Muitos níveis de camadas apareceram. Uma rede de imbricações:
lixo|água|plástico|terra|plantas. Outras materialidades possíveis de encarnar. Fui me
descobrindo um engenheiro dos possíveis. Hibridizando os elementos, que ao final – que final?-, se configuram como gestos expansivos e não simples objetos.
É preciso tempo. Muita coisa está oculta. Estas plantas me convocam a querer participar dos instantes. Dos ciclos. Novas dobras, outras correntes. O trabalho é a mudança, é buscar modos de acompanhar e de fazer companhia, mas não como um personagem passivo. Mais do que compreender os materiais, eu estava investindo na compreensão dos movimentos. Aquilo que está acontecendo. As delicadas manifestações. Um tempo entre. Para extrair. Para retornar. Para entender.
Não apenas descrever, mas entender por onde tudo isso flui. E criar, se assim possível for, espaços em que esses movimentos possam ter continuidade, mesmo que por outros compostos completamente desconhecidos.
Foi pensando dessa forma que muitas das minhas atividades banais foram transformadas em atividades criativas, sempre estimuladas por uma movimentação constante. Um quarto que deixou de ser só um quarto: espaço insatisfeito com esta condição estática. O acaso o colocou em movimento.
Essa mistura inevitável e imprevisível relaciona-se com uma dinâmica de recomposição criativa que deve passar, de modo impreterível, pelo entendimento dos fenômenos enigmáticos da natureza e compor com ela. Fazer com que os segredos sejam produtivos, diz Joseph Beuys. Ao investir nesse processo de imbricação, proponho uma ampliação das fontes de matéria-prima.
Guattari (2001) comenta sobre uma tensão existencial entre temporalidades humanas e não humanas e da extrema necessidade de lidarmos com as condições de hoje – e nesse caso, é primordial saber quais são essas condições, tanto a nível local como global -, que, em maior ou menor grau, cultivamos, não importa se concordando ou não, conscientes ou não. O problema pode até não ter sido gerado diretamente por nós, mas Gaia, como já ressaltado, não dá a mínima.
O que nos convoca a uma responsabilidade imanente: ninguém está liberado. A imbricação é tanta que tudo isto já está plenamente incrustado em nossa realidade. E é exatamente por isso que se faz urgente pensar transversalmente as interações entre os sistemas.
Para simbolizar essa problemática, que me seja suficiente evocar a experiência de Alain Bombard na televisão quando apresentou duas bacias de vidro: uma contendo água poluída, como a que podemos recolher no porto de Marselha e na qual evoluía um polvo bem vivo, como que animado por movimentos de dança; a outra, contendo água do mar isenta de qualquer poluição. Quando ele mergulhou o polvo na água “normal”, após alguns segundos, vimos o animal se encarquilhar, se abater e morrer. (GUATTARI, 2001, p.25)
Este exemplo esboçado por Guattari encontra recorrência no fantástico projeto intitulado Ecosystem of Excess, de Pinar Yoldas, artista que esculpiu, de modo especulativo, uma série de novos organismos pós-humanos pertencentes a um ecossistema – chamado por ela de plastisfera - gerado a partir de um oceano que foi transformado, por nós humanos, em uma imensa sopa de plástico. Ecosystem of Excess parte do princípio de que a vida foi gerada há 6 milhões de anos atrás, nos oceanos. Dessa forma, sabendo que os oceanos estão agora
apinhados de plásticos, se vida começasse hoje, que formas de vida emergiriam dessa realidade?
Pinar Yoldas. Ecosystem of Excess. 201464.
Esse questionamento levantado por Yoldas pode nos ser muito útil para pensar sobre as formas de vida que estão sendo criadas. A indagação é relevante: que formas de vida são possíveis considerando a realidade que temos hoje? Pelo visto estamos - e sem sucesso - fazendo a mesma coisa que foi feito com o polvo, insistindo em querer mergulhar na água “normal”, em um busca obsessiva por uma pureza impossível.
