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O Dr. Antônio Muniz de Souza, republicano, foi uma das testemunhas do inquérito policial instaurado para averiguar o ocorrido na revolta. Nesse documento, vários envolvidos de ambos os lados narraram suas versões dos fatos desde os

173 09/08/1889, AESP, C02698, Polícia 1889. Apud.: MONSMA, Karl. “A polícia e as populações “perigosas” no interior paulista, 1880-1900”. IX Congresso Internacional da Brazilian Studies Association, Tulane University, New Orleans. Louisiana, EUA, 27 a 29 de março de 2008. Disponível

em <http://www.brasa.org/Documents/BRASA_IX/Karl-Monsma.pdf> Acesso em 2 jun 2014.

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WITTER, José Sebastião (org). Ideias políticas de Francisco Glicério. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1982. Nessa eleição, apenas dois deputados republicanos foram eleitos. Segundo o

jornal “A província de Minas”, a eleição gastou uma quantia enorme e reflete os gastos exorbitantes do

governo federal com setores da sociedade. O jornal era um órgão do partido conservador e criticava os liberais que estavam no poder. ELEIÇÃO DOS CEM MIL CONTOS. A província de Minas, ano X, nº 605, Ouro Preto, 31 de agosto, 1889, p.1.

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ABRAHÃO, Fernando Antônio. Correspondência passiva de Francisco Glicério. Campinas: Área de Publicações CMU/UNICAMP, 1996.

acontecidos antes do ataque ao hotel até a chegada do delegado de Casa Branca e a abertura do inquérito. Segundo Antônio Muniz de Souza, ele

(...) e seus amigos foram a estação em corporados e com banda de música, e tendo chegado o trem muito retardado, estava a estação digo e estando na estação muito aglomerada de povo e soldados, ele depoente aconselhou que a manifestação não passasse de vivas à república e a Francisco Glicério, e que assim aconteceu que vieram para o hotel e ai o depoente dissolveu a reunião, indo ele depoente e alguns amigos para a mesa do jantar, onde não se fez um brinde sequer; depois o depoente recolheu-se para sua casa, (...).176

O jantar no hotel Brasil ocorreu sem incidentes. Não sabemos qual o cardápio servido, nem o teor das conversas, mas acreditamos que o tema principal foi o movimento republicano e a campanha de Glicério. Após o jantar, a presença de um cabo no quintal do hotel iniciou o problema. Como esse foi o ponto catalisador dos conflitos já latentes da cidade, há divergências entre os depoimentos das testemunhas. Vamos reunir cada um deles aqui, num exercício de respeitar todas as afirmações e aprofundar a análise. Por outro lado, vamos tentar descobrir a história mais plausível para a presença do cabo Rego na propriedade de Ananias Barbosa.

Nos depoimentos dos republicanos e de outras testemunhas que apenas viram os eventos no dia seguinte, não há muitas informações acerca da presença do cabo na propriedade de Ananias Barbosa, a não ser pelos depoimentos dele próprio e do empregado, Emiliano Ângelo, copeiro do hotel, e aliado dos republicanos. O republicano Ananias Barbosa afirma que

Chegando na janela do seu hotel na noite do dia dez do corrente viu uma pessoa, as dez horas mais ou menos junto a cerca de sua casa particular, que pulou a cerca e entrou no quintal da casa, procurando ouvir o que se conversava dentro da casa. Que o depoente procurando conhecer quem era essa pessoa, verificou que era um polícia e então dirigiu-se a dita casa a fim de saber o que ele lá queria, sendo-lhe respondido que estaria rondando, e tinha ordens do subdelegado de não admitir conversas, nem mesmo em casa depois das nove horas da

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SÃO PAULO. T.I. Processos Policiais. Cx. 18, Ordem 3219. Arquivo permanente do Arquivo Estadual de São Paulo.

noite; que então o depoente fez-lhe ver que seu procedimento não devia ser admitido tanto que o depoente encontrando qualquer pessoa no quintal de sua casa sem seu consentimento podia até cortar o pescoço e que podia dar-lhe muita cacetada se não respeitasse a farda e o estado de embriaguez em que o depoente supôs estar o mesmo polícia, que depois soube ser um cabo.177

Optando por seguir o conselho de um hóspede republicano, o Dr. Holanda Cavalcanti, Ananias Barbosa levou o policial ao seu comandante para relatar o fato. Chegando à cadeia, os condutores do cabo observaram que os praças já estavam reunidos no quartel como que aguardando alguma coisa.

