Lapa entre a história como conhecimento histórico e história como realidade histórica, fica explicita no momento em que o autor discutiu a dialética do subdesenvolvimento na história do Brasil. Nesse capítulo, é
mostrado como a questão do subdesenvolvimento foi uma preocupação dos historiadores, que a partir de 1961 foi colocada em pauta a partir de uma reunião a âmbito nacional, realizada na Faculdade de Filosofia de Marília. Para José Roberto do Amaral Lapa, as reflexões e os debates ali realizados,
Confirmam a evidência do divórcio que existe no Brasil entre os estudiosos de história e a atual problemática do Desenvolvimento, isto é, a impressão que geralmente se tem é a de que o historiador nada pode oferecer da sua experiência cientifica acumulada, nada tem a dizer, em nada pode contribuir na comunhão com os demais cientistas sociais. (LAPA, 1976, p. 171)
Lapa forja uma dura crítica tanto à historiografia, quanto ao sistema de ensino e, mais especificamente, ao ensino de história, afirmando que pouco tem contribuído para a conscientização do problema do (sub)desenvolvimento, pois a História é ela própria subdesenvolvida, caracterizado como “livresca e academicamente formados, envoltos em erudição, engolfados pela massa factual, sem o embasamento teórico indispensável, perdem- se os professores numa História tipicamente subdesenvolvida” (LAPA, 1976, p. 171).
Para o autor, essas limitações devem-se aos próprios historiadores, que tímidos ou mal informados, sem maiores preocupações com seu preparo teórico “presos ao passado mais remoto, às descrições e enumerações cronológicas, mais fáceis de serem expostas, sem o risco do passado ainda vivo ou do presente” (LAPA, 1976, p,172), não se mobilizam para tratar a História como um conhecimento comprometido com a realidade histórica e a superação de suas mazelas.
Em História e Historiadores193, o autor parece sentir-se mais à vontade para falar do
regime que estava em processo de esvaziamento, mesmo afirmando que a precaução deve marcar “nossas passadas”, mas assumindo que tal cuidado não corresponde à natureza daquela que “tivemos que ter ao longo dessa caminhada de 20 anos, no espaço que nos é reservado ou no qual combatemos, nós historiadores” (LAPA, 1985, p. 7). Nesse momento o autor entende regime e militar como um perigo obscuro, por isso é necessário prudência, pois “perder de vista é o risco de uma ‘meia-volta-vol-ver’”.
193 O objeto dessa obra parece se confundir com o texto de 1976, já que a relação entre história e historiografia é
sua tônica principal, mas diferenciam-se em um ponto fundamental, em A História em questão os vínculos entre a crítica à escrita da história e a crítica à realidade histórica era algo que não era feito de forma explicita, literal, mas a análise historiográfica era usada como recurso de entendimento da realidade social, ou seja, o objeto de análise privilegiado da obra de 1976 é a historiografia brasileira contemporânea à época. Em 1985, a questão era outra, o texto que Amaral Lapa escreveu foi encomendado pela editora Paz e Terra com a finalidade de compreensão do Brasil pós-1964 a partir da relação entre história e historiografia, projeto que se estendeu não apenas à história, mas a outras áreas das Ciências Sociais, como Economia, Sociologia e Antropologia. Essas informações o Lapa oferece na Introdução de História e Historiografia: Brasil pós-64.
Deste modo, a narrativa que Lapa (1985) faz do movimento de implantação da Ditadura Militar, parece-nos revelador do tempo histórico que possibilitou a construção dessa obra. Num tom de denúncia, o autor entende que é necessária a análise crítica do desempenho cientifico e social dos historiadores nos vinte anos que separam à escrita de História e Historiadores à emergência do regime militar, percebendo uma indissociabilidade entre o que se produziu nesse período e a projeção do movimento político-militar de 1964. Se o golpe se caracterizou segundo modelo clássico “articulando internamente no bojo da conspiração político-militar, com certo e aparente apoio de massa, com financiamento e colaboração de grupos empresariais, seguindo a tomada repentina e ilegal do poder” (LAPA, 1985, p. 12), após “o movimento desdobra-se com a incorporação de setores tecnocráticos, convocados, sobretudo, nos quadros das Universidades para viabilizar um projeto econômico, uma vez que o político mostrava-se amarrado com a aliança político-militar-empresarial” (LAPA, 1985, p. 13).