- Fico em dúvida se durarão. As garrafas são espaços limitados. Meu desejo é fazer estas garrafas transbordarem de terra e de ver a transparência do plástico ser amplamente tomada pela força da terra. É o movimento inverso que procuro: ao invés do plástico tomar a terra, a terra toma o plástico.
No trabalho “Natureza Humana”, o artista Jaime Prades reuniu pedaços de madeira – cunhados por ele de “ossos da floresta” - coletados na rua, e com eles concebeu uma série de “árvores”. Não é possível reconstruir a árvore e lhe devolver a vida que outrora
64 Para mais detalhes sobre o projeto, é possível acessar o site da artista: http://cargocollective.com/yoldas/WORK/Ecosystem-of-Excess-2014.
esbanjou. Nem mesmo os pedaços de madeira são fruto de uma árvore só. Esse desejo é uma ação simbólica, impedido por um limite já sabido de antemão. A intenção, nessa ação, muito mais do que um trabalho, é propor, quem sabe, outro modo de vida, ou de encarar a(s) vida(s) diante de si.
Não a vida da árvore, que já não pode ser salva, mas as árvores outras. É delas, estas que ainda vão padecer, fruto de nossa ignorância, a qual discursam. O procedimento aqui é uma revelação visível deste traço destruidor. Árvores estão na rua, amortalhadas, sem sequer serem notadas. O procedimento, portanto, marca as responsabilidades de cada um sobre a morte dessa árvore. A tentativa de fazê-la “viver” novamente não passa de um embuste: estamos em um velório.
Mas o que interessa não é o lamento. Nosso posicionamento neste mundo poluído de excessos deve ser redimensionado. Esse “outro modo de vida” deve aliar-se a um processo de recomposição. Não se trata de criar formas de vida, mas de nos reconstituirmos como novas formas de vida, induzidos pela certeza de que isso está profundamente imbricado nos modos como nos relacionamos com o nosso meio ambiente.
Jaime Prades. Natureza Humana, 2008.
Uma recomposição que, a um nível intenso, atuará como um grito: as árvores de Prades são modos de gritar a sua morte. A imbricação, portanto, é o grito fundamental a ser evocado, o grito transformou-se em ação. Estamos profundamente imbricados, que outras
matérias estão caminhando dentro de nós? O meu quarto, que agora faz às vezes de liquidificador, quer gritar. Como ele grita? Como esse grito caminha para ruas?
4.8. Quarto|jardim
- O jardim como uma paisagem a ser retomada. Algo tão simples e singelo. Um jardim em meu quarto.
A intensidade de todos os processos que atravessavam os espaços do meu quarto não podiam serem sufocadas - ignoradas de seus agentes contaminantes -, muito menos apartados entre si. Mas como integrá-los em uma intercessão síntese, em algo que trouxesse a tona todos estes processos ao mesmo tempo?
Como um sonho a ideia brotou em mim: o meu quarto tal como ele é. Mas como ele é? Depois de um tempo notei que ele havia se revestido de uma espacialidade mutante: quero transformá-lo em jardim. Quem deu margens à ideia foi o Rubem Alves:
A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria65. Uma só palavra para este mundo: jardim. Melhor ainda: quarto|jardim. Tudo o que o chega, tudo o que o compõe, é agora entendido como elemento deste jardim, não importa o que seja, tudo pode vir a ser uma ferramenta de jardinagem e não somente as plantas. Nesse momento, eu abandono esse olhar super específico sobre as plantas e passo a compreendê-las sob um aspecto mais amplo e deixo de fotografá-las em separado. Nesse momento, elas transbordam e transformam-se em jardim.
Esse entendimento cria uma intimidade sobre tudo aquilo que entra e sai do quarto, e também sobre aquilo que quero e que não quero. Um jardim se define por seu modo de criar convivência com mundos improváveis, é por isso, que ele carrega em si a força de uma poesia. Um jardim está sempre sendo escrito e inscrito. Um modo de cuidado, de fazer carinho no espaço que envolve uma participação coletiva intencional.
