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O livro Ritratti su misura454, de Elio Filippo Accrocca, publicado em 1960,

trazia uma entrevista de Calvino, que se tornaria um trecho “clássico”, repetido por biógrafos, estudiosos e inclusive republicado pela viúva de Calvino no livro póstumo

Eremita a Parigi:

“Sou filho de cientistas; meu pai era agrônomo, minha mãe botânica; ambos professores universitários. Entre meus familiares, só os estudos científicos tinham prestígio; um tio materno era químico, professor universitário, casado com uma química (aliás, tive dois tios químicos casados com duas tias químicas); meu irmão é geólogo, professor universitário. Eu sou a ovelha negra, o único literato da família.”455 Mais para “seguir a tradição científica familiar”456 do que por convicção, Calvino chega a começar o curso de Agronomia, “mas já tinha a literatura na cabeça, e parei”457. No entanto, mesmo rejeitando essa “vocação familiar” e optando decididamente pelas humanae litterae, Calvino não pode (provavelmente jamais o tenha desejado) apagar toda a sua experiência, sua formação, sua convivência com a ciência458; é filho de dois dos maiores cientistas da primeira metade do século XX na Itália, nas áreas de agronomia e botânica. Calvino é filho da ciência, e na religião da ciência foi educado. Entretanto, é necessário enfatizar: seu interesse pela ciência não era o mesmo de um cientista. Afirma-o ele mesmo, era um literato. A esse respeito, também é taxativa Esther Calvino, quando afirma:

“Já se falou muito dos seus interesses pela ciência. Mas é preciso esclarecer: não era um cientista (...) o que lhe interessava era o mistério do universo, não a ciência enquanto tal.”459

454 ACCROCCA. E. F. Ritratti su misura. Venezia: Sodalizio del libro, 1960. O texto da entrevista

publicada no livro por Accrocca é uma reelaboração de uma resposta a um questionário já publicado em janeiro de 1956, na seção “A nova literatura”, da revista literária italiana Il Caffè, ano 4, nº 1.

455CALVINO, I. “Retrato sob medida”, in Eremita em Paris, op. cit., p. 27. 456 Idem, p. 28.

457 Idem, ibidem.

458 Comprova-o o fato de que mesmo décadas mais tarde, em seu último ano de vida, Calvino não só

continuará a se interessar por ciência mas afirmará que “entre os livros italianos dos últimos anos aquele que mais li, reli e meditei é a Breve storia dell’infinito, de Paolo ZELLINI (Milano: Adelphi,

1980).” In CALVINO. I. Lezioni americane, op. cit., p. 77. Trad. bras., p. 83.

Sem dúvida, interessado em ciência, mas não como profissão e nem tampouco como parâmetro de conhecimento; muito mais como estímulo à imaginação460 e desafio epistemológico461 e linguístico-estético462. Inúmeras vezes já havia se manifestado nesse sentido o próprio Calvino, indicando inclusive a sua perspectiva em relação à ciência:

“ ‘ciência’ no nosso século significou e significa uma quantidade de coisas muito diferentes, a indução ou a dedução, a adoção do experimental ou a construção de modelos matemáticos, o mecanicismo ou o indeterminismo (...). Mas o problema de fundo é sempre o da possibilidade ou impossibilidade de conhecer o mundo.”463 Possibilidade de conhecer o mundo: eis aí o movente primeiro de Calvino, escritor que como poucos sempre entendeu e praticou a literatura como forma de conhecimento: daí a multiplicidade de suas abordagens aos mundos escrito e não escrito. A obsessão pelo conhecimento, aliada ao pendularismo epistemológico que o faz oscilar continuamente entre o real e o fantástico, o concreto e o abstrato, o fantástico e o científico, parecem estar entre os principais motivos que levarão Calvino, no início dos anos 60, a um retorno às origens, à tradição científica da família. Nesse momento, já atingida a maturidade, intelectual inquieto e “onívoro” como poucos, seus interesses voltam-se com grande força para as ciências: matemática, biologia, cosmologia, antropologia, psicologia, teoria da relatividade, tornam-se suas leituras habituais. Com muito interesse, Calvino frequenta os seminários de Barthes e Greimas, em Paris; estuda a filosofia de Lacan e Derrida, assiste as aulas de Lévi-Strauss. Geno Pampaloni, amigo e estudioso de Calvino, afirma:

460“Entre os livros científicos nos quais meto o nariz à procura de estímulos para a imaginação...”, in

CALVINO, I. Lezioni americane, op. cit., p. 79. Itálico nosso. Trad. bras., p. 84.