O copeiro do hotel afirmou que tomou conhecimento da presença do cabo Rego no quintal da casa e ele mesmo retirou-o de lá, levando-o a cadeia com outros empregados do hotel, Avelino e José Gama. Contou, também, que ouviu os praças dizerem “morram os republicanos” e “hoje havemos acabar com os

republicanos, beber o sangue deles”.

O Dr. Geraldino da Silva Campista, outro republicano, contou que, por volta das dez horas da noite do dia 10 de agosto, ouviu o sinal de incêndio dado pelo sino da cadeia e foi até lá para verificar o que estava acontecendo. Ele viu o capitão Saturnino Barbosa, liberal, atravessar o largo gritando “vamos acudir o hotel Brasil”. Nesse caso, ele ameniza a atuação de Saturnino, mas os outros republicanos depõem que o capitão foi o mandante do ataque, como afirma o Dr. João Gomes da Rocha Azevedo, republicano. Segundo ele, o subdelegado liberal, José Honório, tinha a intenção de atacar o hotel por causa de seu repúdio aos republicanos, seguindo os conselhos de Saturnino Barbosa. Acrescentou que os moradores locais Antônio de Mattos e Antônio Zeferino Gonçalves viram o capitão no quintal do hotel de Ananias Barbosa na hora do ataque dos praças. Além disso, afirmou que o capitão aconselhara o

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SÃO PAULO. T.I. Processos Policiais. Cx. 18, Ordem 3219, trigésima terceira testemunha. Arquivo permanente do Arquivo Estadual de São Paulo.

ex-subdelegado, Venâncio Gomes Porto, a não permitir as festas republicanas, mas este disse que só faria isso se o partido liberal estivesse no poder.

O republicano proprietário do hotel, Ananias Barbosa, também é enfático quanto ao dolo do capitão. Ele o viu na porta de seu estabelecimento na hora do ataque. Segundo ele, o capitão foi visto também pelos vizinhos Domingos Francisco de Souza, Antônio Zeferino Gonçalves, vulgo Antônio Pintor, João Joaquim Ribeiro da Lavra, José Maria Paoliello, Antônio Pereira de Mattos, Francisco Ribas do Amaral e outros. Barbosa contou que o recado dado pelo subdelegado a ele, mencionado pelo capitão Saturnino, era de que, caso se reunissem no hotel mais de vinte pessoas, eles teriam força para revidar e matar todos que estivessem ali. Emiliano Ângelo também enfatizou a intenção do subdelegado em atacar e agredir os republicanos. Segundo ele, quando lhe pediram apoio, fez o contrário e mandou os praças atirarem.

A discussão em torno da participação intelectual do capitão Saturnino Barbosa está relacionada ao sentido do ataque ao hotel Brasil. As ordens ou estímulos do capitão para a realização do ataque legitimariam uma revanche porque o objetivo dele era afrontar os republicanos no dia do encontro do candidato Francisco Glicério. A possibilidade de Saturnino não ser o mandante reduziria o caráter político do ataque e a tomada da cidade pelos republicanos seria infundada. Nesse sentido, há sempre uma necessidade por parte dos republicanos em se estabelecer uma autoria intelectual e política para o ataque. Em vista disso, escolheram como mandante o capitão Saturnino Barbosa ou subdelegado José Honório. Isso justificaria sua atuação e daria ao regime monarquista menos credibilidade, já que ele, o sistema, seria então responsável pelas “atrocidades” ocorridas.

Os praças chegaram ao hotel munidos de paus, pedras e rifles. Segundo Honório Luís Dias, depoente do laudo, o hotel foi depredado e sofreu danos nas portas,

janelas e paredes, que foram furadas e quebradas com pedras, armas, rifles e tiros. No interior do prédio, louças, espelhos, vidros e diversos objetos foram quebrados. O valor apurado pelo laudo relativo ao prejuízo causado ao patrimônio do hotel foi de 150 mil réis e mais três contos de réis por danos morais.

O barulho do toque dos sinos e da descida dos praças até o hotel acordou muitas pessoas, que se dirigiram para a rua. Algumas apenas chegaram à janela para ver o que estava acontecendo. Outras ficaram em casa com receio de sair. Honório Luís Dias contou que quando saiu na sacada de seu sobrado, depois de ouvir o sino e alguns tiros, ouviu os praças gritando “viva a Monarquia, fora Francisco Glicério e morra a

república”. Chegaram, então, em sua casa Ananias Barbosa, Dr. Mercado e Francisco

Glicério, sendo que este último ele não conhecia. Em sua versão, Dias dá a entender que sua casa transformou-se em QG sem que ele consentisse deliberadamente, mas, assim que percebeu a necessidade de proteger os que estavam em seu sobrado, mesmo os presos, mandou chamar os homens da fazenda.