- Começo a pensar meu quarto como um jardim (um ateliê-jardim; corpo-jardim) e nas formas de expandi-lo para além de seus limites – como agenciar a participação da cidade na sua formação? Me oponho fortemente a uma ideia de projeto. Estou mais interessado em ir
65 A crônica completa pode ser lida neste link: http://www.recantodasletras.com.br/mensagens/481716 Último acesso: 15.01.2016.
compondo com elementos que posso integrar. As plantas começam a transbordar no quarto, e o meu interesse começa a se ativar cada vez mais. Levar as plantas para conhecer o mundo. Aproximá-las. Porque as plantas devem ficar paradas, estáticas? Quero mostrá-las ao mundo. Mas não sou eu quem mostro, são elas. Cada uma com uma perspectiva diferenciada.
Tenho milhões de ideias para jardins. O jardim era aquilo que eu desejava falar, construído através das vozes-escombros que ecoavam em meu quarto. O jardim era aquilo que poderia lhes dar voz, campo de fala.
Não se tratava, como diz o próprio Rubem Alves, de um jardim bonito, estético, que pudesse deixar sem palavras aqueles que o vissem; mas sim, um jardim que fizesse brotar a poética dos lugares de dentro, que fizesse do sonho, realidade; e que fizesse a realidade sonhar. O jardim é o abrigo máximo, vivência política; quem diz, mais uma vez, é o Rubem Alves:
Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oasis. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu "o que é política?", ele nos responderia, "a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas"66. Não um lugar para ser apreciado, mas um lugar para se implicar, um lugar que exige a nossa presença, a nossa responsabilidade. Um jardim não espera a nossa boa vontade, um jardim precisa de dedicação; a jardinagem é uma arte. A cidade que desejo, portanto, é uma cidade pensada como um jardim67. A ideia de um quarto transformado em jardim, portanto, me permitia sonhar com a cidade e os modos de tornar esse sonho realidade. O jardim é o momento de maturidade, e me permitiu transformar os incômodos. O jardim é a paisagem que quero para a cidade. O jardim é uma ferramenta de aprendizado para pensar a cidade.
- Cuidar de um jardim é isso. Transformar. Ainda existem muitas garrafas em meu quarto e a cada dia que passa o meu desejo é vê-las entupidas de plantas por todos os lados.
Com esse entendimento quero fazer com que esse jardim polifônico que plantei em meu quarto possa se infiltrar na cidade. O jardim é um modo de vida, sua especificidade
66 A crônica completa pode ser lida neste link: http://www.rubemalves.com.br/site/10mais_08.php
67
No campo do urbanismo, esse tipo de proposta não é uma novidade. No final do século XIX, o inglês Ebenezer Howard desenvolveu um modelo de cidades chamado de cidade-jardim, que apostava no casamento equilibrado entre cidade e campo, como alternativa para os crescentes problemas urbanos derivados da intensa urbanização e industrialização das cidades.
impulsiona cria uma maneira de viver daqui em diante na cidade. O caminhante é um jardineiro. Ao caminhar eu recolho as sementes, planto-as em meu quarto, para depois oferecê-las a cidade. Tudo isso cria uma intimidade de relação da subjetividade com o exterior. Expor a minha intimidade, abrir uma brecha. A jardinagem, portanto, como uma ferramenta de guerrilha urbana68.
Em 1975, na cidade de Nova Iorque, o artista e ativista americano Adam Purple deu início a construção de um jardim urbano concêntrico, conhecido como Jardim do Éden, que transformaria completamente a paisagem do lugar. Ele morava em Lower East Side, uma área decadente e marginalizada da cidade.
Adam teve a ideia logo após ver da janela de seu prédio crianças brincando em cima de uma pilha de escombros, e desejou, lembrando de sua infância, que elas pudessem pisar descalças e sentir o solo. Tornou-se um refúgio em meio ao caos da cidade e que também provia comida à comunidade.
