Tendo em vista a amplitude do assunto, demarquei três temas que, por seu alcance, podem oferecer uma compreensão de como a Psicologia Histórico-Cultural analisa esse assunto: concepção de desenvolvimento, relações entre desenvolvimento e aprendizagem e a formação de conceitos. É importante destacar que, para esta perspectiva, o desenvolvimento humano não pode ser considerado como fenômeno universal, por se relacionar e ser determinado pelo contexto sócio-histórico no qual os homens se inserem.
Mesmo sem a intenção de formular uma teoria do desenvolvimento infantil, Vigotski (1982; 1988a; 1988b; 1994; 2000) pesquisou a infância procurando compreender a pré-história desse processo. Seus estudos demonstraram que, ao nascer os fatores biológicos desempenham um papel mais central, porém, na medida em que a criança amplia suas relações com o meio, a cultura torna-se um elemento determinante nos rumos do desenvolvimento. Segundo esse autor, no processo de constituição humana, podem-se assinalar duas linhas de desenvolvimento, diferentes no que se refere a sua origem, mas que se entrecruzam na história dos indivíduos. Nas suas palavras:
Podem-se distinguir, dentro de um processo geral de desenvolvimento, duas linhas qualitativamente diferentes de desenvolvimento, diferindo quanto à sua origem: de um lado, os processos elementares, que são de origem biológica; de outro, as funções psicológicas superiores de origem sócio-cultural. A história do comportamento da criança nasce do entrelaçamento dessas duas
linhas (VYGOTSKY, 1994, p. 61). (Grifos no original)
As diversas mudanças que ocorrem durante o processo de desenvolvimento, caracterizam-se por tensões e rupturas, provocadas por contradições, entre a forma como a criança vive, em determinado momento, e as possibilidades de superação que existem. Porém, é dessa contradição que, segundo Vigotski (1996), nasce a necessidade da mudança, para outro estágio qualitativamente mais complexo. Nesse sentido, diferente de outras perspectivas teóricas, as características existentes em determinadas fases do desenvolvimento não são naturais, mas historicamente produzidas.
Explicitada a concepção de desenvolvimento, discuto, a seguir, a relação entre desenvolvimento e aprendizagem.
De acordo com Vigotski (1994, p. 103), não dá para resolver os problemas que existem na análise psicológica do ensino, sem se fazer referência à relação entre o aprendizado e o desenvolvimento em crianças em idade escolar.
A relação entre aprendizado e desenvolvimento permanece do ponto de vista metodológico, obscura, uma vez que pesquisas concretas sobre o problema dessa relação fundamental incorporaram postulados, premissas e soluções exóticas, teoricamente vagas, não avaliadas criticamente e, algumas vezes, internamente contraditórias: disso resultou, obviamente, uma série de erros.
Para o referido autor, todas as concepções correntes da relação entre desenvolvimento e aprendizado em crianças reduzem-se às seguintes posições teóricas: A primeira parte do pressuposto de que os processos de desenvolvimento são independentes do aprendizado. A aprendizagem se utilizaria apenas dos avanços do desenvolvimento, ao invés de fornecer um impulso para modificar seu curso. “É típico dessa teoria a concepção sumamente complexa e interessante de Piaget, que estuda o desenvolvimento do pensamento infantil com absoluta independência em relação aos processos de ensino da criança” (VYGOTSKY, 2001, p. 466). Para esse estudioso, no entanto, a maturação biológica é um fator secundário no desenvolvimento das formas complexas do comportamento humano, pois essas dependem da interação da criança e sua cultura.
A segunda posição postula que aprendizagem é desenvolvimento. De acordo com Vigotski (Ibid, p. 469), essa idéia foi desenvolvida por James que, ao diferenciar
“as reações congênitas e as adquiridas, como o faz a reflexologia atual, reduziu o
processo de aprendizagem à formação de um hábito e identificou esse processo ao processo de desenvolvimento”. Mas, para o referido autor, apesar de mais avançada que a anterior, é também equivocada.
A terceira posição tenta superar os extremos das outras duas, simplesmente combinando-as. Como por exemplo, a teoria de Kofka, citada por Vigotski (2001), sobre o desenvolvimento mental da criança. De acordo com essa teoria, o desenvolvimento tem por base dois processos diferentes por natureza, mesmo unidos e mutuamente condicionados um pelo outro. O primeiro, o amadurecimento que depende, imediatamente, do processo de desenvolvimento do sistema nervoso; o segundo, a aprendizagem, que também é um processo de desenvolvimento. Para o estudioso russo, no entanto, a aprendizagem é condição prévia para o desenvolvimento, antecipando-se a ele e podendo promovê-lo. Nesse caso, aprendizagem e desenvolvimento estão inter- relacionados, desde o primeiro dia de vida do indivíduo, mas não coincidem entre si; à proporção em que a aprendizagem avança, o sujeito se desenvolve mais rapidamente.
Para o referido autor, o principal fato humano é a transmissão e assimilação da cultura, vez que a aprendizagem se constitui em condição indispensável para o desenvolvimento das características humanas. Partindo deste pressuposto, estabeleceu as bases para um novo debate não apenas em relação à aprendizagem, mas também no que diz respeito ao desenvolvimento e às funções do ensino.
Ao analisar a relação entre aprendizado e desenvolvimento, em crianças em idade escolar, Vigotski (1994, p. 113) descreve a existência de dois conceitos: um que se refere àquilo que a criança faz sozinha e o outro que diz respeito àquilo que ela faz com a ajuda de outras pessoas, especialmente de adultos. Segundo esse estudioso: “O estado de desenvolvimento mental de uma criança só pode ser determinado se forem revelados os seus dois níveis: o nível de desenvolvimento real e a zona de
desenvolvimento proximal”. O nível de desenvolvimento real ou efetivo se refere às
conquistas já alcançadas, e o outro, o nível de desenvolvimento próximo, diz respeito às capacidades em vias de serem construídas.