Após o primeiro ataque ao hotel, o republicano Geraldino Campista, que havia escutado o sino da cadeia, saiu para verificar o que acontecia e, vendo o tumulto, voltou a sua casa para “prevenir-me, caso fosse desacatado”. Na volta para sua moradia, encontrou Glicério, Dr. Mercado e Luís Nery na esquina da casa de Honório Dias e eles lhe contaram o que ocorrera e combinaram “os planos de defesa e meios de restabelecer

a ordem”. Com medo de sua casa ser invadida, como ouviu que aconteceria por pessoa

do povo, levou sua família para o sobrado de Honório Luís Dias em

(...) companhia do cidadão Francisco Glicério, Doutor Mercado e outros trataram de providenciar meios de defesa chamando seus correligionários que residem nas fazendas assim como o pessoal que pudessem dispor. Enquanto esperavam os companheiros dirigiu-se ao hotel Brazil para diviso presenciar os atos de vandalismo praticados pelos soldados; estando nesse hotel ai apareceu o subdelegado José Honório dizendo que não podia conter a força e pedia que se dispersassem os que ai estavam neste momento um grupo de pessoas

vindo do hotel pessoas sérias e de todo conceito afirmaram que senhor José Honório tinha dirigido os primeiros ataques contra o hotel aos gritos de mata, mata, e quiseram tirar sem desforço contra o dito subdelegado ao que se opôs o depoente trazendo o mesmo debaixo de sua responsabilidade até a casa do cidadão Honório Dias onde estava reunido o partido republicano e ai resolver-se que fosse o mesmo detido para a garantia de todos.178

Assim, a maneira que planejaram para restabelecer a ordem foi chamar os republicanos das fazendas, que vieram com seus homens, denominados pelos republicanos de “povo”.

As lideranças republicanas reunidas na casa de Honório Dias eram os senhores Francisco Glicério, Dr. Muniz de Souza, José da Costa Machado, Manoel Corrêa de Sousa Lima, José Antônio de Lima, Elisiário Dias, Alípio Dias, Geraldino Campista, Holanda Cavalcanti, Ananias Barbosa, Antônio Corrêa de Sousa, Dr. João Gomes da Rocha Azevedo, Francisco Xavier de Oliveira, Dr. Antônio Mercado e Luís Nery. A maioria deles estava envolvida na propaganda republicana por meio de campanhas políticas, como Glicério, em atividades jornalísticas, como Muniz de Souza e José da Costa Machado, ou grupos ativistas como Antônio Mercado. Além de serem lideranças locais, alguns deles faziam parte da maçonaria, como Glicério e Manoel Corrêa de Sousa Lima. O primeiro pertencia à loja de Campinas e o segundo de Casa Branca e acreditamos que outros deles também faziam parte da ordem, que era uma instituição envolvida com a propaganda republicana.179

Não sabemos o que esses homens discutiram no palacete de Honório Dias, mas podemos sugerir algumas pautas que culminaram nas decisões tomadas pelos líderes. Para isso, estabelecemos que suas escolhas buscavam a melhor estratégia para

178

SÃO PAULO, op. cit., 1889.

179 Sobre a maçonaria ver: BARATA, Alexandre Mansur. “Os Maçons e o Movimento Republicano

(1870-1910)”. Locus: Revista de História. Juiz de Fora, v. 1, n. 1, 1995; CARNEIRO, Luaê Carregari.

“A Maçonaria e o Partido Republicano Paulista (1868 – 1889)”. Anais do XIX Encontro Regional de

História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP – USP. São Paulo, 08 a 12 de setembro de 2008.

atingir os objetivos do grupo que, provavelmente, não era apenas restabelecer a ordem, como afirmou Geraldino Campista, mas garantir a força dos republicanos na disputa com os monarquistas, que acontecia em São José do Rio Pardo e também na campanha nacional. Ao que tudo indica, foram pegos de surpresa pelo ataque dos praças e precisavam se posicionar para proteger o hotel e mostrar a força republicana. Nesse sentido, optaram por dominar os praças e a cidade com os homens das fazendas, indicando aos liberais que os republicanos eram ordeiros e respeitosos.