O Jardim do Éden, como ficou conhecido, ficou pronto no ano de 1976 e foi mantido até 1986, quando, no dia 8 de janeiro, foi destruído pela prefeitura para dar lugar a um conjunto habitacional. Ao longo dos anos, os prédios abandonados vizinhos que circunscreviam o jardim foram ruindo, enquanto o jardim continuava a crescer, ocupando estes espaços. Mesmo assim, nunca foi reconhecido oficialmente, sendo aquela área, apesar de ter chegado a ocupar 15 mil metros quadrados, considerada ociosa.
68 Jardinagem de guerrilha é um movimento político que se utiliza da instalação de jardins em espaços não autorizados. Para mais detalhes: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jardinagem_de_guerrilha
O Jardim do Éden foi pensado a partir dos escombros. Parece ter sido a realização concreta de um desejo exposto por Hélio Oiticica: “eu quero fazer jardins de escombros” (2009, p.235). Adam Purple mostrou que os jardins podem sim germinar em qualquer lugar e sob quaisquer condições. O Jardim do Éden, nesse caso, não foi destruído, foi apenas transportado para outra dimensão.
Com esse entendimento, a cidade, em toda a sua abrangência espacial, se apresenta como um terreno bastante propício ao plantio de um jardim. Eu não precisava de um terreno especifico. Pensando meu quarto como um jardim, penso em tratar a cidade como um jardim. Meu quarto|jardim não é um lugar em que uso para me satisfazer. Não é o meu jardim. É um jardim, que por si só, ao nomeá-lo assim, pertence a cidade. Ele foi criado em relação com a cidade.
Na cidade, o jardim se tornará aquilo que decidi chamar de paisagem caminhante. Ou seja, uma paisagem nômade, que está em todo lugar, mas em lugar nenhum: um jardim como um frescor na paisagem. Desse modo, eu deixei de acompanhar as plantinhas em separado, acompanho agora o cotidiano delas, imbricadas no meu quarto. Elas, as plantinhas, não estão a sós. Comecei a trazer outros objetos, produzindo uma mistura implacável e envolvente.
O jardim só poderia vir com esse estado de imbricação entre os materiais, que, é óbvio, chega a um ponto em que transborda. Não porque ficou cheio, mas porque não pode mais se esconder do mundo. O jardim é um retorno, é a paisagem da cidade em pleno processo de transformação.
Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros. Eram lenhadores e madeireiros. E foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde uns poucos encontram vida e prazer.
A selva da cidade foi transformada, ironicamente, também em selva, tão cruel e insensível quanto aquela selva originária. O jardim, ao contrário da selva, engloba a síntese do toque, é a mistura entre mundos aparentemente inconciliáveis e parece expressar a busca por um ambiente mais saudável e colocar em jogo o fato de sermos diretamente responsáveis pela saúde de nosso habitat: mas como construir um modo de vida mais saudável dentro das cidades?
A engenheira e artista, Natalie Jeremijenko, coordena, na Universidade de Nova Iorque (NYU), um laboratório, a Clínica de Saúde Ambiental69, em que as pessoas chegam preocupadas com a saúde do seu ambiente e saem de lá com prescrições de ações - e não remédios - que podem contribuir consideravelmente para o melhoramento do seu habitat.
Uma destas ações se chama No Park70, e se utiliza da criação de pequenos jardins urbanos que atuam como agentes interceptadores dos poluentes gerados na cidade (no caso, estamos falando de Nova Iorque) e que escorrem pelos esgotos até finalmente desembocarem no rio.
“É uma prescrição para melhorar a qualidade da água. Muitos impacientes estão preocupados com a qualidade da água e do ar. O que fazemos é pegar um hidrante, um lugar de "proibido estacionar" associado a um hidrante, e prescrevemos a remoção do asfalto para criar um micro cenário planejado, para criar uma oportunidade de infiltração”71.
No Park.