O período que se segue a 1964 é caracterizado como complexo e contraditório, como exemplo pode-se citar a relação entre governo militar e historiografia, pois, apesar de ter empreendido fortes investidas, o regime e “sua produção ideológica não foi capaz de marcar o conhecimento histórico” (LAPA, 1985, p. 23). A estratégia era outra, se desenvolveu na criação de novos órgãos e na mobilização das agências ligadas ao Ministério da Educação e Cultura, “que então traça a política cultural a ser seguida” (LAPA, 1985, p. 24).
Um espaço privilegiado de construção ideológica do regime que emergiu em 1964 foi a Escola Superior de Guerra, cuja Doutrina da Segurança Nacional empreendeu as principais linhas ideológicas a ser veiculadas na sociedade, sobretudo através de uma nova política educacional, marcada por categorias como Nação e Estado. Para Amaral Lapa: “Está, portanto, nessa proposta certa concepção de história, cujos mecanismos são: Auscultar as “aspirações nacionais”, para apurar o caráter nacional brasileiro, atingindo uma prática política que responda a esses valores específicos.” (LAPA, 1985, p. 26). A concepção de história da Doutrina de Segurança Nacional se constitui na análise de elementos de natureza psicossocial que atuam sobre o poder nacional, tais como: população, estrutura social, opinião pública, moral nacional, etc. A história se resumiria na reprodução das relações do homem com a natureza “onde se relativizam quer o arbítrio humano quer o determinismo geográfico." (LAPA, 1985, p. 28).
No mais, tenta-se recuperar a avelhantada forma de considerar a história como uma multiplicadora de ‘lições’, que se transmitem através de ‘fatores culminantes’, do comportamento dos grandes estadistas, das crises políticas, dos momentos decisivos que ensinam e condicionam o povo e o governo de uma nação. (LAPA, 1985, p. 28).
Portanto, a estratégia da ideologia de segurança nacional não necessariamente é de reprimir a construção de uma história que não atendesse a seus critérios, mas de criar um espaço intelectual alternativo, capaz de engendrar uma cultura histórica calcada na mentalidade que correspondesse aos anseios ideológicos da Doutrina de Segurança Nacional. Segundo Lapa (1985), não ouve interferência sistemática à área especifica de história, o tratamento foi o da indiferença194, resultando em estagnação de certos temas políticos e sociais, que mesmo existindo algumas iniciativas inovadoras e grandes obras publicadas nesse período, a História acaba mergulhada no marasmo, mas “a noite não desceu totalmente sobre todos” (LAPA, 1985, p. 32), pois houve continuo combate intelectual daqueles que continuaram no país, usando “táticas de camuflagens”, para poder alcançar seus objetivos cientifico.
Entre o marasmo de alguns e o combate de outros, entre a repressão política e a estratégia de indiferença, José do Amaral Lapa observa o fato de os “interlocutores” muitas vezes se ignorarem, pois se o governo deixa de perseguir os historiadores, estes acabaram por não tratar o movimento de 1964 numa reflexão sistemática.
