O que é um estudo de caso? Basicamente, é o conjunto de ações de coleta, relato, análise e apresentação de um material colhido em um determinado contexto, com determinados participantes e cujo propósito é apresentar resultados que contribuem – ou não, em certa medida – para a discussão de um dado tema.
Certamente, não se trata de um trabalho imparcial porque depende não só das condições dos participantes que formam o corpus da pesquisa, mas, inerentemente, daquela condição que, antes de tudo, forma o pesquisador do trabalho. Embora um estudo de caso leve em considerações todas as variáveis de um contexto, ele está sempre sob o olhar perscrutador do seu pesquisador, que procura aliar suas leituras teóricas à análise de seu material para, então, apresentar suas reflexões acerca do assunto estudado.
No caso desta pesquisa, em particular, insiro-me no contexto pesquisado e, por isso, figuro não como pesquisadora e tampouco como
participante. Sou, na verdade, a conjugação de ambos, porquanto professora dos participantes, que colabora para a pesquisa com a experiência docente, e pesquisadora do corpus no qual eu mesma me insiro.
De acordo com Yin (2006), o estudo de caso é uma das muitas maneiras de se fazer pesquisa em ciências sociais. Cada estratégia escolhida pelo pesquisado, seja ela um experimento, um levantamento, ou pesquisas históricas, dentre outras, possui vantagens e desvantagens, com base no tipo de questão da pesquisa, no controle que o pesquisador possui sobre os eventos comportamentais efetivos e no foco em fenômenos históricos, em oposição a fenômenos contemporâneos.
Em geral, os estudos de caso representam a estratégia preferida quando se colocam questões do tipo “como” e “por que”, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os acontecimentos e quando o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real (YIN, 2006: 19).
Johnson (1992) define estudo de caso em termos de unidade de análise, isto é, um estudo de um caso. Segundo sua concepção, um pesquisador de estudo de caso foca sua atenção em uma entidade única, geralmente como ele existe em seu ambiente de ocorrência natural.
O estudo de um caso permite, então, que os pesquisadores encontrem respostas para os diferentes tipos de questões para os quais as técnicas correlacionais são apropriadas. Enquanto os estudos correlacionais trata das relações entre variáveis para grupos de estudantes, os estudos de caso podem fornecer informação rica sobre um aprendiz individual (JOHNSON, 1992).
Para Stake (1998), o estudo de caso não é uma escolha metodológica, mas uma escolha de objeto a ser estudado:
Nós escolhemos estudar o caso. Nós podemos estudá-lo de muitas maneiras. Os médicos estudam a criança porque a criança está doente. Os sintomas da criança são qualitativos e quantitativos. O registro do médico é mais quantitativo do que qualitativo. O assistente social estuda a criança porque a criança é negligenciada. Os sintomas de negligência são qualitativos e quantitativos. O registro formal que o assistente social é mais qualitativo do que quantitativo. Em muitos campos e práticas profissionais, casos são estudados e registrados. Como uma forma de pesquisa, o estudo de caso é definido pelo interesse em casos individuais, não pelos métodos de investigação usados (STAKE, 1998: 86)
Segundo Nunan (2003), nem sempre é particularmente fácil decidir se um estudo é ou não um caso. O termo “estudo de caso” é definido de vários modos e provavelmente é mais fácil dizer o que um estudo de caso não é do que o que ele é. Enquanto parece razoavelmente claro que o estudo de um aprendiz de uma língua individual é um caso e que o mesmo pode ser dito do estudo de uma sala de aula em particular, o que dizer sobre uma investigação de uma escola inteira ou um distrito escolar completo? Em maior ou menor grau, tais contextos configuram um estudo de caso, porque contêm em si os elementos necessários, ou, melhor dizendo, o material necessário a ser coletado através de observações. Falo, aqui, das observações colhidas, dos questionários adaptados e/ ou elaborados para colher dados, das aulas e de seus conteúdos, observados pelo pesquisador que, se não foi ausente desse processo, tampouco deixou de formá-lo e de analisá-lo, tal como ocorre com outros exemplos. O que configura um estudo de caso, pois, não é o tamanho de seu corpus ou a imparcialidade, por assim dizer, de seu pesquisador, mas, antes de tudo, a capacidade de obter material de um dado corpus que se encontra no ambiente onde naturalmente ocorre, de observá-lo, de analisá-lo e de apresentar os resultados.
De forma diversa, e que vem a complementar minhas considerações, Lüdke & André (1988) explicam que um estudo de caso apresenta alguns princípios básicos que, a meu ver, atendem bem aos objetivos do presente trabalho, a saber:
1. visa à descoberta;
2. enfatiza a interpretação em contexto;
3. busca retratar a realidade de forma completa e profunda; 4. usa várias fontes de informação;
5. procura representar os diferentes e, às vezes, conflitantes pontos de vista presentes numa situação social; e
6. utiliza uma linguagem e uma forma mais acessíveis do que os outros tipos de pesquisa.
