A abrangência de processos de validação por estudos colaborativos está muito bem estabelecida no protocolo harmonizado pela AOAC International, ISO e IUPAC (HORWITZ, 1995), com definição do número mínimo de laboratórios participantes, materiais e replicatas, assim como os parâmetros de desempenho avaliados e as estatísticas aplicáveis na análise de dados. Em contraponto, a maior parte dos documentos que tratam sobre procedimentos para validação intralaboratorial de métodos discute os fatores que afetam a abrangência, mas não estabelece a extensão mínima necessária para este processo.
A abrangência de um procedimento de validação de métodos deve ser suficiente para atender às necessidades de uma determinada aplicação (ISO, 2005 b). O nível de detalhamento de um processo de validação é determinado por circunstâncias como necessidades, possibilidades, riscos, custos e prazos (EAL, 1997). Como a caracterização do desempenho de um método por meio de procedimentos de validação é um processo caro, inevitavelmente, fica limitado às considerações de custos e de tempo. Balancear as restrições ao processo de validação com a necessidade de um método validado é bastante difícil e, em algumas circunstâncias, torna-se mais apropriado subcontratar o serviço de outro laboratório (EURACHEM, 1998).
A validação depende do propósito de uso do método, da técnica escolhida e do procedimento em questão (BRUCE, MINKKINEN & RIEKKOLA, 1998).
Métodos são utilizados para diferentes propósitos como pesquisa, desenvolvimento, produção e processos de controle de qualidade (BRUCE, MINKKINEN & RIEKKOLA, 1998). Geralmente, processos de validação mais aprofundados e que garantam um alto grau de confiabilidade dos resultados são exigidos quando saúde, segurança e grandes valores econômicos estão envolvidos (EAL, 1997), o que corresponde à realidade da maior parte dos ensaios na área de análises de alimentos.
Cada técnica utilizada tem suas características próprias e deficiências, as quais também devem ser consideradas (BRUCE, MINKKINEN & RIEKKOLA, 1998). A extensão de estudos de validação depende, em parte, da experiência acumulada na técnica
analítica usada. Verificações mais estritas podem ser necessárias para técnicas pouco conhecidas ou menos estabelecidas (THOMPSON, ELLISON & WOOD, 2002).
Os requisitos de profundidade nos processos de validação variam ainda com as condições do método de referência, sua maturidade e prevalência de uso (EAL, 1997). Normalmente, processos mais extensos são recomendados para validações de métodos não normalizados que para métodos normalizados, sendo sugeridas verificações mais simplificadas para métodos normalizados previamente validados, validações restritas a alguns parâmetros para métodos normalizados alterados e validações aprofundadas para novos métodos (THOMPSON, ELLISON & WOOD, 2002; KING, 2003; TAVERNIERS, DE LOOSE & VAN BOCKSTAELE, 2004). Infelizmente, a maioria dos métodos publicados na literatura científica fornece informações insuficientes sobre os parâmetros de desempenho dos métodos, o que dificulta a obtenção de credibilidade sobre os mesmos (WOOD, 1999) e torna necessária a realização de validações complementares mais detalhadas pelos laboratórios que pretendem aplicá-los.