Diferentemente, José Jobson Arruda e José Manuel Tengarrinha (1999) dizem que as condições impostas pelo regime militar no Brasil fizeram com que os temas preferenciais sofressem um redirecionamento, em favor de um debate “centrado nas chamadas questões nacionais: o capitalismo, a sociedade escravista, a industrialização, a burguesia, o desenvolvimento, os modos de produção, em busca de uma racionalidade conscientizadora e redentora, ao mesmo tempo.” (ARRUDA & TENGARRINHA, 1999, p. 58). Segundo os autores, a elaboração de uma história demográfica, econômica e a proliferação dos métodos quantitativos se deu devido ao momento no qual se inseria os historiadores naquele momento, pois “batida pela repressão, a comunidade dos historiadores refugia-se nos números,
194 Lapa admite que houve interferência e certo controle intelectual, já que após a tomada de poder “o governo
fez abater sobre a Universidade, através de pressões e repressões de diferente ordem, todo um processo castrador de pensamento, tendo à área de história, entre outras, sido vítima de IMPs, de triagens ideológicas, de cassações e aposentadorias compulsórias, de prisões e intimidações” (LAPA, 1985, p.30). Um exemplo de como os historiadores em algumas faculdades foram perseguidos pelo regime militar no processo de sua implantação em 1964, pode ser encontrado no texto O lado escuro da força: a ditadura militar e o curso de
história da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (FNFi/UB), de Marieta de Moraes
Ferreira (2013), no qual a autora analisa como a FNFi/UB fora abalado pelo golpe de 1964, além de narrar a experiência de perseguição sofrida por historiadores como Maria Yeda Linhas devido a sua orientação política.
aparentemente inofensivos para o regime, mas que traduziam a profundeza da exploração econômica realizada no período colonial, uma forma nebulosa de se discutir o imperialismo” (ARRUDA & TENGARRINHA, 1999, p. 58)
De qualquer forma, para além da repressão política e/ou indiferença, entre os anos 1960 e 1970 a historiografia brasileira inicia um processo de reorientação do colégio de historiadores, que segundo Lapa (1985), pode ser visualizado desde à organizações de eventos, simpósios e encontros específicos da área, passando pela estruturação da Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH), chegando à uma primeira etapa de interiorização do ensino superior, além da crescente institucionalização nacional da política de Pós-Graduação.
Se os anos 60 marcaram a montagem de uma infra-estrutura organizatória, que inclusive viria contribuir para viabilizar a institucionalização geral que se seguiria, (...) pode-se afirmar que os anos 70 vão assinalar, como em nenhum outro momento de sua história, um esforço sistemático e centralizado de envergadura, na produção e reprodução do conhecimento histórico, o que aliás acompanhou o sucedido em outras áreas. (LAPA, 1985, p. 37)
Parece consenso195a percepção de que a partir da década de 1970, com o advento das pós-graduações, a historiografia brasileira vivenciou um momento de intensa dinamização, que se estende desde à construção de novas abordagens, metodologias e objetos à incorporação de uma multiplicidade de referências teóricas à prática da pesquisa histórica no país, verificando-se uma crescente profissionalização da história, refletida nas inúmeras associações e comunidades de pesquisas então fundadas. Também para Carlos Fico e Ronald Polito (1996), a ampliação do número de pós-graduações em História foi essencial no processo de profissionalização da área e de sua respectiva difusão, no mesmo instante em que ocorreu um relevante aquecimento no mercado editorial especifico, uma multiplicação dos enfoques teóricos (sobretudo com um maior contato com a historiografia francesa), e um crescimento e amadurecimento das discussões metodológicas.
Fico e Polito (1996) fazem algumas observações importantes. Em primeiro lugar os cursos de pós-graduação em História no Brasil foram pensados levando em consideração modelos estrangeiros, o que ocasionou um descompasso entre a produção francesa e a leitura brasileira. Por outro lado, é notável a presença maciça do marxismo entre os historiadores, se
195 Em todos os estudos que pesquisamos acerca da historiografia brasileira entre os anos 1970 e 1980 os autores
ressaltam a importância da expansão das pós-graduações para a dinamização da historiografia brasileira nesse período.
caracterizando mais em termos de ambiente acadêmico do que em elaboração conceitual, sendo o contexto político fator relevante para a sua constituição. Além disso, Fico e Polito (1996) assinalam, ainda, a importância da presença dos brasilianista no quadro da historiografia brasileira. Em resumo, o ambiente acadêmico entre os anos 1970 e 1980 se caracterizou pelo predomínio marxista, pela incorporação teórico-metodológica francesa e pela presença norte-americana (FICO & POLITO, 1996).
