Defraudados os desígnios de poder complementar o estudo do Acheulense no vale do rio Lis com a análise das indústrias do Paleolítico inferior detectadas ao longo do litoral estremenho adjacente, a nossa atenção voltou-se para o vale do rio Tejo. Muito embora a maior parte das estações acheulenses aí assinaladas se concentrasse a sul do rio, na respectiva margem esquerda, entre Alpiarça, a montante, e Alcochete, a jusante, numa zona onde os terraços fluviais do rio se encontram particularmente desenvolvidos, conheciam-se também inúmeros vestígios de indús- trias líticas atribuídas ao Paleolítico inferior ao longo da margem direita.
Não muito longe do fim do troço internacional do rio Tejo, a jusante da confluência do rio Ponsul, surge nas imediações de Vila Velha de Ródão um primeiro núcleo de jazidas paleolíticas identificadas nos inícios dos anos setenta pelo Grupo para o Estudo do Paleolítico Português (G. E. P. P.). Os materiais líticos que o seu estudo permitiu recolher foram genericamente associados ao Paleolítico inferior. Mas se nalguns casos tal classificação foi aferi da a partir da análise tipológica das colecções aí reunidas, noutros foi determinada pela associa- ção das peças recolhidas a um terraço médio do Tejo (32-42 m ), depósito esse sobre o qual to- das as jazidas referidas se localizavam.
Na estação paleolítica de Vilas Ruivas as peças atribuídas ao Paleolítico inferior foram detectadas num nível subjacente à ocupação do Paleolítico médio, cuja parcial escavação em extensão se realizou entre 1979 e 1980 (G.E.P.P., 1983). Tratava-se porém de um conjunto restrito de materiais, igualmente pouco expressivos em termos técnicos e tipológicos, o que levou a que a sua cronologia fosse determinada quer pelo posicionamento da camada em que foram recolhidos relativamente à posterior ocupação do local no decurso do Paleolítico médio, quer pela alteração pedológica localmente evidenciada pelo terraço fluvial, permitindo sugerir a sua eventual correlação com um terraço similar do rio Tejo identificado na zona de Toledo e considerado mindeliano (G.E.P.P., 1974-1977). Artefactos tipológicamente associáveis ao Acheulense foram ainda encontrados no interior do terraço de 32-42 m na jazida de Porto do Tejo I, bem como na superfície do mesmo terraço na jazida da Celulose do Tejo.
Nesta região o Paleolítico inferior encontra-se contudo particularmente bem representado na estação do Monte Famaco, onde se recolheram à superfície até meados dos anos oitenta mais de um milhar e meio de objectos talhados. Estes materiais foram agrupados em dois conjuntos, diferenciados entre si em função do maior ou menor alteração do seu estado físico por desgaste das respectivas arestas. Os objectos rolados, num total de 34 peças, foram considerados
contemporâneos da base do terraço de 32-42 m, cujos testemunhos se encontram apenas parcialmente conservados, tendo uma sondagem realizada num desses locais permitido aliás a recolha de três objectos igualmente rolados. Concomitantemente, o estudo tipológico deste conjunto revelou também uma composição que sugeria a sua associação ao chamado “Acheu- lense antigo” identificado em diversas jazidas do Paleolítico inferior da Meseta Ibérica, entre as quais se destacava a estação acheulense de Pinedo, em Toledo (RAPOSO, 1987).
Bastante mais numerosos, os materiais não rolados proviriam da superfície das coluviões que cobrem localmente o terraço do Tejo, consideradas contemporeâneas do Mindel-Rïss. Muito embora o seu estudo exaustivo se encontre ao fim de todos estes anos por realizar, os responsáveis pelos trabalhos entretanto aí efectuados tem admitido amiúde, com base em “observações de carácter mais qualitativo do que quantitativo” (RAPOSO, 1987, p. 157), a sua similitude com o “Acheulense médio evoluído” identificado em diversos estudos realizados na área da Meseta.
