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A última etapa da oficina teve por principais objetivos fazer com que os alunos conhecessem e compreendessem o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros e percebessem a transgressão das leis estudadas em uma notícia do Cidade Alerta. A etapa estruturou-se em três grupos de atividades. No primeiro conjunto foi trabalhado o Código de Ética dos

110 Jornalistas Brasileiros. Já no segundo foi analisada, com base nas leis estudadas, uma notícia do telejornal. No terceiro bloco de exercícios, por sua vez, foi realizado um debate em que os estudantes elaboraram hipóteses que explicassem o elevado índice de audiência do referido telejornal e a razão dele não ser retirado do ar pelos órgãos governamentais já que desobedece às leis que regem o jornalismo e a televisão. Os aprendizes também propuseram medidas para melhorar a fiscalização da programação da TV.

A primeira atividade da etapa, como exposto anteriormente, ocupou-se do estudo do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Antes da leitura do documento, a professora perguntou aos alunos se existiam leis que regulamentavam o jornalismo e a conduta do jornalista no Brasil. Grande parte da turma afirmou que sim, entretanto todos os alunos que responderam à questão disseram não conhecer as leis. A docente, então, distribui para os estudantes o documento e os solicitou que fizessem uma leitura rápida, mais superficial de todas as páginas. Em seguida, ela dirigiu à classe algumas perguntas sobre aspectos mais gerais do texto – sua finalidade e estrutura, quais pontos do jornalismo ele regulamentava - que foram respondidas oralmente. A expectativa da professora era que os estudantes não apresentariam resistência para ler o documento apresentado visto que na primeira oficina do projeto (anexo D) foi estudado um texto semelhante, o Código de Ética da Radiodifusão Brasileira. Contudo, ao serem convidados a lerem silenciosamente o Capítulo II, Da conduta profissional do jornalista e o Capítulo III, da responsabilidade profissional do jornalista, eles mostraram-se desestimulados. As queixas da turma centravam-se na extensão dos capítulos e no vocabulário que não dominavam. A professora, para motivar os alunos para a leitura, propôs um acordo: leria com eles, oralmente, o capítulo II. O terceiro capítulo eles leriam em silencio e sozinhos. A maioria da turma concordou. Propor acordos com os estudantes para que os objetivos da atividade sejam cumpridos da melhor forma para todos também é uma estratégia de andaime para motivar os alunos a se engajarem no processo de ensino.

Após lerem o Código de Ética dos Jornalistas, deu-se início ao segundo conjunto de atividades da etapa. Foi exibida à turma uma notícia sobre uma suposta tentativa de assalto. Pelo depoimento da possível vítima dois jovens, menores de idade, tentaram roubar seu celular. Enquanto Marcelo Rezende relata a notícia, é exibida, diversas vezes, a filmagem dos dois adolescentes – que estavam de costas para câmera e encostados em uma parede - sendo espancados por homens que estavam no local do suposto assalto. O âncora, em sua apresentação da notícia, descreve, de forma zombeteira, as agressões sofridas pelos jovens – “esse de preto aí dá cada martelete” e “olha o outro vai dando de capacete” – ao mesmo

111 tempo em que convida o leitor a ver a cena – “Você vai vendo comigo” e “Olha, olha, olha”. Os populares que atacam os supostos assaltantes são comparados pelo apresentador às personalidades Anderson Silva e Minotauro - lutadores brasileiros de Mixed Martial Arts (MMA) – e ao super-herói Flash Gordon – que se tornou bastante popular no Brasil na década de 1980. A equipe de reportagem que está no local conta que “são vários chutes e socos” e que “os adolescentes chegam a gritar de dor”. O apresentador interrompe os repórteres e faz a seguinte intervenção “pra roubar eles não gritam”. Em seu relato inflamado, Marcelo Rezende chega a afirmar que os jovens tentaram matar a mulher: “Eles tentaram matar uma mulher, eles tentaram... no assalto”. Essa informação é desmentida pelo depoimento da suposta vítima e pelo relato do repórter que estava no local. A notícia é encerrada com equipe de reportagem informando que os adolescentes foram bastante agredidos e que, se não fosse por ela, os jovens seriam ainda mais espancados. A polícia, enfim, chega e o repórter desaprova a atitude da população na entrevista com um policial “Isso não deve acontecer, né? Tem que chamar a polícia e aguardar a chegada de vocês”.

