5.3 Analyse og drøfting av kvalitative data
5.3.1 Forskerspørsmål 1
Os textos hoje tidos como “não-literários” têm muito a nos ensinar (...) Não “assassinamos a literatura” (retomando o título de um panfleto recente) quando também estudamos na escola textos “não-literários”, mas quando fazemos das obras simples ilustrações de uma visão formalista, ou niilista, ou solipsista da literatura (TODOROV, 2012, p. 92).
Consideramos fundamental para esta pesquisa tecer alguns comentários a respeito da leitura de textos informativos ou, como nomeados por Todorov (2012), “não literários”, não só pelo fato de ser um tipo de leitura que circula em grande escala social, mas também por ter sido observado de forma intensa no acompanhamento das propostas de leitura realizadas na Escola 2.
Lucy Calkins (2001) dedica um capítulo de seu livro para tratar exclusivamente desse tipo de textos34, e logo no início destaca a importância de se trabalhar com eles nas escolas,
tanto por fazerem parte das leituras pessoais dos professores, quanto por interessar, segundo ela, um em cada quatro estudantes.
(...) ironicamente, o currículo de nossas escolas enfoca os textos e as habilidades de leitura de ficção. (...) Os textos que li, a maioria dos textos que você lê mais, e os textos que nossos filhos irão ler mais são textos de não-ficção35 (CALKINS, 2001, p. 437).
No caso do Brasil, a leitura de textos informativos é mencionada de forma muito breve nos PCN. O termo aparece basicamente em duas situações: ao explicitar o trabalho com a língua escrita, ao citar “algumas situações didáticas fundamentais para a prática de produção de textos”, dentro do item “Projetos” (BRASIL, 1997, p. 70), referindo-se à importância de se ler textos informativos para apoiar a produção textual de determinado gênero; e entre os conteúdos gerais do primeiro e do segundo ciclo, no item referente a valores, normas e atitudes – um deles é o interesse pela leitura de textos informativos. Entretanto, é importante destacar que, apesar de não especificar gêneros ou textos para o trabalho dos professores, a questão da diversidade textual aparece de forma constante36 e acreditamos que este seja um elemento que contribua para o trabalho com textos informativos em sala de aula, como pudemos observar em uma das escolas na qual a coleta de dados foi realizada.
As duas professoras comentaram realizar leituras de textos informativos em sua prática de sala de aula. No caso da Escola 1, de acordo com a diretora e a professora, a leitura desses textos acontecia, não só na área de Língua Portuguesa, mas também em aulas de outras disciplinas, como citado pela professora durante a entrevista:
Escola 1
Professora – (...) a gente faz leitura de texto informativo relacionado às outras áreas, que aí a gente também faz um trabalho de investimento em aprender a ler os textos e um trabalho de ler os textos pra aprender mais, que a gente faz, e aí são com textos, não tem nenhum outro livro que a gente lê nesse sentido.
Escola 2
Professora – (...) nós estamos trabalhando com reprodução humana, então o que eu estou escolhendo esses dias: da adolescência, texto da adolescência, o diário, a transformação da menina e do menino, que são os ritos, as culturas, as diversas culturas, né? Poesia ao adolescer... Então a gente trabalha...
35 Tradução nossa.
36 Trataremos de forma mais aprofundada desse aspecto no tópico em que será abordado especificamente o
Professora – (...) ajuda na carta de leitor, porque ajuda na carta de reclamação, que é uma proposta do SARESP, né? Esse ano, que é a carta do leitor. Então, a gente vem trabalhando muito com tudo isso. A gente trabalha também com jornal, né? Eles trazem... Teve, no bimestre anterior... Eles trouxeram notícia, então a gente conversou sobre as partes que formam um jornal.
Como pode ser percebido nos trechos em destaque acima, a professora da Escola 2, cita uma série de gêneros que trabalha com os alunos. (Além dos mencionados nos trechos acima, ela também cita a biografia e outros gêneros literários). Ao mesmo tempo, em mais de um momento, ela ressalta a importância de se trabalhar com a diversidade textual, que, a nosso ver, acaba sendo prioridade no trabalho de leitura.
Acreditamos que, pelo fato de as orientações nos PCN aparecem de forma pouco objetiva, é possível perceber diferentes maneiras de se trabalhar com os textos informativos nas salas de aula. Apesar de estar em outro contexto – no caso, o americano – Calkins (2001) cita um dos equívocos no uso desses textos que nos ajudam a compreender as dificuldades de se trabalhar com eles na sala de aula: “(...) Na maioria das leituras de textos de não ficção os alunos são convidados a fazê-las em lugar de outras leituras, ao invés de fazê-las em apoio a estudos aprofundados sobre um assunto37” (CALKINS, 2011, p. 438). De acordo com a autora, a leitura de textos informativos deve aparecer na sala de aula com o principal intuito de contribuir para a realização de outros estudos – aspecto também destacado nos PCN – mas, Calkins destaca que, para isso, é necessário que os alunos aprendam a ler esse tipo de texto antes de usá-los com essa função. Algumas orientações são apresentadas por ela, dentre as quais podemos citar: partir de textos que tratem de temas que sejam do interesse dos alunos, possibilitando trocas produtivas entre eles (CALKINS, 2001, p. 441); ler os textos em voz alta; e registrar elementos que mais chamaram a atenção dos alunos durante a leitura. Calkins ressalta que o trabalho com textos informativos pode ter a mesma estrutura do trabalho com textos narrativos (CALKINS, 2001, p. 446).
Considerando o que foi observado na sala de aula, pudemos perceber um uso utilitário para os textos informativos lidos pela professora da Escola 2. Entretanto, esse uso não estava relacionado à apropriação desses textos para entendimento e uso em outra situação, a serviço de algum trabalho ou qualquer outra proposta. Os textos selecionados pela professora eram lidos por ela e, ao final, fazia questionamentos acerca de alguma temática apresentada, mas com o intuito de trabalhar com conteúdos éticos e morais38. As orientações trazidas pelos PCN – ressaltando, mais uma vez, mesmo que muito breves – enfatizam o uso real desses
37 Tradução nossa. Grifos da autora.
textos, considerando que seu uso social é exatamente a serviço de outras situações. Entretanto, acreditamos que, ao realizar um trabalho com tal foco, a professora estava priorizando o contexto da escola, considerando como função principal a formação dos alunos “para a vida”. Dessa forma, não pensamos ser possível julgar e desconsiderar tal perspectiva. Acreditamos, acima de tudo, que tais situações nos permitem refletir a respeito do trabalho com esses textos na sala de aula.
Calkins (2001) destaca uma perspectiva mais ampla para o trabalho com esses textos, como a indicada por nós:
O leitor experiente de não ficção, então, não é a pessoa que passa pela vida como um scanner, retendo todos os textos, mas, em vez disso, a pessoa que pode olhar para esses textos, julgar as maneiras que eles ou partes deles podem contribuir melhor para uma aprendizagem construtiva da vida, e pode ajustar suas estratégias de leitura de acordo com o texto, o contexto, e o lugar desta leitura, dentro de um trabalho maior de leitor. (CALKINS, 2001, p. 439)39.