461

Gian Carlo ROSCIONI, estudioso de Calvino, afirma: “a ciência era para ele (...) o pretexto de uma espécie de aposta consigo mesmo. Ele quis acolher o desafio que o específico saber do nosso tempo – um saber em que a ciência e a tecnologia ocupam o lugar que sabemos – põe a homens como nós, com um background cultural ainda fundamentalmente humanístico.” ROSCIONI, G. C. “Calvino editore”, in FALASCHI, G. (Org.). Italo Calvino – Atti del convegno Internazionale, op. cit., p. 36.

462 “O discurso científico tende a uma linguagem puramente formal, matemática, baseada em uma

lógica abstrata, indiferente ao próprio conteúdo. O discurso literário tende a construir um sistema de valores, no qual cada palavra, cada signo é um valor pelo simples fato de ter sido escolhido e fixado sobre a página. Não poderia haver nenhuma coincidência entre as duas linguagens, mas pode haver (justamente pela sua extrema diversidade) um desafio, uma aposta entre elas.” CALVINO, I. “Due interviste su scienza e letteratura” (1968), in Una pietra sopra, op. cit., p. 190-191. Trad. bras., p. 226- 227.

463

CALVINO, I. “Vittorini: progettazione e letteratura” (1967), in Una pietra sopra, op. cit., p. 129. Trad. bras., p. 156-157.

"Se as primeiras provas de Calvino mostravam inequivocamente uma sua notável competência em botânica e zoologia, (...) aquelas datadas a partir dos anos sessenta mostram-nos um escritor atento às ciências da natureza, bem como às chamadas ciências humanas. O ‘leitor cultíssimo’ das Cosmicomiche em diante parece imerso em um mar de textos científicos: semiologia, astronomia, física, lógica, etc."464

O próprio Calvino também, nos ensaios, nas entrevistas, nos textos de ficção, repetidamente explicita seu fascínio pelas ciências, mais especificamente por alguns ramos da ciência, como a informática, ainda incipiente naquele momento, ou a cosmologia e a astronomia. Nesse sentido há uma declaração muito esclarecedora:

“Os anos 60 são uma época de renovação do horizonte cultural, vista a inadequação do modo de conhecimento humanístico para compreender o mundo. Linguística, antropologia estrutural, semiologia: a frequência a esses territórios se faz sentir nos meus escritos dessa temporada, embora não me abandone a relutância em confiar inteiramente em um método que tenda a se tornar sistema onicompreensivo. Prefiro dispor em torno de mim um conjunto de elementos heterogêneos e não ligados entre si: as ciências da natureza além das ‘ciências humanas’, a astronomia e a cosmologia, o dedutivismo e a teoria da informação.”465

Anos 60, os anos do boom econômico, do desenvolvimento da informática, da conquista do espaço; os anos da novidade absoluta que são Le cosmicomiche. Unindo o cósmico e o cômico, o texto é concebido senoidalmente, na eterna oscilação da abordagem cognoscitiva de Calvino, entre observação crítica e imaginação fantástica, marca plena de seu estilo. Essa primeira publicação, em 1965, parece-nos uma indicação clara do que fosse naquele momento o foco principal da atenção de Calvino no âmbito de suas reflexões sobre a história humana, a sociedade e a literatura. A ciência ocupa uma posição absolutamente central; uma posição que se deslocará com os anos, mas não será jamais abandonada466.

O próprio título, Le Cosmicomiche, além da remissão aos comics, demonstra a escolha de um ponto de vista a partir do qual o leitor tem acesso às reflexões do autor: o cósmico é matéria e energia, com seus necessários atributos de infinitude espaço-temporal, de grandiosidade e variedade, tudo em perfeita harmonia, respondendo a uma multiplicidade ordenada que constitui um grande mistério; a

464 PAMPALONI, G., in FALASCHI, G. (Org.). Italo Calvino - Atti del Convegno Internazionale, op. cit.,

p. 227.

465

CALVINO, I. “Sotto quella pietra”, in La Repubblica, edição de 15 de abril de 1980.