Oliveira (2011), em seu estudo sobre o Cidade Alerta, diz que Marcelo Rezende age como se fosse um juiz, condenando os acusados antes mesmo que eles fossem julgados. Ademais, de acordo com o pesquisador, o âncora, ao propor sentenças para os acusados que não estão previstas no Código Penal Brasileiro, deixa de ser um mediador para tornar-se um contraventor. Na notícia analisada, observamos que Marcelo Rezende sentencia os acusados antes deles serem julgados. A notícia encerra-se com a chegada da polícia e não há registro do flagrante do assalto, dessa forma o “julgamento” do apresentador se dá com base em especulações.

Apesar de Marcelo Rezende não propor, no vídeo analisado, punições que não estão previstas em nossas leis, ele se torna um contraventor à medida que infringe as leis do Código de Ética da Radiodifusão Brasileira e Código de Ética do Jornalistas Brasileiros. O primeiro documento determina, no artigo 15 do Capítulo II Da programação, que em horário livre não podem ser exibidas cenas de violência explícita. O horário de exibição do Cidade Alerta, em Belo Horizonte, é de 17h30 às 18h15, logo o telejornal é transmitido em horário livre. A cena do espancamento dos jovens – notavelmente uma cena de violência explícita - é transmitida diversas vezes ao longo da notícia em horário livre. Já o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros prevê, no artigo 6, que é dever do jornalista ouvir o maior número de pessoas envolvidas no acontecimento, em especial, as que são objeto de acusações não comprovadas, além de ter que respeitar o direito à imagem, à intimidade, à privacidade e à honra do

112 indivíduo. Na referida notícia há apenas o depoimento da suposta vítima e de um popular que estava próximo ao local. A irmã dos adolescentes, que foi filmada pela equipe de reportagem e que também estava no local, não foi entrevistada. Nem os acusados foram. Não foi mencionado pelos repórteres que eles se recusaram a prestar informações. Logo, percebemos que o telejornal agiu de má-fé, condenado os adolescentes e instigando os telespectadores a condená-los também. Ademais percebemos que Marcelo Rezende não respeita a imagem e honra dos indivíduos uma vez que debocha da agressão sofrida por eles e os expõem, diversas vezes, enquanto são espancados. O artigo 7, por sua vez, proíbe o jornalista de estimular a violência, o crime, o arbítrio e a intolerância. O apresentador, ao zombar do linchamento e apoiar a atitude dos populares, além de banalizar a violência, está estimulando que a população civil aja à margem da lei e puna os acusados. Dessa forma, o apresentador estimula à barbárie, à violência e ao crime.

Antes de exibir à classe a notícia anteriormente analisada, a docente pediu aos alunos que tentassem perceber se nela havia transgressões das leis estudadas. Durante a exibição do vídeo, os alunos ficaram eufóricos. Risos e gargalhadas tomavam conta da sala. Falas como “Olha lá! Nossa!” e “Bem feito! Quem mandou roubar!” foram ditas por mais de um educando. Os alunos estavam completamente envolvidos com a narrativa de Marcelo Rezende - que mais parecia com a de um locutor de luta livre. Depois de apresentar o vídeo, a professora perguntou aos alunos se a notícia desobedeceu a alguma lei. Alguns alunos disseram “achar” que não, outros que sim, mas não sabiam apontar quais leis eram transgredidas. Um aluno disse: “Ninguém nem prestou atenção nisso”.

A professora, em seguida, perguntou aos estudantes por que eles riram tanto. Há registro das respostas: “foi engraçado os caras apanhando” e “o Marcelo é engraçado”. A mediadora dirigiu à turma uma nova questão: se achava certo os adolescentes apanharem. Um número significativo disse que sim. As justificativas usadas pelos que apoiavam a atitude dos agressores eram que “mereciam porque estavam roubando” e “a polícia não faz nada, as pessoas têm que fazer”. Novamente, a educadora vale-se um andaime para fazer com que s alunos percebessem que o apresentador condenou os adolescentes sem provas. Ela avisa à turma que irá exibir novamente a notícia e lembra da mentira contada por Marcelo Rezende na notícia anterior. Na sequência, desafia os educandos a descobrirem se Marcelo Rezende estaria “mentindo” novamente e às quais leis ele desobedeceu. A professora direciona mais a atividade: os alunos, agora, deveriam encontrar as leis. A postura da maioria dos estudantes mudou radicalmente na segunda apresentação do vídeo: eles ficaram sérios e em silêncio.

