A identidade de um lugar é mais do que uma morada ou que a sua simples localização, é o resultado da nossa experiência nesse lugar. Essas experiências são influenciadas e influenciam novas experiências, logo a identidade é única para cada lugar e única para cada individuo. Os espaços públicos são palcos de sentimentos subjetivos, que criam memórias de lugares e sentido de pertença, sendo estes importantes para o bem-estar do individuo (Cattell et al., 2008). Os espaços públicos são fundamentais para a existência de experiencias partilhadas e para o reforço do sentido de identidade, são espaços de expressão coletiva da vida comunitária. É através do processo de identificação, na criação de um sentido de lugar, que as pessoas transformam Não Lugares (Augé, 1994), em espaços públicos e espaços de socialização. (Indovina, 2002)
As pessoas podem ter várias referências identitárias quer associadas a uma identidade individual, quer a uma identidade como membro de um grupo, de uma comunidade ou de um território.
Para Lynch (1981) a identidade pode ser concebida como o “nível a que uma pessoa consegue reconhecer ou recordar um local como sendo destinto de outros locais-como tendo um caracter próprio vívido”, (Lynch, 1981 p.127) afirma ainda que a identidade de um local está ligada á identidade pessoal, pois esta está ligada aos sentidos e às memórias de cada um de nós.
A identidade de um lugar é o resultado de um conjunto de intenções subjetivas e experiências, não o resultado de cenários e edifícios(Carmona and Tiesdell, 2007) e é fundada com base, quer no individuo, quer na cultura a que este pertence.
Para Relph (1976) a identidade de um lugar é constituída por três elementos básicos: o ambiente físico; as atividades e o sentido. Estes três elementos são inseparáveis da nossa experiência com o lugar, são a matéria-prima da identidade do lugar. Quer as atividades (o movimento das pessoas), quer o ambiente físico (os edifícios) são fáceis de encontrar em qualquer sítio, mas a subjetividade do sentido do lugar é que torna difícil de compreender a sua identidade. Para podermos manter os espaços com vida, estes têm de se tornar únicos, reforçando o seu sentido de lugar. (Balsas, 2007)
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No livro Elements of Architecture (Meiss, 1990), é referido que embora hoje em dia existam outros códigos como a roupa, objetos e gestos, que definem a nossa identidade dentro de um grupo ou de uma comunidade, a Arquitetura continua a ter um papel muito importante na redução ou fortalecimento do sentido de identidade. O arquiteto tem de ser capaz de criar lugares que sirvam a identidade urbana, deixando uma margem para que as identidades individuais e coletivas se possam expressar e apropriar-se do espaço.
A apropriação do espaço é um conjunto de práticas que conferem a um espaço as qualidades de um lugar pessoal ou coletivo, este conjunto de práticas contribuiu para a identidade do lugar (Ferreira et al., 2002).
Para Meiss (1990) existem três condições que auxiliam na criação de um sentido de identidade:
- Criação de um ambiente sensível, baseado na observação e no entendimento profundo dos valores e comportamento das pessoas e grupos envolvidos e das características cruciais da sua identidade.
- Participação dos futuros utilizadores na conceção do lugar.
- Criação de um ambiente em que os habitantes possam modificar e adaptar, criando estes símbolos de identidade específicos.
O espaço público (equipamentos, e espaços públicos abertos) pode ser um importante mecanismo de redistribuição e integração social, estes espaços podem ser criadores de novas centralidades, facilitando a mobilidade, facilitando a aceitação de bairros esquecidos ou com má reputação (Borja and MuxÌ, 2003). Na proposta projetual que iremos desenvolver, pretende-se utilizar os mercados, espaço público/equipamento, como um espaço que visa reforçar a identidade do lugar e a vitalidade no espaço público.
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3.1.4. BRICK LANE- UM ESPAÇO PÚBLICO REFLEXO DE UMA IDENTIDADE
Brick Lane é um caso de uma intervenção urbana de sucesso feita ao nível do espaço público que reflete a identidade da população que habita este local, é uma referência para o projeto, de como revitalizar um espaço público, procurando espelhar no mesmo as características e as necessidades de quem o habita.
A zona Este de Londres, no distrito de Tower Hamlets (o qual se inclui a área de Brick Lane), tem características semelhantes á área de estudo, ou seja, a envolvente à Avenida Almirante Reis. No distrito de Tower Hamlets encontra-se uma das áreas mais pobres de Londres,“ the doorstep of the City of London has made it an attrractive locattion for all manner of irregular activities, not otherwise permitted in the city.”(Oakley and Pratt, 2010. p.3). A população residente a apresenta baixas perspetivas de emprego e baixas qualificações. A população é maioritariamente imigrante, migrando por motivos associados à existência de conflitos armados nos seus países de origem (1960-1970), sendo provindos da Irlanda, Rússia, Polónia, mas principalmente do Bangladesh, sendo esta a maior comunidade étnica de Tower Hamlets. A área de Brick Lane prova que a celebração da cultura pode trazer benefícios económicos que se estendem para além das barreiras étnicas e que a identidade individual, de grupo e o sentido de pertença ao lugar podem ser incrementados com o uso de tipologias e motivos arquitetónicos familiares da comunidade (Gard'ner, 2004). Gard’ner (2004) refere que três zonas foram identificadas, pela comunidade “Bengalee” i, como tendo especial importância: Brick Lane, Fashion Street e Whitechapel Market. São zonas importantes quer economicamente, quer comercialmente, cada uma servindo necessidades diferentes.
A rua Brick Lane, conhecida localmente como “Banglatown”, é conhecida pelos seus restaurantes indianos, pelas suas lojas 24horas, pelo mercado de bricabraque ao domingo, e por ser o eixo de concentração da comunidade “Bengalee”. Assim: “ This colorful and varied street extends from Osborn Street to the south, which continues to house Jewish- and Bengalee-run clothing manufacturing industry, trough the Bengalee retail, cultural and restaurant are in the Pakistani-dominated leather industry to the north of the former Truman Brewery and railway yard.”(Gard'ner, 2004 p.82).
Desde 1980 que a comunidade “Bengalee” tem o desejo de deixar a sua marca na paisagem urbana de Brick Lane, este desejo por parte da comunidade levou a um conjunto de iniciativas que tiveram como objetivo estimular um certo sentido de lugar e de orgulho e também criar
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uma identidade específica que pudesse atrair turistas. Quando nos aproximamos de Brick Lane, através da rua Commercial encontramos o primeiro elemento físico, prova dessa identidade, o arco que foi construído em 1997. O mobiliário urbano é decorado com motivos e cores tradicionais e os nomes das ruas são colocados em ambas as línguas, Inglês e Bengali. Nenhuma outra comunidade imigrante, recentemente, causou tanto impacto no ambiente urbano de Londres como esta. Para além de reabitar edifícios existentes, introduziu as suas tradições culturais e estéticas, definindo assim o caracter e o significado daquela área.
Nota: 1-Expressão que Gard’ner (2004) usa para definir pessoas provenientes do Bangladesh e da província Indiana de Bengala, as quais falam a mesma língua “ Bengali or Bangla”
Fig.21 Placa de indicação da rua em ambas as línguas. (Fonte:http://en.wikipedia.org/wiki/File:Brick_Lane_street_signs.JPG)
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Fig. 22 Fotografia do NaschMarket Viena (Fonte: Candidata 2011)