6. DRØFTING og analyse
6.3 Forskningsspørsmål 2:
No prefácio ao livro de Novis, João Alexandre Barbosa recupera a idéia do efeito provocado no leitor – aspecto que será enfocado em minha análise de “Sobre a escova e a dúvida” e “Desenredo”, efetuadas nos próximos capítulos. Para ele, Tutaméia “exige uma releitura do fragmento com vistas à totalidade ou, dizendo de outra maneira, faz sempre o leitor desconfiar de que o que ele lê como totalidade é ainda fragmento: estilhaços de um discurso único que está presente antes na idéia da obra do que em suas realizações particularizadas”37
. Concordo com a afirmação de Barbosa no que tange à idéia de que no livro há textos estrategicamente elaborados para fazer o leitor desconfiar da unidade ou fragmentação do que está sendo lido.
Essas indicações ao leitor são dadas também pela estruturação do texto, por exemplo em índices, epígrafes e prefácios. Ao pensar nesse aspecto do livro, Covizzi afirma que se nesses textos Guimarães Rosa “admite significado sotoposto é porque houve intencionalidade de mascará-lo através de vários expedientes, e porque aceita a sua existência”38. É certo que a existência de diversos índices autorais que guiam a interpretação documenta essa admissão do sotoposto pelo autor, entretanto, acreditamos que ao fazer o leitor buscar esse sentido obriga-o também a pensar nas escolhas e construção desses enigmas, logo, na atividade de produção da enunciação.
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Barbosa, João Alexandre. Prefácio de Tutaméia: Engenho e arte. São Paulo: Perspectiva, 1989.
Responde ainda às muitas críticas dirigidas ao livro que o acusavam de ser diluição de Grande Sertão: Veredas. Para ele, Tutaméia é um fragmento, assim como os outros livros de Guimarães Rosa, de uma totalidade que abarcaria todos esses enunciados.
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A escrita de Guimarães Rosa na década de 1960 acontece paralelamente a um intenso diálogo do escritor sobre sua literatura, sobretudo com seus tradutores, que, a partir de 1961, passam a divulgar seus livros em diversas línguas39. No acervo do escritor, esse diálogo está documentado nas inúmeras correspondências trocadas com os tradutores, que mostram o cuidado que Guimarães Rosa tinha com a transposição de seus textos para outros idiomas. Nessas correspondências vemos também o quanto o escritor acompanhava a recepção de seus textos, tanto em relação aos artigos publicados na imprensa, quanto às análises resultantes de trabalhos acadêmicos – indicando aos tradutores, por vezes, a leitura de algumas críticas.
Nesse sentido, a postura de Covizzi no artigo de 1969 é aguda, pois percebe essa relação do livro com o campo literário em que está inserido. Entretanto, naquele momento, sua análise está revestida de uma negatividade: “GR parece ter-se impressionado excessivamente com o que a abundante crítica à sua obra disse a seu respeito”40. Frente a essa afirmação, minha hipótese é a de que o diálogo identificado no livro, entre o leitor especializado e Guimarães Rosa, é um dos efeitos das ninharias de Tutaméia, mas não um diálogo ingênuo e aceitante das regras impostas pela crítica e sim a proposição de uma radicalização do projeto estético do autor, ou melhor, da criação de um efeito de projeto estético.
Na tese defendida em 1983, João Adolfo Hansen já chama atenção, a respeito de Grande Sertão: Veredas, que um dos efeitos principais do texto é fazer o leitor achar que o autor quis ou conseguiu dizer algo. Para observar a prática de escrita de Guimarães Rosa, Hansen parte da idéia de que o romance de 1956 é um texto que se oferece como unidade de ficção, mas que é, na verdade, “a ficção de uma unidade, ostentando as marcas de sua
39 Em 1961 e 1962 é publicado Corpo de Baile em francês; em 1963 Sagarana é traduzido para o italiano e
Grande Sertão: Veredas para o inglês; no ano seguinte, este último é publicado na Alemanha, em 1965 na França e em 1967 na Espanha; em 1966 o conto “A terceira margem do rio” é publicado na Tchecoslováquia; 40
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contradição”41. Por isso interessa a Hansen não a objetivação de uma unidade, mas a percepção da:
desorganização programática de seu texto, seu modo de intervenção na literatura brasileira, a redistribuição do simbólico e do imaginário que efetua, a sua política de linguagem, produzida na inflexão paradoxal do “revolucionário” que se quer “reacionário”. Trata-se da enunciação e das relações de designação e significação que implica 42.
São com esses pressupostos que o autor conclui ser Tutaméia o resultado extremo do procedimento rosiano, no qual haveria a teatralização do “projeto literário do autor no nada de um efeito de imaginário, dado a ler como desnudamento do processo que se complica”43. Minha leitura converge para essa idéia de um texto fundado na enunciação paradoxal que, para afirmar a ficção de unidade, o faz ostentando suas contradições e, assim, desloca as expectativas do leitor quando aparenta mostrar as engrenagens de seu funcionamento.
Além disso, se estamos certos de que na década de 1960 Guimarães Rosa está dialogando com uma crítica que o polarizava enquanto autor formalista ou conteudista, Tutaméia sublinharia o problema da dúvida, do inacabado e, por conseqüência, da atividade de produção de enunciação. Dessa forma, interessa-me aqui a tensão que o autor prepara cuidadosamente, em cada seção de seu dicionário de ninharias, Tutaméia, em função de um efeito de projeto estético, isto é, como o autor faz o leitor acreditar que está diante de um discurso sincero sobre a produção literária.
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Hansen, J. A. O O – a ficção da literatura em Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Hedra, 2000, p. 30. 42
Ibidem, p. 31. 43
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