113 Depois da apresentação da notícia, a professora repetiu as perguntas. Os alunos não souberam indicar quais leis eram transgredidas, também não souberam dizer se Marcelo Rezende mentia ou não. Muitos começaram a pedir à professora que desse as respostas.

A docente, então, distribuiu as perguntas de compreensão do segundo grupo de atividades e disse aos estudantes que elas os ajudariam a chegar às respostas das questões anteriores. As perguntas tinham por objetivo conduzir a turma a perceber a condenação sem provas que Marcelo Rezende faz dos acusados, o desrespeito às leis, a banalização da violência, o estímulo à intolerância e a divergência de informações no relato do apresentador e do repórter. As atividades foram realizadas oralmente, porque os alunos queixaram-se da dinâmica das aulas que consistia sempre em responder por escrito a perguntas, após assistir aos vídeos. De uma forma geral, os alunos não apresentaram muitas dificuldades em responder às questões. O item D da terceira pergunta – “Podemos afirmar que há uma banalização do que acontece na cena? Por quê?” – foi o que mais gerou dúvidas, visto que a turma desconhecia o significado da palavra banalização. Na questão 6 “A equipe de reportagem afirmou que, se não fosse ela, os supostos assaltantes teriam sido agredidos por mais tempo. Levante hipóteses: por que, então, a equipe filmou por tanto tempo a agressão e não a impediram de imediato?” alguns alunos, novamente, recorreram à resposta-coringa “pra dar audiência”. A professora, então, ratifica e corrige os estudantes ao dizer-lhe que a emissora buscava por audiência ao mostrar o acontecimento, mas que essa não era uma resposta esperada por ela. Um dos estudantes reformulou seu pensamento inicial e disse que “eles não pararam a briga pra filmar e mostrar pras pessoas, pro telespectador”.

A maioria da turma conseguiu perceber que o julgamento feito por Marcelo Rezende era infundado, logo, novamente, ele transmitiu ao público informações inverídicas. Muitos estudantes conseguiram também perceber o desrespeito às leis na notícia analisada. Após o término das atividades, a professora perguntou à classe se se era correta a atitude da população de tomar o lugar do poder público e assumir a função de julgar e punir os acusados. Uma estudante se posicionou contra e disse que “a população pode estar errada, por isso tem que esperar a polícia”. Outro aluno disse que “as pessoas não têm o direito de sair batendo nos outros”. Os estudantes que se posicionaram a favor argumentaram que “a polícia não toma atitude, por isso as pessoas têm que tomar”. Um deles dirigiu a seguinte pergunta à professora: “se roubasse seu celular, você não ia gostar de ver eles apanhando?”. Os aprendizes que defenderam a conduta da população de castigar os acusados seguiram a mesma linha de raciocínio de Marcelo Rezende: o da vingança. A professora discutiu com os

114 alunos a diferença entre vingança e justiça e informou-lhes que exercer uma função que cabe ao poder público é crime previsto no Código Penal Brasileiro. Na sequência, perguntou aos aprendizes como se sentiria se visse alguém próximo a eles serem julgados e linchados por civis. A turma ficou calada. Um estudante ratificou a fala da mediadora: “É... ninguém ia gostar”.

No terceiro grupo de atividades que encerrou o estudo do Cidade Alerta, os alunos responderam às perguntas “Por que o Cidade Alerta possui uma audiência elevada? O que no telejornal desperta o interesse das pessoas?”, “Já que o governo é responsável por conceder os canais abertos às emissoras, por que, na opinião de vocês, ele não “corta” a concessão ao Canal responsável pelo programa Cidade Alerta?” e “O que pode ser feito para que haja uma melhor fiscalização dos programas?”. Para a primeira questão, foram anotadas, no diário de campo, as respostas “o apresentador é engraçado”, “filma notícias na hora que acontece” e “o povo gosta de ver sangue, gosta de tragédia”. Já para a segunda pergunta, os estudantes elaboraram hipóteses como “o programa dá audiência e muito dinheiro” e “as pessoas não denunciam o programa porque gostam dele”. Por fim, para a última pergunta, propuseram como medida a criação de um disque-denúncia exclusivo para a programação de TV.