69http://www.environmentalhealthclinic.net/
70 Para mais detalhes sobre este projeto: http://www.environmentalhealthclinic.net/portfolio_page/nopark/ 71
Estas ações, além de tudo, estabelecem novas relações de entendimento do ambiente, e dos modos como eu posso modificá-lo. Tudo isso, embalado por uma ação de efeito coletivo. Estou preocupado com a água, mas não é a minha água, é a água de todos.
Isso sugere um modo de interferir na paisagem urbana, não apenas enquanto espaço visual, mas como espaço ambiental. O jardim me fez pensar sobre as paisagens que eu quero para a cidade. Os sonhos de paisagens que eu desejo acumular ao sair a rua. Dessa forma, fui estimulado a criar as minhas próprias paisagens. Eu precisava agora, infiltra-las.
Essa infiltração, infundida por diversos movimentos de entrada e saída é uma prática de diálogo: quais as paisagens com as quais queremos viver? Como temos nos relacionado com a nossa paisagem?
Questões como essas foram amplamente abordadas e aprofundas por Joseph Beuys na Documenta de Kassel (Alemanha) em 1982, quando propôs o plantio sistemático de 7 mil carvalhos ladeados por pedras de basalto ao longo de toda a cidade, mas também além dela. O projeto levou cinco anos para ser finalizado, o último carvalho tendo sido plantando em 1987 na abertura da Documenta 8.
A ação modificou por completo a paisagem da cidade. Uma ação que o próprio Beuys imaginava se ramificar em uma série de outras ações que teriam recorrência em várias cidades do mundo. Uma ação continuada, que infiltra um espírito de colaboração e uma responsabilidade conjunta. O carvalho, árvore nativa da região, quase já não podia mais ser encontrada na cidade. Beuys, dessa forma, atentava para o desaparecimento da própria paisagem nativa, não se limitava a plantar árvores, ele estava plantando paisagens.
Joseph Beuys. 7000 Carvalhos. Documenta 7, Kassel, 1982.
4.9 Jardins daninhos
As ervas daninhas são exemplos naturais de infiltração urbana. Elas provam que o concreto por mais duro que seja também pode ser atravessado sem força bruta, e que a cidade, em sua contundência repressora, não pode conter por completo; estarão sempre sendo enfrentadas por insistentes, conduzidos por linhas dissidentes, que estão sempre a pensar na recuperação dos solos.
A artista Laura Lydia, com o projeto Ervas SP, fez um belíssimo trabalho com as ervas daninhas do Minhocão, o elevado Costa e Silva, em São Paulo, mapeando as espécies existentes e criando intervenções a partir disso:
“Nessa paisagem infértil do pavimento impermeável, onde parecia não haver nenhuma possibilidade de vida, lá estavam elas, as chamadas “ervas daninhas”. Uma pequena fissura
no concreto, expondo o solo fértil à superfície, ou um aglomerado de matéria orgânica no canto da sarjeta, viram abrigo de pequenas sementes que conseguem sobreviver e brotar”72.
Laura Lydia. Ervas SP. 2015
Ela aponta com essa micro operação poético-didática, para pequenos oásis perdidos em meio a loucura destrutiva da cidade: plantas que insistem em crescer em ambientes de profundo desequilíbrio.
As daninhas têm sede. Espécies do contra. Aparecem ali onde a natureza não é bem vinda. Plantas que florescem em condições extremamente hostis e parecem se alimentar do mau humor do solo. São plantas pioneiras, as aparecem primeiro onde nada mais conseguiria nascer. Gostam e procuram por solos arrasados. Sua presença é um indicador de solos que necessitam de alguma necessidade de recuperação. Assim o fazem.
A cidade, por se tratar de um ambiente ironicamente insólito, está repleto de espécies daninhas. São plantas que se infiltram. Ao menor sinal de descuido, despontam. A natureza não gosta de ficar a mercê da boa vontade do homem.
Seu trabalho é o de um atento e cuidadoso diálogo com solo. Trabalham, portanto, de modo a fazer com que este solo defeituoso no qual germinaram não lhes sirva mais. De certa forma, são plantas que pregam a sua própria extinção. São agentes reparadores do solo.