Os líderes republicanos chamados para defender o hotel Brasil e “reestabelecer a ordem” não participaram do jantar, assim como seus homens, sugerindo que não estavam vinculados diretamente ao sistema de propagandas da república. Sabemos que eles acompanhavam o processo político da cidade, alguns eram vereadores e todos eram eleitores e republicanos. Nesse sentido, eles vivenciavam os conflitos de São José do Rio Pardo, acompanhando todos os momentos anteriores, como a traição nas eleições e o duelo das bandas na convenção do partido liberal concomitante à inauguração da pedra fundamental da sociedade italiana. Eles se reuniram no palacete de Honório Dias com o intuito de preparar o contra-ataque e decidirem sobre as estratégias do posicionamento geral do grupo em relação ao império. Assim, os 300 ou 400 homens das fazendas, que estavam armados e eram comandados por seus líderes e pelos republicanos convidados do jantar, se dirigiram ao quartel, que ficava na Casa de Câmara e Cadeia, e tomaram o lugar.

No caminho e vasculhando as ruas da cidade, prenderam todos os praças que encontraram. Segundo Dr. Geraldino Campista, a soldadesca gritava “morra” aos republicanos e “vivas” ao filho do capitão Saturnino. O subdelegado mandou um recado a Ananias Barbosa e foi preso por acreditarem que era ele o responsável pelos ataques. Levaram-no ao palacete de Dias, onde foi mantido sob a proteção de Francisco Glicério,

Dr. Mercado, ele próprio e outros que contiveram “o povo que a todo transe procurava

reagir contra as autoridades policiais.”180

Os republicanos, então, renderam as autoridades locais, como o presidente da Câmara, o capitão Saturnino Frauzino Barbosa, o subdelegado e o oficial de justiça. Segundo o Dr. Campista, o oficial de justiça só foi preso porque entrou na casa de Honório Dias fingindo-se de bêbado e com uma garrucha carregada. Segundo o coronel Manoel Corrêa de Sousa Lima, “Somente eu comandava cem homens.

Procuramos os liberais, alguns escondidos debaixo da cama...”, fazendo referência

possivelmente a Saturnino Barbosa, que se escondeu na casa de Vanucci.181 Prenderam os soldados, desarmando-os. Um deles resistiu, “atirando sobre o povo. A massa

popular reagiu à bala.”182

O capitão foi preso “por pessoas capazes, trabalhadores estrangeiros e

nacionais e outras pessoas qualificadas.” Foi levado pelo Dr. Muniz, Dr. Mercado e

“outras pessoas distintas” para a casa de Honório Dias. Chegando ao palacete, Francisco Glicério estava na porta e pediu aos Drs. Muniz e Mercado para soltá-lo, mas estes teriam rido maliciosamente e mantido o capitão preso. De lá ele foi transferido para o prédio da Câmara, após o desarmamento e a prisão dos praças criminosos.

O Dr. Muniz, republicano, afirmou, em justificativa para o aprisionamento do capitão, que

(...) atribuem o capitão Saturnino responsabilidade nos sucessos, pelo fato de ser ele um chefe liberal que não se conforma com o crescimento do partido republicano no lugar, com o qual partido e respectivo pessoal anda em luta irreconciliável; que mais correram boatos, aliás hoje confirmados, bem ou mal, por todas as praças do destacamento, que se acham presas, de que o Capitão Saturnino consertara ontem a agressão aos republicanos; que ele depoente acha tão brutal semelhante meio de combater os adversários, que o seu espírito repugna acreditar em tão nefanda maquinação. Respondeu a

180

SÃO PAULO: 1889

181

TAVARES, Marcelo Coimbra. Proclamaram a república três meses antes do 15 de novembro. Diário

da Tarde, Belo Horizonte, 24 fevereiro, 1949, p. 1 e 5. 182

requerimento da parte, que quando chegou a casa de Vannucci, a voz de prisão já havia sido dada, estavam glomerados em frente ao edifício e adjacências muitos trabalhadores de roça armados, que haviam sido requisitados para garantir a população contra a polícia, nacionais e estrangeiros e bem assim pessoas como não há mais dignas nesta Vila pertencentes a diversos credos políticos.183

Com a tomada completa da cidade, o capitão Saturnino foi transferido para a Câmara Municipal, juntamente como o subdelegado e o oficial de justiça, e lá ficaram incomunicáveis e sem poder chegar à janela para ver a movimentação. Por fim, a bandeira republicana foi hasteada nos prédios públicos e a cidade foi declarada republicana.

