Os Estudos Culturais tiveram início nos Estados Unidos e na Inglaterra, durante a década de 1960, coincidindo com o período de surgimento e difusão do Multiculturalismo, do Pós-Colonialismo e do Pós-Modernismo e a expansão do Movimento Negro e da Segunda Onda do Movimento Feminista. Trata-se de um campo de investigação que buscou priorizar as ciências sociais e as humanidades, voltando suas preocupações para os fenômenos culturais, históricos e políticos presentes nas sociedades. Os Estudos Culturais procuram problematizar as questões voltadas aos estudos das identidades, das classes sociais, das raças/cores, das relações de gêneros e de poder, dentre outras, caracterizando, assim, a multiplicidade de objetos e de temáticas em seu campo de análises.
Mais conhecido no âmbito das pesquisas antropológicas, históricas, sociológicas e literárias, os Estudos Culturais se caracterizam enquanto importante forma de insatisfação de muitos estudiosos aos limites impostos por uma ciência hegemônica e hierarquizada. Esta vertente buscou dar mais atenção às formas de expressão social, histórica e cultural de pessoas e de grupos não tradicionais, dando-lhes vozes e legitimidade nas atividades críticas e de intervenção acadêmica e política, segundo bem evidenciou Escosteguy (2010). Assim, no campo das pesquisas sociológicas, destacamos as contribuições de Silva & Hall (2009). Já no âmbito das leituras históricas, podemos enumerar as análises de Thompson (1981) estendendo-se para demais estudos que culminaram no estabelecimento de novas e diversificadas estratégias metodológicas, utilizadas por diferentes áreas do conhecimento, inclusive, pela própria Psicologia, como a etnografia, a pesquisa participante e as histórias de vida.
Em nossa pesquisa, os Estudos Culturais se voltam para as cartografias territoriais e existenciais de mulheres ligadas à prostituição em um pequeno centro urbano. Entrelaçando
os diferentes aportes teóricos voltados aos estudos das relações de gêneros e poder e das discussões das raças/cores, das classes sociais e dos territórios, teceremos os nossos olhares em direção a Psicologia que seja capaz de abarcar as multiplicidades e as diferenças enquanto formas possíveis de novas existências humanas. Para tanto, caminharemos também com outras discussões, visando enriquecer os âmbitos teórico e metodológico de nossa pesquisa. Dentre elas, estarão a Teoria Queer e os estudos desenvolvidos por Michel Foucault, que se mesclarão às narrativas de nossas participantes e às análises que realizaremos ao longo desta tese.
Etimologicamente, o termo Queer apresenta-se como estranho, excêntrico, questionável e, sobretudo como crítica ao sistema normativo das identidades e da heterossexualidade, segundo afirmaram Córdoba et al. (2005) e Penedo (2008). Para esses autores/as, os fatos históricos e teóricos que respaldam as bases dos Estudos Queer fazem referência aos processos de desnaturalização e politização das sexualidades, dos sexos e dos gêneros, sendo o seu termo utilizado em primeira pessoa enquanto estratégia de subversão performativa. Suas reivindicações políticas estão voltadas não somente às críticas ao regime heterossexual, mas ao que social, cultural e historicamente se denominou de normal identitário, que, por sua vez, tende a se normatizar e se enquadrar em modelos previamente estabelecidos na sociedade.
Dessa forma, os Estudos Queer buscam questionar o lugar do essencialismo universalista nos discursos normativos que se baseiam no silenciamento de determinadas experiências, práticas e processos de subjetivação, muitas vezes, estigmatizados e considerados anormais, patológicos e abjetos em grande parte da sociedade. Para Córdoba et al. (2005), as duas principais características desse novo modelo político seriam a construção de bases identitárias mais abertas e flexíveis, que permitem serem questionadas e modificadas constantemente, e a utilização de estratégias e ferramentas que visam combater as estruturas culturais e as políticas da heterossexualidade compulsória.