466 A série de “cosmicômicas” que se inicia com Le cosmicomiche, de 1965, continuará com Ti con

zero, de 1967, La memoria del mondo e altre storie cosmicomiche, de 1968, e será concluída, em

1984, com Cosmicomiche vecchie e nuove, todas reunidas em um único volume na tradução brasileira: CALVINO, I. Todas as cosmicômicas, op. cit.

forma do cômico para tratar desse cósmico incognoscível in toto é a escolha de Calvino de dar a dimensão (caótica) do humano em suas infinitas e frequentemente ridículas tentativas de explicação do universo, de seu nascimento, de sua evolução, da relação homem-universo. É o olhar humano perplexo diante da multiplicidade ordenada do cosmos: o texto resultante é uma fantasia cômica sobre a lógica cósmica467. Mas é claro que Le cosmicomiche é apenas a ponta do iceberg; o interesse de Calvino pela ciência vai muito além, muito mais fundo do que os elementos mais visíveis em suas cosmicômicas.

Calvino encontra-se, nesse momento, bastante descontente com os rumos da literatura italiana468, fato confirmado por Baranelli e Ferrero, que trabalharam na editora Einaudi com Calvino, e que reproduzem trecho de uma carta de 1964, em que Calvino, certamente retratando com tintas demasiado fortes seu “grande cansaço da literatura”, confessa:

“Desde há algum tempo leio somente livros de astronomia (...) naturalmente não falo disso com ninguém. Na verdade, não falo com ninguém de nada, ao menos no que diz respeito ao ‘mundo literário’. A vida literária é como a vida militar. Enquanto se é jovem, pode-se suportar, mesmo com as suas insatisfações. Mas não pode ser prorrogada por toda a vida: chega a hora de dar baixa.”469

Naturalmente Calvino, apesar do enfático desabafo, não “deu baixa” da literatura; mas, descontente especialmente com a linguagem da literatura italiana nesse momento, vê na ciência uma alternativa a mais de inspiração, uma possibilidade de renovação e reutilização de idéias, conceitos, de modelos e linguagens gastos pela univocidade do quotidiano. Por isso, os anos 60 são também (ou por consequência) o momento em que ele mais discute sobre a língua; 1965, o ano de publicação das Cosmicomiche, é o mesmo ano do ensaio “L’italiano, una lingua tra le altre”, em que defende: “O meu ideal linguístico é um italiano que seja o máximo possível concreto e o máximo possível preciso”470. A afirmação é de 1965, mas o conceito é bem mais antigo; já em 1957 podemos verificar que Calvino já percebia que uma, ou a alternativa à crise da linguagem literária estava na precisão

467 “Queremos da literatura uma imagem cósmica”, diz Calvino. “La sfida al labirinto” (1962), in Una

pietra sopra, op. cit., p. 97. Trad. bras., p. 116.

468

Basta conferir o título da entrevista de Calvino a Madeleine Santschi: “Je ne suis pas satisfait de la littérature actuelle en Italie”, publicada na Gazette de Lausanne, nº 127, de 3-4 junho de 1967, p. 30, cit. por MILANINI, C. (Org.). Italo Calvino – romanzi e racconti. Vol. II, op. cit., p. 1347.

469 BARANELLI, L. e FERRERO, E. Album Calvino. Milano: Mondadori, 2003, p. 180-181. 470

CALVINO, I. “L’italiano, una lingua tra le altre” (1965), in Una pietra sopra, op. cit., p. 121. Trad. bras., p. 146.

ou “exatidão” (lexical mas também sintática) aliada à desejada variedade de temas: a língua literária deve beber em todas as fontes, deve servir-se de todos os discursos, de todas as linguagens. Clássica já é sua declaração de que:

"Vivemos em uma sociedade literária baseada na multiplicidade das linguagens, e sobretudo na consciência dessa multiplicidade."471

Nessa declaração, pela primeira vez (pelo que pudemos apurar), o autor teoriza o conceito de multiplicidade como valor. Eis aqui o surgimento e a consolidação do termo essencial, fulcral, de caracterização da obra de Calvino, posteriormente reconhecido por ele mesmo nas Lezioni americane como um dos valores a conservar para a literatura deste milênio: a multiplicidade (associada à exatidão). A partir desse momento (passagem dos anos 50 aos 60), parece que, definitivamente, a coerência de seu projeto estético baseia-se nessa (nova? ou apenas nesse momento explicitada?) consciência da necessidade de reproduzir no texto literário a mesma multiplicidade potencial do mundo. Demonstrando um amadurecimento progressivo dessa consciência, ele vai afirmar em seguida (em 62, no fundamental ensaio “La sfida al labirinto”):

