• No results found

FORSKJELLER MELLOM BARN OG VOKSNE

O campo da Educação Musical comporta objetos de estudo para além dos cenários escolares e acadêmicos e o pesquisador em educação musical “deveria procurar idéias práticas que são apropriadas para certas situações”, ciente de que “pode haver múltiplas maneiras nas quais a educação musical pode ser conduzida com integridade”.

Arroyo; 2002:6.

Na seleção do mestrado da Escola de Música da UFMG, para ingresso no ano de 2007, apresentei um projeto para a área “estudo das práticas musicais”, visando uma orientadora cujos projetos de pesquisa pareciam não ter ligação com as minhas intenções de pesquisa. Ainda assim, tentei aliar meu desejo de ser etnomusicóloga aos pensamentos por uma educação musical que expandisse os conceitos de aprender música, com os complementos de aprender com música, através da música, entre outros. Fui aprovada e, ao refazer meu projeto, tirei fora o ponto “educação musical” da minha pesquisa. Tirei fora do papel, mas não imaginava como a educação estaria intrinsecamente ligada não somente aos significados que eu pretendia pesquisar, como também aos discursos e aos agentes musicais propriamente ditos. Porque “todo sistema de educação é uma forma política de manter ou de modificar a educação dos discursos, com os saberes e os poderes que implicam” (Foucault; 1992:38). 1

Em primeiro lugar, imaginando a educação musical como ‘as maneiras de aprender música’, dos tipos chamados formais – sistematizados, relacionados a métodos, escolas, cursos e títulos – e dos informais – a falta de ordem (que não é desordem), os aprendizados pela vida, através da performance –, é possível aliar o modus vivendi de cada liderança em culto com a formação dos músicos que a constituem. Tomemos como exemplo a formação de Ester e Davi. Ester começou seus estudos de maneira formal, que culminou em uma

1Todo sistema de educación es una forma política de mantener o de modificar la educación de los

licenciatura em música, um bacharelado em piano e uma especialização em educação musical. Ao ser questionada sobre o porquê dessa carreira formal, ela respondeu que seus estudos musicais foram sempre visando a atuação na igreja. Já Davi, começou vivendo, tocando e depois de um processo longo de aprendizagem com caráter mais informal, um dia ele resolveu se especializar naquilo que já fazia: tocar e ministrar na igreja. Contudo a sua formação não foi estritamente musical, mas também teológica. Se continuo com exemplos, é possível perceber que os componentes do ministério musical de IBT tendem a uma educação musical mais formal em suas formações, e em IBP, mais informal, mesmo para aqueles que se formaram em escolas.

Talvez as coisas se passem como se a educação musical formal despertasse a busca de um ambiente formal, no qual as músicas feitas são formais, e o formalismo aqui pode ser subentendido como a tradição erudita da música européia e o sistema Conservatório de Música. Talvez o mesmo se passe no informalismo, ligado à música popular, ainda que o caráter informal da música popular já seja amplamente revisto e discutido. Talvez isso ocorra porque não estamos falando apenas de ensino musical (in + signo = colocar um sinal, marcar), aplicado ao conteúdo material relacionado aos parâmetros da linguagem musical (altura, duração, dinâmica e timbre), mas estamos falando de educação (ex + duco = conduzir para fora), poder-se-ia pensar aqui em para fora do material musical ele mesmo, dando uma ênfase no que o cerca, no ambiente, nos demais valores atrelados a ele.

Em segundo, a Educação Musical pode ser vista como educação através da música, das palavras, estilos e posturas de performance. Os discursos por trás delas, e a respeito delas, transmitirão valores, idéias e crenças para os músicos e para a comunidade que os ouve. Se o ideal daquela comunidade é voltado para alcançar pessoas fora da igreja através do comércio no chamado mercado gospel, não só o estilo das músicas deverá ser adequado para este fim, como também as pessoas serão educadas discursivo e musicalmente para o consumo. Assim como, se o ideal é manter uma tradição na qual a música, ainda que com seus poderes, tem como função principal dar suporte a um texto que seja doutrinariamente correto, as pessoas serão educadas para chegar nesse fim, através dos estilos musicais e dos discursos sobre música. E aqui, talvez obrigação e desobrigação se encontram, e se fundem em uma

(des)obrigação: a pessoa está ali porque quer, desfruta, e assim por diante; mas vai

permanecer ali se a obrigação de persuadi-la for cumprida, se as formas de educação alcançarem seus objetivos.

E acredito que o tema poderia gerar muitas outras reflexões, porque educação são várias e música são várias também. Essa variedade, superfície da diferença, levantou outro

ponto, surgido a partir de uma mesa redonda no I Simpósio de Sociologia da Educação

Musical, na Escola de Música da UFMG, em agosto de 2008. Ali, uma pessoa da platéia fez o

comentário que, em uma escola de música de uma universidade no interior de Minas Gerais, cerca de 90% dos alunos do curso de licenciatura eram evangélicos, e que o motivo principal da busca dessa formação era o um aperfeiçoamento musical para se trabalhar nas igrejas. Outro professor, da mesma instituição, comentou que, devido a uma variedade de ‘credos’ dos crentes, ele não pode realizar o repertório que havia escolhido para o coral porque os ‘crentes’ não cantavam missas ou músicas inspiradas nas tradições religiosas afro-brasileiras.

O ingresso dos crentes em cursos superiores de música visando um melhor trabalho na igreja, talvez mostre que, apesar de ‘laica’ a universidade oferece recursos para a manutenção das práticas religiosas, e que a música nas igrejas evangélicas busca, mais do que simples reproduções amadoras, qualidade naquilo que é uma das expressões máximas de louvor. Ao passo que, nesse mesmo espaço laico da universidade ocorrem ainda rixas advindas de conceitos e preconceitos sobre as crenças de cada um. Uma vez mais, não são os ‘crentes’, ou as ‘missas’ ou as ‘religiões afro-brasileiras’ que são atacadas, mas a diferença. O que fazer? Obrigar o professor a mudar seu repertório, ou obrigar o aluno a cantar algo que sua religião ‘proíbe’? Não! Deixar que a diferença prevaleça, e que, ela com suas ambigüidades achem as soluções que serão diferentes para cada caso.

5.2. De quando não fui etnomusicóloga: na margem das definições