A noção de ZDP, para este autor, indica que todo bom aprendizado é o que adianta o desenvolvimento, ou seja, no seu entender, o ensino não pode se submeter ao desenvolvimento atual, mas se antecipar e ativar processos de desenvolvimento. Esta proposta tem implicações, não apenas na valorização do conhecimento teórico da Psicologia na Educação, mas, principalmente na maneira de conceber o aluno e sua
cultura. Implica principalmente na compreensão do papel do professor, podendo contribuir para o rompimento com a perspectiva tradicional, que coloca a prática pedagógica em uma situação de dependência, em relação ao desenvolvimento real. Para um melhor entendimento desta questão, é necessário esclarecer dois tipos de conceitos, que para o autor russo representa o elo de todo o processo de aprendizagem: os conceitos cotidianos e os conceitos científicos.
A discussão acerca dos conceitos cotidianos e científicos, e das relações entre estes, configura-se como um dos aspectos mais importantes desta abordagem. Ambos os conceitos fazem parte de um processo mais complexo e estão intimamente relacionados no seu interior, mas o conhecimento científico deve ser o aspecto principal do processo de aprendizagem escolar. Segundo a concepção vigotskiana, o sistema de conceitos científicos constitui um instrumento cultural, portador de mensagens profundas e, ao assimilá-lo, a criança modifica profundamente seu modo de pensar. O processo de aquisição de conceitos científicos é possível, através da educação formal.
Os conceitos cotidianos representam o nível mais elevado de generalização e abstração em uma circunstância evidente e já conhecida. Compõem-se de
“generalizações de coisas” (VIGOTSKI, 2000), restringem-se a descrições simples da
realidade empírica, e existem antes da criança ingressar na escola. São representações gerais, que, em sua constituição, percorrem o caminho do concreto ao abstrato. Os conceitos científicos constituem-se de outra forma, são “generalizações do
pensamento”, não se encontram relacionados a aspectos particulares, mas a toda uma
classe de fenômenos. A constituição do conceito científico vai do abstrato ao concreto, pois a criança, desde o início é capaz de reconhecer o conceito que um determinado objeto representa.
O pesquisador anteriormente referido, em seus estudos, observou que os conceitos científicos evoluem mais rapidamente que os demais. O grau de apropriação dos conceitos cotidianos expressa o nível de desenvolvimento atual, enquanto que o grau de apropriação dos conceitos científicos equivale a sua zona de desenvolvimento imediato.
A explicitação dessa diferença evidencia que a aprendizagem dos conceitos científicos, desempenha um papel determinante em todo o desenvolvimento intelectual da criança, pois o antecipa, atuando em áreas nas quais as possibilidades desta criança ainda não se encontram completamente constituídas.
Percebe-se que, na literatura psicológica, não há, além da obra soviética da Psicologia Histórico-Cultural, teorias de desenvolvimento que pensem o percurso da criança construído socialmente pelo desenvolvimento do fazer humano que se consolida como possibilidade para todas as pessoas. Tomando o exemplo da escrita, vemos que a contagem, a quantificação e a classificação não são naturais. São conquistas dos humanos que se incorporam nas atividades humanas e nas possibilidades cognitivas das pessoas. Tais possibilidades instalam-se nos objetos e instrumentos culturais, na linguagem e, aos poucos, se transformam em capacidades individuais.
A análise dessas questões, à luz desse referencial teórico pode possibilitar uma apropriação aprofundada da teoria, além de representar um avanço significativo e produtivo no plano pedagógico. Considerando-se, ainda, que a teoria de Vigotski, ao apontar para a natureza sócio-histórica da subjetividade humana e mostrar os fenômenos enquanto mediação entre a história social e a vida concreta dos indivíduos, pode contribuir para melhorar a formação docente através de propostas pedagógicas mais consistentes para uma melhor atuação profissional.
Para alcançar a compreensão sobre os problemas educacionais relacionados ao desenvolvimento e à aprendizagem humana, é importante o profissional tomar conhecimento sobre o processo de aprendizagem, em seus mais detalhados aspectos e conhecer, profundamente, os mecanismos que envolvem a formação do pensamento, da linguagem e dos conceitos científicos, mais importantes durante a fase escolar. A obra de Vigotski é essencial, uma vez que apresenta idéias referentes à importância dos fatores sócio-culturais, na constituição da identidade do aprendiz e esclarece muito a respeito do pensamento, da linguagem e da formação de conceitos, como um processo onde a interação e os fatores históricos são fundamentais.
A partir da análise das idéias fundamentais da teoria Histórico-Cultural, pode-se refletir o alcance de suas implicações teóricas para o processo ensino-aprendizagem e como a Psicologia pode mediar a apropriação dessas no universo escolar, através de alguns conceitos, que explicam o desenvolvimento das funções mentais superiores, tipicamente humanas, e suas implicações educacionais.
Nos capítulos seguintes, analiso a apropriação da teoria de Vigotski, a partir de dados objetivos sobre os professores, sujeitos do estudo. Parto da análise do contexto sócio-cultural, examinando o perfil do profissional, sua formação e as condições efetivas para a realização do seu trabalho, para, em seguida, analisar os dados
diretamente relacionados com a problemática da apropriação dos seus escritos no campo da Psicologia da Educação.