Assim, acredito que, utilizando a metodologia escolhida, conseguirei responder à questão “Quais são as representações sobre a aprendizagem de língua inglesa dos alunos de uma 5ª série?”.
De acordo com Cohen e Manion (1996), ao contrário do experimentador que manipula variáveis para determinar sua significância ou do pesquisador que faz perguntas padronizadas de amostras grandes e representativas de indivíduos, o pesquisador de estudo de caso tipicamente observa as características de uma unidade individual – uma criança, uma classe, uma escola ou uma comunidade. O objetivo de tal observação é comprovar e analisar os vários fenômenos que constituem o ciclo de vida da unidade, visando a estabelecer a generalização sobre a população mais ampla à qual a unidade pertence.
Tal pensamento é corroborado por Johnson (1992),para o qual a unidade de análise – isto é, o caso – pode também ser um professor, uma sala de aula, uma escola, uma instituição ou uma comunidade. Entretanto, acrescenta Johnson (1992), o número de casos sempre é pequeno, porque a essência da abordagem do estudo de caso é uma busca cuidadosa e holística aos casos particulares.
No estudo de caso, há dois tipos principais de observação: a observação participativa e a observação não participativa. Na primeira, sua
“cobertura” é tão completa que, no que diz respeito aos outros participantes, eles são simplesmente um indivíduo do grupo (COHEN e MANION, 1996).
Por outro lado, os observadores não participantes ficam fora das atividades do grupo que eles estão investigando. A melhor ilustração do papel do observador não participante talvez seja o caso do pesquisador sentado no fundo da sala de aula codificando a cada três segundos as trocas verbais entre o professor e seus alunos, por meio de um conjunto estruturado de categorias observacionais (COHEN e MANION, 1996).
No que se refere ao objetivo, o estudo de caso busca descrever o caso em seu contexto. Guiado pela questão da pesquisa, um pesquisador estuda o caso e aqueles aspectos do ambiente que pertencem àquele caso e que ressaltam a questão da pesquisa (JOHNSON, 1992).
O objetivo do estudo de caso não é representar o mundo, mas representar o caso. Os critérios para a realização do tipo de pesquisa que leva a uma generalização válida precisam de modificação para se adaptar à pesquisa para particularização específica (STAKE, 1998).
Segundo Cohen e Manion (1996), os estudos de casos apresentam várias vantagens que os tornam atrativos para os pesquisadores e avaliadores educacionais. São elas:
1. Paradoxalmente, os dados do estudo de caso são “fortes em realidade”, embora sejam difíceis de organizar. Em contraste, outros dados de pesquisa geralmente são “fracos em realidade”, porém susceptíveis à pronta organização. Esta força na realidade se dá porque os estudos de caso são realistas e prendem a atenção, em harmonia com a própria experiência do leitor; assim, fornecem uma base “natural” para a generalização.
2. Os estudos de caso permitem generalizações, sejam sobre um exemplo ou a partir de um exemplo para uma classe.
4. Os estudos de casos, considerados como produtos, podem formar um arquivo de material descritivo suficientemente rico para admitir uma reinterpretação subseqüente.
5. Os estudos de caso são “um passo para a ação”. Eles começam em um mundo de ação e contribuem para ele. Seu insight pode ser diretamente interpretado e colocado em uso.
6. Os estudos de caso apresentam dados de pesquisa ou de avaliação de uma forma mais publicamente acessível do que os outros tipos de relatório de pesquisa, embora sua eficiência seja, até certo ponto, adquirida às custas da sua extensão. Eles podem contribuir para a “democratização” da tomada de decisão (e do próprio conhecimento).
Quanto à confiabilidade e validade dos estudos de caso, Yin (2006) argumenta que a validade do construto é especialmente problemática na pesquisa de estudo de caso devido à falha freqüente dos pesquisadores de estudos de caso ao desenvolverem um conjunto suficientemente operacional de medidas, e também porque são usados julgamentos “subjetivos” para coletar os dados.
Em relação à validade interna da pesquisa de estudo de caso, Yin (2006) afirma que esse
[...] é um problema somente para estudos explanatórios, onde um investigador está tentando determinar se o evento x leva ao evento y. Se o investigador conclui incorretamente que há uma relação causal entre x e y sem conhecer que algum terceiro fator – z – pode realmente ter causado y, o desenho da pesquisa falhou em tratar de algumas ameaças à validade interna (YIN, 2006: 38).
É preciso, pois, compreender que aquilo que Yin (2006) denomina “terceiro fator” – e que, na verdade, poderia ser mais de um –, é parte do contexto que forma o material do estudo. Ao adotar uma postura observadora, um
pesquisador deve estar atento a todas as possíveis variáveis do contexto, e estar pronto a tomar nota e analisar as mudanças ocorridas no meio do caminho, de forma que sua análise dê conta de uma situação que esteja levando em conta todos os aspectos perceptíveis que a formam.