Ainda na mesma área, recentes prospecções realizadas ao longo do actual leito do rio Ponsul e do paleo-canal pelo qual este rio originalmente desembocava no rio Tejo, nas imediações de Vila Velha de Ródão, permitiram a identificação de diversos materiais líticos atribuíveis ao Paleolítico (BICHO et al., 1994). Porém, tais descobertas, embora confirmando indícios de anteriores investigações (ALMEIDA e VEIGA FERREIRA, 1970), encontravam-se na sua maior parte dispersas e desprovidas de uma adequada contextualização geoarqueológica, facto a que não seria estranho para os seus responsáveis a circunstância de as formações sedimentares quaternárias localmente presentes evidenciarem uma génese grosseira, indiciando mesmo por vezes um regime fluvial de tipo torrencial. De acordo com os mesmos autores, os artefactos nucleiformes detectados - bifaces, machados de mão ou seixos talhados - seriam associáveis ao Paleolítico inferior, enquanto os núcleos discóides e Levallois, bem como as lascas simples e Levallois se enquadrariam genericamente no Paleolítico médio.
Para jusante de Vila Velha de Ródão e até à confluência do rio Zêzere, surgem ainda na mar- gem direita do Tejo diversas jazidas do Paleolítico inferior que se dispersam pelos concelhos de Mação, Gavião e Abrantes.
À excepção de Amoreira e de Rio de Moinhos, no concelho de Abrantes, onde os achados se circunscreveram à identificação em ambos os locais de um único artefacto cuja tipologia indicia va a sua associação às indústrias acheulenses (PEREIRA, 1971, SANTOS NETO, 1972), as restantes jazidas assinaladas correspondem a colecções de valor quantitativo variável, todas elas oriundas contudo de recolhas de superfície. As mais antigas descobertas realizaram-se na super- fície de um terraço do rio Tejo, em Ortiga, onde Lereno Antunes Barradas detectou nos anos quarenta dois utensílios paleolíticos e um número não especificado de lascas, tendo a análise de tais materiais permitido relacioná-los com o “Chelense” e o Acheulense (BARRADAS, 1948).
Registe-se que a observação circunstanciada do desenho de um dos artefactos descritos sugere a sua eventual classificação como um machado de mão de tipo VII.
Gavião, elas reportam-se a colecções de objectos líticos talhados encontrados na superfície de amplas cascalheiras poligénicas que tiveram boa parte da sua origem no coluvionamento de depósitos terciários relativamente grosseiros (PEREIRA, 1970; CARDOSO, 1978; CARDOSO e CARVALHO, 1987). Em geral o estudo e classificação destes materiais efectuou-se de acordo com o ”método das séries”, permitindo a identificação de múltiplas séries, desde uma constituída por uma única peça e atribuída ao “Abbevilense”, até outras séries mais frequentes e relativamente mais representativas, consideradas genericamente associáveis ao“Acheulense superior passando a Languedocense”.
O núcleo mais importante de locais e jazidas arqueológicas referenciadas em conexão com o Paleolítico inferior na margem direita do rio Tejo concentra-se porém em torno da bacia hidrográfica do rio Almonda, numa zona onde a própria planície aluvial do Tejo se encontra par- ticularmente desenvolvida, o mesmo sucedendo com as respectivas formações fluviais quaterná- rias aí representadas.
As primeiras descobertas que se realizaram nesta zona remontam, porém, ao início dos anos quarenta, altura em que Georges Zbyszewski recolheu materiais atribuíveis ao Acheulense superior na Costa do Castelo Velho e em Eirinha, no primeiro caso em associação com o “Tayacense” e no segundo com o Mustierense. O estudo destes achados permaneceu contudo inédito durante algumas dezenas de anos (ZBYSZEWSKI e VEIGA FERREIRA, 1972-1973), embora a existência destas jazidas tenha sido previamente assinalada nas primeiras publicações que se efectuaram sobre o Paleolítico da região (SERRA, 1962; PAÇO, 1965-1966). Entretanto, em meados dos anos sessenta, Afonso do Paço descreveu dois artefactos do paleolítico inferior encontrados separadamente nos arredores da povoação de Moitas Vendas (PAÇO, 1964). Mas tal como os materiais anteriormente recolhidos por G. Zbyszewski, também estes novos achados provinham da superfície do maciço calcário, tendo sido ambos detectados no topo do Arrife. A presença de vestígios do Paleolítico inferior nos terrenos da vizinha bacia terciária do Tejo só viria a ser posteriormente assinalada quando Afonso do Paço recolheu um utensílio talhado na Fonte da Barreta, na superfície de um terraço fluvial do rio Tejo, bem como dois outros arte- factos paleolíticos na Villa Cardilius, onde aparentemente haviam sido integrados nas constru- ções romanas aí edificadas (PAÇO, 1965-1966).