"Para mim vem crescendo cada vez mais uma exigência estilística mais complexa, que se realize através da adoção de todas as linguagens possíveis, de todos os possíveis métodos de interpretação, que exprimam a multiplicidade cognitiva do mundo em que vivemos.”472

Uma multiplicidade que obviamente comporta o risco do caos. Naturalmente Calvino, um obsessivo, compulsivo, neurótico cultor da ordem, para evitar esse pré- anunciado caos, procura configurar essa multiplicidade potencial na restrição de uma unidade estilística que possa abrigar os mais diversos temas e discursos, continuando a ser multiplicidade, mas ordenada, restringida pela exigência de exatidão, lógica e terminológica. Mais do que um estilo estético-literário, essa tendência a uma multiplicidade ordenada e delimitada por critérios de exatidão parece ser o estilo mental de Calvino: sua forma mentis. Uma forma mentis própria do cientista, que para Calvino se traduz em uma atitude poética. E é aí que Calvino se revela plenamente:

471

“Note e notizie sui testi: Il barone rampante”, in MILANINI, C. (Org.) Italo Calvino - romanzi e

racconti. Vol. I, op. cit., p. 1331.

472

"A atitude científica e a poética coincidem: ambas são atitudes ao mesmo tempo de pesquisa e de projeto, de descoberta e de invenção. (...) O caminho para tornar una a cultura do nosso tempo, de outro modo tão divergente nos seus discursos específicos, está justamente nessa atitude comum.”473

Eis aqui o denominador comum da produção calviniana: uma abordagem epistemológica ao real e ao fantástico, em que atitude poética e atitude científica coincidem, orienta tanto sua produção ficcional quanto ensaística, sua atividade de editor, de cronista, de leitor de livros e de cidades, de apreciador de artes e de paisagens, de pessoas, animais e plantas. Na sua infinita curiosidade iluminista, Calvino demonstra uma verdadeira compulsão pelo conhecimento (histórico, científico, artístico, literário) e pela organização desse conhecimento; porque conhecer para ele significa ordenar, combinar, organizar, classificar, sistematizar. Daí seu interesse pelas listas, pelos catálogos, pelas coleções, pelas bibliotecas, pela ciência. Daí evoluirá sua perspectiva futura, que o fará (como a seus personagens) perscrutar o mundo com olhar de arqueólogo474, consultar o mundo como uma enciclopédia475. Essa atitude ou abordagem ao conhecimento (à ciência e à ficção) se fundamenta e se explica naquela que é a mais pura síntese da ambição calviniana: a ambição de construir “uma ordem mental tão sólida e complexa a ponto de conter a desordem do mundo”476. Tal ordem mental, capaz de conter a desordem do mundo teria que ser, necessária e idealmente, capaz de transformar a desordem em multiplicidade ordenada – o que é, ao fim e ao cabo, a essência de todo o esforço intelectual de Calvino. Toda a produção de Calvino, seja ficcional, seja crítica, é um constante, profundo e incansável esforço de produção de ordem, de organização e sistematização, de transformação do desordenado e do caótico em múltiplo e estruturado. Daí a extrema importância que o próprio Calvino dava ao trabalho de seleção, tradução, sistematização e edição das fábulas populares italianas, que realizou de 1954 a 1956, para a editora Einaudi. Não parece exagero vislumbrar, justamente nesse seu trabalho com o mito, com o fantástico, com a fábula, o processo que desencadeou uma metodologia de estudo e trabalho de

473

CALVINO, I. “La sfida al labirinto” (1962), in Una pietra sopra, op. cit., p. 84. Trad. bras., p. 103.

474 Cf. KLEIN, A. I. Calvino ensaísta.., op. cit. 475 Cf. Nota 444, supra.

476

CALVINO, I. “Usi politici della letteratura” (1976), in Una pietra sopra, op. cit., p. 293. Trad. bras., p. 346.

caráter científico477, que se desenvolverá por vários meios até chegar às experiências puramente combinatórias, que passamos a analisar.

5.3 A combinatória calviniana