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3. Metode

3.5. Forskningsetiske vurderinger

O patriota não morre: vive além da eternidade; sua glória, sem renome, são troféus da humanidade.

Frei Caneca

Coube aos políticos e técnicos de nosso Estado tomar posse dessa configuração de fazer o povo compreender esse novo tempo, também observando o lugar que separava o saber comum do saber científico realização do moderno por meio do símbolo arquitetônico do prédio escolar. Assim, o primeiro grupo recebeu a denominação de Augusto Severo, homenagem ao intelectual, matemático e deputado federal Augusto Severo de Albuquerque Maranhão (1892 a 1902), pertencente à oligarquia Maranhão. Ligado às artes da aeronáutica, morreu em Paris, em 12 de maio de 1902, quando conduzia seu balão PAX, em companhia de seu mecânico, George Sachet. No dizer do historiador Itamar de Souza, Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, teve sua aclamada genialidade reconhecida como símbolo a ser preservado, lembrado e homenageado nos meios educacionais e de produção de saber. Não sem motivos, ficou a cargo de seu irmão Governador Alberto Maranhão a inauguração do grupo escolar que levou seu nome, em 12/07/1908.

Figura 27: Augusto Severo (ao centro)

Fonte: História... (2010)

Figura 28: Pax e Augusto Severo e seu mecânico Sachet

Fonte: História... (2010)

Dentre as práticas incluídas no fazer das novas tradições e culturas, estava o cuidado em nomear essas instituições escolares com personalidades políticas e intelectuais. Seria construído o sentimento patriótico, cívico, a partir da reverência aos heróis símbolos republicanos para serem admirados, respeitados e seguidos como exemplos. O deputado republicano Augusto Severo, muito bem se enquadrava nessa preocupação como também Frei Miguelinho que nomeou o segundo grupo

escolar na capital norte-rio-grandense (1912), símbolo da resistência ao regime colonial, nascido na Ribeira e referência nacional como herói pátrio da Revolução de 1817, conhecida também, como a República dos 75 dias:

Miguelinho entra para o registro histórico, principalmente, no final do século XIX e particularmente toda a primeira metade do século XX, quando da necessidade de se inventar tradições que reafirmem o governo republicano. É o período da história tradicional positivista, a “história oficial celebrativa” que recorre aos heróis e aos “estereótipos oficiais” para a manutenção de seu status quo (MOREIRA, 2005, p.145).

Toda mudança de regime político implica em se criar um conjunto de símbolos cívicos e destacar figuras que sirvam de imagem e modelo para a sociedade. Os heróis eram entendidos como figuras mitológicas, mas nos tempos modernos, o deixam de ser para se tornarem pessoas reais que sofrem um processo de “heroificação”, transformando-se de indivíduos reais para arquétipo de valores e/ou aspirações coletivas. Segundo Carvalho (1990, p.14): “Por ser parte real, parte construído, por ser fruto de um processo de elaboração coletiva, o herói nos diz menos sobre si mesmo do que sobre a sociedade que o produz.”. E esse expediente de fazer heróis ou acrescentar datas importantes ao calendário republicano e usá- los como símbolos poderosos para a configuração de ideais, aspirações e identificação coletiva, foi recurso dos republicanos para sua propaganda não só nos grupos escolares da cidade do Natal, mas de várias outras cidades no Estado do Rio Grande do Norte e no Brasil. Assim, por exemplo, em nosso Estado, os grupos escolares do interior receberam também essa denominação, teremos na cidade de Caicó o Grupo „‟Senador Guerra‟‟; em Pedro Velho, „‟Fabrício Maranhão‟‟; em Nova Cruz, „‟Alberto Maranhão‟‟; em Acari, “Tomaz de Araújo”; em Caraúbas, “Antonio Carlos”; em Currais Novos; “Capitão-Môr Galvão”, Ceará Mirim; “Felipe Camarão”, Papari (hoje Nísia floresta); “Nísia Floresta”, Açu; “Tenente-Cel. José Correia”, São Gonçalo; “Dr. Otaviano”; Mossoró, “Trinta de Setembro”; em Macau, “Duque de Caxias”. São modelos que comprovam que desenvolver a cultura da cidade conciliada com a cultura de cidadania correspondia a educar, desenvolver a cultura escolar.

Figura 29: Inauguração do Grupo Escolar Frei Miguelinho

Fonte: A Revolução... (1999).

Concluídas as obras de construção de um grupo escolar, seguia-se sua inauguração com o caráter de grande festa pública, tal era a importância de sua função instituidora no seio da república, tanto da festa quanto da criação do grupo escolar. A festa contava com a presença das principais lideranças locais tanto políticas, e religiosas, professores de outras instituições de ensino, os alunos e o povo. Todos que precisavam estar sob essa função pedagógica e unificadora, minimizando as diferenças existentes entre eles. A imprensa, como o que lemos no jornal A República (1908, p. 1) dá destaque em letras grandes à inauguração do Grupo Escolar Augusto Severo: “Teve lugar hontem a inauguração do grupo escholar „‟Augusto Severo‟‟ com muito brilhantismo e assistida pelo exm. Governador do Estado, altas authoridades representantes do coronel Febronio de Britto, Atheneu Rio-Grandense, Escola Normal, muitas famílias e cavalheiros.