Com o intuito de combater a insurgência dos praças, chamados de criminosos pelos republicanos, ou a tomada da cadeia, dois contatos foram feitos em Casa Branca. Vários praças contaram nos depoimentos do inquérito que o sargento e alguns praças foram à Casa Branca informar o ocorrido e buscar reforços para retomarem a cadeia. Por outro lado, alguns republicanos se manifestaram, como o Dr. Muniz, que telegrafou às autoridades, mas não sabemos a quem ele se referia, se às autoridades estaduais ou a outros republicanos, que engrossariam o grupo que tomou a cidade.

Segundo o jornal Diário Popular, do dia 13 de agosto de 1889, eles telegrafaram para o juiz de direito e o chefe de polícia.184 Nesse momento, os republicanos se posicionaram perante o Estado imperial, indicando que não estavam fazendo uma “revolução”, mas apenas “restabelecendo a ordem”. A estratégia foi, depois da tomada da cidade, do hasteamento da bandeira republicana nos mastros e janelas e do desenho de uma moeda para a nova república, refrearem os ânimos e não enfrentarem todo o Estado monárquico sem nenhuma preparação.

183

SÃO PAULO, op. cit.,1889.

184

O CONFLITO DO RIO PARDO, Noticiário, Diário Popular, São Paulo, 13 ago 1889, n° 1919, ano V, 1889, p. 2.

O coronel Manoel Corrêa de Sousa Lima descreve o que ele chamou de “revolução” ao falar de si no trecho dedicado a sua esposa, subterfúgio utilizado para abrir um precedente para sua escrita de si.

No tempo do império, seu marido republicano fervoroso, crente que a forma republicana vinha trazer a felicidade e a grandeza do Brasil e havendo vários incidentes entre republicanos e monarquistas deu-se uma revolução na qual seu marido era parte ativa, tendo sido presas as autoridades administrativas, políticas e policiais, inclusive um destacamento de 30 praças, o que causando grande indignação a estas autoridades e ao Governo imperial, foram processados os cabeças da revolução, dos quais seu marido fazia parte, isto deu-se no dia 11 de agosto de 1889, ia ser condenado seu marido a pena de exílio e D. Anna Augusta de Lima, nenhuma queixa, nem reclamação articulava, apenas procurava saber se a mulher e filhos do exilado era permitido acompanhá-lo.185

Não sabemos se eles tomaram a decisão de chamar as autoridades imperiais em conjunto ou se partiu apenas do Dr. Muniz, mas acreditamos, pelas notícias de jornais subsequentes, que eles foram congruentes quanto à refreada no ato de tomada da cidade e proclamação da república.

Na tarde do dia 11, o chefe de polícia da Província de São Paulo chegou com 100 praças e retomou a cidade. No dia seguinte ao ataque, a cidade já estava novamente sob o controle monarquista, o delegado fez o laudo do prédio do hotel Brasil e o auto de corpo delito no soldado que apanhou dos republicanos. Honório Luís Dias foi o depoente do laudo, e afirmou, respondendo às perguntas, que o hotel foi depredado, ocasionado avarias nas esquadrias e paredes. No interior do prédio, os utensílios domésticos foram quebrados. Foi calculado pelo laudo final o prejuízo causado ao patrimônio do hotel no valor de 150 mil réis e os danos morais na quantia de três contos de réis.

185

Após o laudo do hotel, os peritos Dr. Joaquim Rodrigues de Carvalho e Dr. Gonçallo Leite Rabello186 procederam ao exame de corpo de delito no soldado Ignácio de Morais e no cabo Francisco da Silva Rego. O primeiro foi ferido nos embates da noite de 10 de agosto e o segundo, agredido por Ananias Barbosa, dando início à confusão no hotel Brasil. Ambos foram feridos com algum instrumento pontudo, mas tiveram lesões leves, com danos avaliados em 50 mil réis para o primeiro e 30 mil réis para o segundo.

No dia 12 de agosto, o Diário Popular publicou, com o título de “Graves tumultos”, os telegramas recebidos sobre o evento em São José do Rio Pardo. Eles continham informações descritivas como

O delegado José Honório invadiu o hotel Ananias, onde está hospedado F. Glicério e destruiu completamente os móveis. Os republicanos prenderam o delegado e o chefe liberal Saturnino Barbosa, apoderaram-se da cadeia e dominam a vila.187