A abrangência do processo da validação também é função do tipo de método quantitativo ou qualitativo. São considerados métodos quantitativos aqueles que determinam a quantidade de um determinado analito expressa na forma de um valor numérico com as unidades apropriadas; e métodos qualitativos aqueles que permitem identificar um analito com base nas suas propriedades físicas, químicas ou biológicas (EC, 2002). Métodos quantitativos são definidos também como aqueles capazes de produzir resultados quantitativos com exatidão e precisão aceitáveis; e métodos qualitativos como aqueles capazes de detectar a presença do analito, mas com informações quantitativas limitadas ou sem informações quantitativas (HILL & REYNOLDS, 1999). Para métodos quantitativos são sugeridas avaliações de parâmetros de desempenho como linearidade, faixa, sensibilidade, efeitos de matriz, seletividade, exatidão, precisão e limites. Enquanto para métodos qualitativos o conjunto de parâmetros avaliados é restrito, por exemplo, à seletividade e limite de detecção (ICH, 1996; JENKE, 1996; AOAC, 1998 b; EURACHEM, 1998; HILL & REYNOLDS, 1999; EC, 2002; TAVERNIERS, DE LOOSE & VAN BOCKSTAELE, 2004). Diferentes extensões recomendadas para processos de validação de métodos quantitativos e qualitativos encontram-se ilustradas na Tabela 2. A AOAC (1998 b) apresenta alguns parâmetros adicionais para validação de métodos qualitativos como reação cruzada e incidência de
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Tabela 2 - Variação das extensões de processos de validação em função do tipo de método (quantitativo ou qualitativo) ICH (1996)
JENKE (1996) AOAC (1998 b) EURACHEM (1998)
HILL & REYNOLDS
(1999) EC (2002)
TAVERNIERS et al. (2004) Parâmetro de
desempenho Quantitativo Qualitativo Quantitativo Qualitativo Quantitativo Qualitativo Quantitativo Qualitativo Quantitativo Qualitativo Quantitativo Qualitativo
Linearidade* + - + - + - + - + - + - Faixa + - NA NA + - + - NA NA + - Sensibilidade NA NA + - + - NA NA NA NA + - Confirmação da identidade NA NA NA NA + + NA NA NA NA NA NA Reação cruzada NA NA - + NA NA NA NA NA NA NA NA Efeitos de matriz NA NA NA NA NA NA + - NA NA NA NA Seletividade/Especificidade** + + + + + + + + + + + + Exatidão + - + - + - + - + - + - Precisão + - + - + - + - + - + - Recuperação NA NA + + + - NA NA + - + - Incidência de resultados
falsos positivos e negativos NA NA - + - + - + NA NA NA NA
Limite de detecção + + + - + + NA NA NA NA - + Limite de decisão NA NA NA NA NA NA NA NA + + NA NA Limite de determinação/ Limite de decisão NA NA + - NA NA NA NA NA NA NA NA Limite de quantificação + - + - + - NA NA NA NA + - Capacidade de detecção NA NA NA NA NA NA NA NA + + NA NA
Menor nível de calibração NA NA NA NA NA NA + - NA NA NA NA
Aplicabilidade NA NA NA NA NA NA NA NA + + NA NA
Estabilidade NA NA NA NA NA NA + + + + NA NA
Robustez + + NA NA + + NA NA + + + +
Estimativa da incerteza NA NA NA NA + - NA NA NA NA NA NA
* Parâmetro denominado linearidade/curva de calibração por AOAC (1998), calibração por HILL & REYNOLDS (1999) e curva de calibração por EC (2002). **Parâmetro denominado seletividade/especificidade por EURACHEM (1998), EC (2002) e TAVERNIERS et al. (2004), e especificidade nas demais referências. NA = parâmetro não aplicável, + = avaliação recomendada, - = avaliação não recomendada.
falsos negativos) como uma forma de expressar a precisão para métodos qualitativos. EURACHEM (1998) aborda ainda o estudo da confirmação da identidade do analito junto à avaliação do parâmetro seletividade.
Assim, se por um lado a extensão de um processo de validação e escolha dos parâmetros de desempenho a serem avaliados depende das condições do método (normalizado ou não normalizado) e do tipo de método de ensaio (quantitativo ou qualitativo); por outro lado, o plano de validação é determinado pelos requisitos analíticos definidos com base nas necessidades dos clientes ou em determinações regulamentares (TAVERNIERS, DE LOOSE & VAN BOCKSTAELE, 2004). Como o cliente ou a autoridade regulamentadora podem definir diferentes requisitos de tempo, custos e nível de qualidade em função do propósito de aplicação, dentro de um único laboratório podem existir diferentes níveis de qualidade de métodos associados a diferentes níveis de validação (BRUCE, MINKKINEN & RIEKKOLA, 1998).