No seu conjunto estas descobertas testemunhavam apenas ténues vestígios da presença do homem do Paleolítico inferior na região, muito embora indiciassem claramente os numerosos achados que os trabalhos preparatórios da cartografia geológica da região haveriam de proporcionar em seguida. Na verdade, entre 1970 e 1974 surgiram diversas publicações sobre jazidas do Paleolítico inferior assinaladas na região em diferentes níveis de terraços quaternários do rio Tejo, ou identificadas na superfície de formações fluviais similares rela- cionadas com o rio Almonda e com a ribeira do Alvorão. As únicas excepções consistiam na colecção proveniente da jazida de Chamiço, onde os materiais haviam sido recolhidos na su- perfície miocénica de uma vertente adjacente a um terraço considerado “Siciliano” (ZBYS- ZEWSKI et al., 1970a), e nos materiais oriundos da Charneca da Rexaldia, local em que as
peças talhadas se tinham também encontrado na superfície de afloramentos miocénicos (ZBYSZEWSKI e VEIGA FERREIRA, 1972-1973).
Em termos metodológicos estes estudos seguiram os princípios definidos pela escola que procurou protelar até à actualidade as investigações clássicas efectuadas por H. Breuil e G. Zbyszewski nos anos quarenta. Os materiais foram divididos por diferentes séries em função da alteração do seu estado físico e da respectiva pátina, isto independentemente do valor das amostragens analisadas. Se nas estações paleolíticas de Chões de Alpompé e da Ramalhosa as colecções estudadas incluíam cada uma delas mais de três centenas de peças (ZBYSZEWSKI et
al.,1972, ZBYSZEWSKI et al., 1971), e em Castelo Velho tinham sido reunidas pouco mais de
uma centena de objectos talhados (ZBYSZEWSKI et al., 1974), nas restantes jazidas as colecções estudadas só nalguns casos compreendiam pouco mais de meia centena de peças (ZBYSZEWSKI et al., 1970b). No Poço Covão, na ribeira do Alvorão, havia-se mesmo assi- nalado a presença de um único artefacto e no Casal da Pinheira, no vale do rio Almonda, os achados inventariados eram oriundos da superfície de diferentes retalhos de terraços quaterná- rios (ZBYSZEWSKI e VEIGA FERREIRA, 1972-1973).
Situação paradigmática registava-se, contudo, no estudo da estação paleolítica de Mato de Miranda, onde um conjunto de 51 objectos talhados foi divido em seis diferentes séries (ZBYSZEWSKI et al., 1973). A série mais antiga era constituída por uma única peça “muito rolada, com coloração castanha”, atribuída ao “Abbevilense”, enquanto a mais recente engloba- va, por seu turno, 10 peças com “arestas vivas e sem pátina”, consideradas do “mustiero-langue- docense”. De permeio surgia a série IV, que integrando 15 objectos líticos com “ligeira pátina eólica” era de todas a mais representativa, correspondendo ao “Acheulense superior”.
Estes trabalhos tiveram ainda continuidade com a descoberta e consequente publicação de algumas peças talhadas na superfície de um terraço do Tejo situado nas vizinhanças da povoação de Azinhaga, no concelho da Golegã (SANTOS NETO, 1974-1977), bem como com o estudo dos materiais recolhidos na superfície de um outro terraço, em Casal do Conde, no concelho do Entroncamento (ZBYSZEWSKI e VEIGA FERREIRA, 1986).
No seu conjunto estas publicações testemunhavam bem a importância da região para o estu- do do Paleolítico inferior, deixando antever a possibilidade de se poder vir a correlacionar boa parte dos achados realizados com algumas das formações fluviais quaternárias que se desenvol- viam ao longo da margem direita do rio Tejo e nas principais redes hidrográficas adjacentes. Aliás, embora as colecções estudadas tivessem sido em grande parte recolhidas na superfície de diversas formações fluviais, a sua eventual associação a tais depósitos não podia assentar exclu- sivamente no intenso boleamento das suas arestas. Na verdade, como aliás adiante se verá, o estado físico dos materiais talhados provenientes do interior de um depósito fluvial depende de um conjunto de variáveis que nem sempre é possível seleccionar apenas a partir do grau de alteração das suas arestas.