Margareth Rago (1999) ao analisar as bases dessa nova demanda oferecida pela historiografia brasileira a partir da segunda metade dos anos 1970, relaciona à expansão dos estudos históricos ao contexto social e político da época, mostrando que a situação era paradoxal, pois ao mesmo tempo em que havia um processo de violência e repressão cultural exercida pelo regime vigente, “esta década irrompeu trazendo uma grande expansão dos estudos históricos, das pesquisas e publicações de livros, artigos e revistas, impulsionada pela criação dos inúmeros cursos de pós-graduação no País, pelo próprio crescimento do mercado editorial e, não menos, pela intensa pressão da resistência política organizada, forma e informalmente.” (RAGO, 1999, p. 73)
Um outro elemento importante na construção do que a autora chama de “nova” historiografia brasileira é a crescente participação de diferentes grupos sociais na vida pública, caso das mulheres, dos jovens, negros e operários que trouxeram múltiplas questões e reinvindicações, pois:
As mulheres, principalmente, entraram agressivamente no mercado, participando dos cursos nas universidades, nas escolas em outras instituições, enquanto o movimento feminista levou grande número às praças públicas, exigindo novos direitos sociais e sexuais; os negros colocaram suas demandas na agenda pública, enquanto o movimento operário se reorganizava nos grandes centros industriais e propunha a criação de um importante partido político de massas. (RAGO, 1999, p. 74)
Em Questão social e historiografia no Brasil pós-1980: notas para um debate, Ângela de Castro Gomes (2004) concorda com Margareth Rago (1999) no que diz respeito à importância dos movimentos sociais na passagem da década de 1970 para 1980, ao perceber que “a década de 1980, no Brasil, foi a da anistia (1979), a do desenvolvimento dos movimentos sociais e uma luta rigorosa pelo fim do regime militar” (GOMES, 2004, p. 159), observa que os estudos históricos, em especial a área da história social do trabalho, sofreram alterações decisivas nas pesquisas sobre os séculos XIX e XX, entendendo-os como períodos estratégicos “pois corresponde ao enfrentamento de graves e abrangentes questões” (GOMES,
2004, p. 158). Essas reorientações também estiveram articuladas à intensa transformação teórico-metodológica da historiografia internacional196.
Assim como Margareth Rago (1999), Ângela de Castro Gomes (2004) assinala que como consequência desse contexto político o interesse pelo tema dos movimentos sociais e urbanos, pouco a pouco é retomada a questão social, com abordagens que ressaltam variáveis políticas e culturais, sendo agenciados outros temas, tais como: etnia, negociação e cultura política. Astor Diehl (2004) também afirma que os aspectos sociais passam a predominar na década de 1980, substituindo pouco a pouco o econômico e concorrendo com o político197, pois esse “é o momento de historiar os grupos minoritários, como o negro e sua cultura, a mulher e sua luta pela igualdade de condições. São abertos os espaços, em outras palavras, para a história dos eternos vencidos” (DIEHL, 2004, p. 20). Procurava-se, então, ressaltar a atualidade da ciência histórica198a partir dos vínculos estabelecidos com os movimentos sociais.
A Cultura Historiográfica Brasileira nos anos 1980 para Astor Diehl (2004) foi marcada por um processo de ruptura com o que se fez até então na prática da escrita da história no Brasil. Segundo esse historiador, até a década de 1970 ocorreu o predomínio dos relatos e interpretações lineares, cujos interesses principais estavam ligados às questões “do Estado, da nação, das classes sociais, instituições políticas e dos grandes centros econômicos (...) procurou-se ainda, por meio de sínteses estruturais, ensaiar críticas ao regime político- militar, bem como à tradicional visão histórica que predominava naquele momento.” (DIEHL, 2004, p. 19). A partir de meados dos anos 1980 assistia-se à negação dos modelos
196 Ângela de Castro Gomes (2004) e Margareth Rago (1999) em seus respectivos artigos ressaltam a
importância da incorporação de novas perspectivas teórico-metodológicas, a partir da apropriação de novas referências que contam com historiadores como E. P. Thompson e seu conceito de classe social que se constituiu na crítica à “última instância do econômico” e Carlo Ginzburg, cujo paradigma indiciário aproxima a história da antropologia, além de possibilitar os debates acerca da micro-história. Essas aproximações se deram graças à um crescente interesse do mercado editorial que levou à publicações de obras de autores como