O grupo Escolar Augusto Severo foi inaugurado, inclusive em data de grande importância para o Estado Republicano, dia 12 de junho, data da morte daquele considerado herói, mártir da revolução republicana de 1817, o potiguar Padre Miguelinho. Essa vinculação da educação ao civismo para fortalecer a criação de uma cultura escolar aliada a formação da nacionalidade era comum e ocorreu na inauguração de outros grupos não só no Estado do Rio Grande do Norte como em outros da federação brasileira. Exemplo disso foi a inauguração do Grupo Escolar Barão de Maroim, no Estado de Sergipe, que ocorreu no dia 08 de julho, data da emancipação política de Sergipe (NASCIMENTO, 2006).

Figura 30:Momento cívico[Ca.1920]

Fonte: Moreira (2010).

A Festa, divulgada pelos jornais criando uma enorme expectativa para o evento, foi abrilhantada pela orquestra entoando valsas e os Hinos da Proclamação da República, da Bandeira Nacional e o do Estado do Rio Grande do Norte, tendo para os hinos o acompanhamento das alunas da Escola Normal e a recitação de diversas poesias interpretadas por alunos de outros estabelecimentos de ensino. O cântico de hinos pátrios seguia a orientação da educação cívica presente em todas as cerimônias públicas, e nos estabelecimentos de ensino, que contemplavam essa prática como mais um rito de diferenciação não apenas nas escolas já instituídas e adaptadas à nova ordem, mas principalmente nos grupos escolares monumentos desse novo tempo republicano.

A solenidade contou com o discurso do Diretor Geral da Instrução Pública, Dr. Francisco Pinto de Abreu, paraibano de nascimento, que veio para o Rio Grande do Norte em 1895, e exerceu várias funções públicas de destaque. Na oportunidade, discursou também o Diretor do Grupo, Ezequiel Benigno de Vasconcelos Júnior, proveniente do Distrito Federal, Rio de Janeiro, que fora convidado especialmente para dirigir a inovadora concepção de organização escolar no Estado do Rio Grande do Norte, o Grupo Augusto Severo e a Escola Normal que seria anexa ao mesmo. O convite para assumir um cargo de tamanha envergadura aconteceu devido a sua larga experiência educacional na capital do país.

A participação dos alunos em festas públicas de cunho cívico era incentivada, e fazia parte da instrução do Grupo, modelo para as outras escolas. A própria organização pedagógica do Grupo Escolar observava eventos públicos, como aqueles para premiar alunos e professores.

Fazem parte da invenção das tradições a criação e execução dos hinos e o culto à bandeira, fornecendo um sentido de identidade, legitimidade nacional, no dizer de Hobsbawn e Terence (2002, p. 20): “[...] a maioria das ocasiões em que as pessoas tomam consciência da cidadania como tal permanecem associadas a símbolos e práticas semi-rituais (por exemplo, as eleições), que em sua maior parte são historicamente originais e livremente inventadas: bandeiras, imagens, cerimônias e músicas [...].”

Assim, o novo regime apela para constituição de sua memória coletiva através das festas de caráter nacional, cuja participação da escola no evento ou como matéria estudada era uma condição sine quo non . Por meio de decretos a República mandou guardar as datas que não deveriam ser esquecidas. Em 1890, o Decreto n. 155-B, de 14 de janeiro, determina como dias de festa nacional as seguintes datas: 1º de janeiro (fraternidade universal); 21 de abril (precursores da independência do Brasil, reunidos em Tiradentes); 03 de maio16 (descoberta do Brasil); 13 de maio (fraternidade dos brasileiros); 14 de julho (república, liberdade e independência dos povos americanos); 7 de setembro (Independência do Brasil); 12 de outubro (descoberta da América); 2 de novembro (mortos); 15 de novembro (comemoração da pátria brasileira). Aos quais os Decretos n. 3, de 28 de fevereiro de 1891, n.4.497, de 19 de janeiro de 1922, e n.4.859, de 26 de setembro de 1924, acrescentaram respectivamente, os dias 24 de fevereiro (promulgação da Constituição da República); 25 de dezembro e 1º de maio. Sob a seguinte consideração:

[...] que o regime republicano se baseia no profundo sentimento de fraternidade universal; que esse sentimento não se pode desenvolver convenientemente sem um sistema de festas públicas, destinadas a comemorar a continuidade e a solidariedade de todas as gerações humanas que cada pátria deve instituir tais festas segundo os laços especiais que prendem os seus destinos aos de todos os povos [...] (BRASIL, 1891).

16 O significado da festa de 3 de maio, ser a festa do descobrimento do Brasil é expressa como a festa do nascimento da pátria; é o dia em que o Brasil passou a figurar no quadro das nações civilizadas; foi considerado o primeiro dia de impulso na existência das nações (LEAL, 2006).

Todas as festas são relatadas com destaque nos jornais da época, outro instrumento de divulgação das realizações republicanas, embora houvesse apenas uma pequena parcela que tinha acesso a esse recurso, pois como observamos anteriormente, os índices de analfabetismo no país eram de 75% em 1900, segundo o Anuário Estatístico do Brasil, do Instituto Nacional de Estatística. O Rio Grande do Norte a situação não se apresentava muito diferente, por isso, a democratização do ensino aparece como plataforma dos discursos republicanos, e a criação dos grupos escolares, entre as iniciativas nesse sentido.