2 Teoretisk bakgrunn
2.1.7 Forskning om barn som pårørende
O texto está dividido em três capítulos, nos quais irei apresentar, primeiramente, a rua como o território dos trecheiros e pardais, para, em seguida, discutir a corporalidade destes sujeitos. Por último, discuto as formas de gestão institucional da população de rua, descrevendo os espaços institucionais que atendem a esta população.
No capítulo Arranjos Urbanos: habitar a cidade, elaborar táticas de rua, apresento a rua como um espaço de produção de novas trajetórias, marcadas pelos movimentos que as compõem. Procuro demonstrar como opera o sistema de classificação entre os trecheiros e pardais, cujas diferenças são produzidas pelos movimentos entre os territórios, demarcando os pontos máximos e mínimos da mobilidade, que são tão importantes para a diferenciação destas trajetórias. Procuro demonstrar como as trajetórias de rua são vividas pelas transformações que as acompanham, de modo a ser possível traçar trajetórias de rua em bancas, sem bancas, no trecho e nas instituições de acolhimento. Ainda neste capítulo, ressalto as práticas de habitação neste universo que não seguem o modelo de habitação normativa, verificada na forma-casa. A habitação das ruas é aqui pontuada como uma forma de engajamento de mundo e forma de produção de conhecimento. Apartados de instâncias de proteção social, estes sujeitos desenvolvem táticas de preservação à vida que são voltadas às práticas de cuidado de si. Quando bem empregadas, as táticas tornam-se conhecimento da rua, que diz respeito ao conhecimento produzido pela violência e contenção aos quais são alvos cotidianamente mas que devem ser driblados. O mangueio, também entendido como uma tática de cuidado, contradiz algumas pressuposições sobre a mendicância, pois há na relação travada entre o pedinte e o doador uma troca, na qual os elementos de estigmatização sobre a vida nas ruas são acionados no discurso como formas de transitar por uma rede de significados sobre a pobreza. E, finalmente, a rua é aqui relatada segundo as noções que emergem das experiências vividas em suas trajetórias, um universo de múltiplos caminhos a serem percorridos. Veremos como a rua é um espaço de ativação de vínculos e não um espaço de desvinculação social.
No capítulo O corpo da rua: trajetórias corporais na rua, procuro demonstrar o modo pelo qual os sujeitos se pensam ao traçar suas trajetórias de rua. Relato as formas de
produção de um corpo e um sujeito em constante cuidado de si mesmo. A experiência de marginalização e as contenções sofridas por estas vidas são notadamente expressas nas Vigilâncias para si que são práticas e técnicas corporais cuja apreensão produzem um
conhecimento da rua. Este conhecimento indica um estado de vigilância constante, uma das
táticas mais importantes para garantir a proteção de suas vidas.
O corpo é também produzido e marcado pela pinga e pelas drogas49, substâncias elementares para a manutenção do corpo, memória, saúde e doença. O corpo da rua é também produzido pelas marcas dos movimentos realizados em suas trajetórias e são apresentadas na esfera do corpo, nos dentes, cabelos, pés, cicatrizes. O corpo da rua é marcado por insígnias que imprimem a memória na esfera do corpo. Assim como o galo, mochilas onde guardam seus pertences, mantido sempre junto ao corpo, opera como uma extensão corporal, no qual cartas e fotografias são materializações de suas memórias.
No capítulo Cair na rede: uma etnografia da rede assistencial, relato como as
trajetórias de rua são inseridas nos circuitos institucionais, sendo estes importantes mecanismos
para se movimentarem pelas ruas e para a reprodução destas vidas. O CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) constitui-se como a principal instituição de acolhimento, sendo um modelo assistencial pioneiro de gestão à população de rua. Relato as formas de apropriação dos serviços operadas nas trajetórias de rua, utilizadas como táticas de proteção de si. Destaco as formas de classificação das trajetórias nos ambientes institucionais, um mecanismo importante para diferenciar as trajetórias de rua e assegurar o atendimento territoralizado previsto nos serviços, restrito à população de rua da cidade. Nos ambientes institucionais, um outro tipo de movimento é produzido em suas trajetórias que diz respeito ao deslocamento e encaminhamento para uma rede institucional, abrangendo os serviços de saúde, educação e assistência social.
Relato os planos de intervenção aos usuários, prevendo a constituição de suas autonomias, um conceito chave para se pensar o projeto de ressocialização da população de rua. Para que o atendimento seja um projeto de assistência continuado, a criação dos vínculos (entre profissionais e usuários) é fundamental; contudo, vemos nos conflitos gerados em torno do
49
O realce em itálico no termo drogas, além de fazer alusão a um debate contemporâneo sobre a partilha moral (VARGAS 2001) entre drogas de uso lícito e drogas de uso ilícito, também tem o intuito de preservar os termos nativos conforme são feitas as classificações das substâncias por eles consumidas. A diferenciação entre
pinga e drogas aparece entre meus interlocutores e, por isso, mantenho a correlação para justamente demarcar esta
comprometimento que o tipo de vínculo esperado pelos profissionais e usuários correspondem a
duas perspectivas diferentes sobre seus projetos de ressocialização e suas autonomias.
Descrevo o serviço de Abordagem de Rua, caracterizado pela busca ativa, cujo objetivo é mapear os principais pontos onde a população de rua costuma transitar, abordá-los em seus locais de convivência e realizar a criação de vínculos (entre a instituição e a população de rua) através da rua.
O Albergue Noturno é também abordado neste capítulo. Procuro trazer à discussão os principais movimentos produzidos nas trajetórias que passam pela instituição. O traço mais marcante nas trajetórias dos que se fixaram na cidade é a utilização cotidiana do Albergue, que pode ser um espaço de acolhimento, para alguns, como também um local a ser evitado, para outros. O movimento gerado nas trajetórias dos trecheiros corresponde ao deslocamento intermitente por uma rede intermunicipal de Albergues, provocando um movimento incessante por esta rede.
No último capítulo, retomo brevemente os principais pontos apresentados em todo o texto e apresento as considerações finais deste estudo.