Compreender-se-á assim melhor as razões que nos levaram a também centrar a nossa atenção na região da margem direita do rio Tejo que se estende entre Vila Nova da Barquinha, a mon-
tante, e a foz do rio Alviela, a jusante, abarcando ainda a rede tributária adjacente do rio Almonda. Procurámos não só analisar o particular desenvolvimento que as formações fluviais do rio Tejo localmente evidenciavam, no intuito de se estabelecer as bases de uma crono- estratigrafia de referência para os materiais arqueológicos ai detectados, como também alargar tal estudo a uma ampla rede de drenagem periférica do Maciço Calcário da Estremadura que, curiosamente, se desenvolve na vertente oposta à da bacia hidrográfica do rio Lis.
Os trabalhos que se realizaram na região desde 1988 contaram com a colaboração da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia (S.T.E.A.), tendo permitido tanto a desco- berta de novas jazidas paleolíticas, como também levaram à reunião nalgumas dos locais já co- nhecidos de novas e significativas colecções, incluindo frequentemente a recolha de materiais em cortes abertos nas formações fluviais (CUNHA-RIBEIRO, MAURÍCIO e SOUTO, 1995, CUNHA-RIBEIRO, 1996-1997)). Paralelamente, fomos ainda convidados pelo Dr. João Zilhão, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a estudar os materiais acheulenses por ele detectados no interior da Gruta do Almonda, nas imediações da Entrada do Vale da Serra, situação essa que nos levou também a colaborar numa intervenção arqueológica realizada no in- terior da cavidade cársica, com o intuito de melhor definir as condições de jazida dos materiais aí identificados à superfície (ZILHÃO, MAURÍCIO e SOUTO,1993).
Tendo-se, porém, previsto inicialmente a integração dos resultados destas investigações no âmbito da presente dissertação, optou-se todavia por não concretizar tal desígnio dada a ampla dimensão dos resultados entretanto obtidos no vale do rio Lis, muito embora se pretenda dar em breve à estampa de forma completa os dados entretanto coligidos e as conclusões a que o seu es tudo nos permitiu chegar.
Trabalhos mais recentes tem ainda dado conta de outras descobertas realizadas na mesma zona em paralelo com as nossas próprias investigações. É o caso das prospecções efectuados descontinuamente, entre 1985 e 1992, por Carolino Rodrigues e Farinha dos Santos na área do concelho de Torres Novas, de que se conhece já uma primeira notícia preliminar onde os respectivos resultados são sumariamente apresentados (RODRIGUES e FARINHA DOS SANTOS, 1994). De igual modo se assinalaram ainda mais recentemente diversos achados de materiais paleolíticos dispersos entre a região a norte do Entroncamento e a área de Tancos, a montante, alguns dos quais efectuados no âmbito de um Projecto de Carta Arqueológica do concelho de Vila Nova da Barquinha (CRUZ, 1997). Também aqui se desconhece porém frequentemente a adequada caracterização dos materiais recolhidos bem como a sua contextualização no quadro geoestratigráfico da região. Estudos mais recentes sugerem porém a proveniência de boa parte destes objectos líticos da superfície de um terraço médio do rio Tejo, tendo-se mesmo detectado algumas peças inseridas nos respectivos depósitos. Já a classificação de alguns destes vestígios como pertencentes a uma virtual indústria “Languedocense” afigura- se pouco fundamentada e está longe aliás de se poder considerar pacífica (GRIMALDI, ROSINA e CORRAL FERNANDEZ, 1997).
presença de um pequeno conjunto de jazidas do Paleolítico inferior na zona de Vila Nova da Rainha e de Alenquer. As colecções de objectos líticos talhados aí recolhidas, embora nu- mericamente pouco representativas, provinham da superfície de formações fluviais quaternárias, tendo-se procedido ao seu estudo nos anos quarenta (BREUIL e ZBYSZEWSKI, 1945) e, mais tarde, nos anos sessenta (PAÇO, 1966), de acordo com o clássico “método das séries”.