Os Estudos Queer buscam ressaltar a existência de fissuras e de contradições abertas nas chamadas identidades, questionando as relações de poder e articulando formas de resistências aos padrões identitários fechados e exíguos, construídos segundo um modelo heteronormativo totalizador. Inspirados nas obras de Jacques Derrida – especificamente no conceito de desconstrução – e em Michel Foucault – na obra História da Sexualidade I (1988b), em que a sexualidade é concebida como construção social e a resistência expressa em termos positivos – teóricos, como Gayle Rubin, Judith Butler, Beatriz Preciado e Teresa
De Lauretis, visaram problematizar o binarismo hetero/homossexual presente nas relações sociais contemporâneas e a ideia de sujeito uno do Feminismo, reduzidos aos contextos heterossexual, branco, europeu e cientista/letrado.
O surgimento da Teoria Queer se deu nas ruas, a partir de reivindicações de grupos considerados subalternos, e tem buscado, desde então, tecer críticas aos discursos considerados hegemônicos na cultura ocidental, potencializando diferentes formas de resistências aos pressupostos de normalidade/normativo inscritas no tecido histórico-social. Saindo do plano do ativismo das ruas e dos movimentos de gays e lésbicas americanos, o termo Queer foi usado pela primeira vez nas discussões acadêmicas durante o prefácio transcrito por Teresa De Lauretis a um número especial da Revista Differences, seguindo, posteriormente, com o texto Epistemologia del Armario (1998), de Eve Kosofsky Sedgwick, e tendo como sua grande expressão as contribuições propostas por Judith Butler, em Problemas de Gênero (2013).
Amparado nas análises que problematizam a questão das diferenças, os Estudos Queer, nas palavras de Córdoba et al. (2005), representa não somente uma teoria, mas uma política sobre as desigualdades de gêneros, que objetiva abarcar os processos e as estruturas que se constitui no silenciamento de muitas pessoas, além de conceber rupturas de visões sobre um sujeito concebido a priori e permeado por uma identidade limitada e que não permite ser questionada. Ademais, busca, segundo Peres (2013), desconstruir os sistemas de pensamentos binários e sedentários e proporcionar a entrada de pessoas consideradas marginais no âmbito da participação política, de emancipação de direitos e de novos modos possíveis de existencialização.
Podemos afirmar que os Estudos Queer têm absorvido de Foucault (1988b) que o poder não é somente negativo, que suprime e limita, mas que também é algo produtivo, na medida em que produz possibilidades de ação – as resistências. O Queer, nas palavras de Porchat (2013), tem por objetivo analisar, investigar, questionar e intervir sobre as normativas e as consequentes normas produzidas pelos discursos hegemônicos, de forma a romper com os processos homogeneizantes de problematizar a vida, que deverá ser concebida sempre em movimento. Logo, serão essas resistências, que escapam dos modelos das inteligibilidades, proposto por Butler (2013), e que tomam as variações e as descontinuidades do humano, segundo salientou Peres (2013), que iremos enfatizar com mais afinco durante esta pesquisa.
O Queer representa tudo que é inominável, monstruoso e abjeto, justamente por escapar de uma norma a ser seguida como verdade absoluta pelas pessoas. Acreditava e ainda
hoje se perpetuam equívocos de que o Queer estaria associado, restritamente, ao estudo das homossexualidades. Mais do que isso, o termo Queer mostra-se pertinente a tudo àquilo que foge de um modelo padrão imposto pela sociedade; trata-se de um posicionamento político. Logo, podemos pensar os negros, os pobres, as pessoas que residem em pequenos centros urbanos e, sobretudo as mulheres que se prostituem, assim como quaisquer outras dissidências como Queer, segundo bem definiu Porchat: ―Afinal, se o queer é dissonância, lapso ou excesso, pode-se dizer que não existe identidade comum a dois sujeitos. Algo sempre escapa a qualquer tentativa de indexação. Queer só poderia se referir a cada um, em sua particularidade‖ (PORCHAT, 2013, p. 74).