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KAPITTEL 5 DIREKTE RÅDGJERDER: TERMISK UGRASTYNING

5.4 Forsøksresultat

Para Fred, estudante do 9º período de Direito, o primeiro ano na universidade foi muito difícil porque estava chegando do CE, não conhecia nada em João Pessoa e não tinha garantia de moradia.

[...] não tinha parente, não tinha nada, eu vinha por meio de indicação de amigos para ter o apoio de outros amigos desses amigos, aí acabava que quando eu cheguei aqui o primeiro ano foi o período mais difícil... cheguei aqui não ganhei residência [universitária]de imediato, tive que passar um mês de uma casa para outra, na verdade pedindo apoio, ajuda, até eu conseguir entrar na residência. [...] foi o ano da adaptação, foi o ano que eu tive que conseguir alguns ofícios para que eu me mantesse economicamente aqui ...

A minha família, na verdade não queria deixar que eu viesse para cá porque minha mãe, principalmente, tinha um medo terrível...[...] em razão de ser um Estado um pouco longe do Ceará. [...] E para ela isso era uma aventura um pouco complexa e acabou que muitos da minha família achavam que eu não ia conseguir, ia passar pouco tempo, uma semana, um mês, então foi assim, claro que eu tive apoio em termo de estudo, no fundo, ela queria que eu estudasse...

A situação de necessidade de moradia como condição para permanecer frequentando o ensino superior também se repetiu com ANA MARIA, 6º período, Ciências da Computação. Natural do estado de PE ela iniciou a graduação se deslocando todos os dias da sua cidade de origem para João Pessoa e esse percurso (em torno de 50 minutos cada viagem) tornou-se muito cansativo para ela.

[...] no primeiro período, eu vinha de van da cidade X-PE para João Pessoa- PB. Então era um aperto no orçamento para poder vir de van [...]. Aí foi também o que influenciou nas minhas reprovações, no primeiro período. [...]Aí a prefeitura disponibiliza um ônibus para trazer o pessoal da faculdade à noite. Então eu voltava para casa às 22h e meia. Mas para você acordar às 05:20, para chegar aqui logo cedo, passar o dia, voltar de noite e ... E voltar tudo no outro dia... Então era muito cansativa a rotina. Aí foi quando eu me candidatei... Eu fui saber do RU, para poder almoçar aqui. Aí eu acabei me inscrevendo na residência também [...] Aí acabou que eu fui selecionada também, então a partir do segundo período... Aí foi no segundo período que eu comecei a morar na residência. Acho que passei até uns 08 meses lá, aí depois troquei pelo auxílio moradia e fiquei morando com as amigas. Se não fosse eles (auxílio moradia e alimentação), eu não sei como eu ia estar continuando o curso, não. De verdade. Porque mainha é professora, então o orçamento dela não é excelente para estar mantendo um filho fora de casa. Fora que meu irmão agora também está vindo estudar aqui. Então se eu não estivesse com essa bolsa hoje... não tinha condição de continuar o curso, ou eu ou ele tinha que ficar em casa.

Quando não conseguem esse benefício estudantil os jovens de baixa renda são obrigados a recorrerem ao apoio de parentes para continuar estudando.

No caso de ISMAEL, estudante do 10º período de Engenharia Elétrica, ele recorreu ao apoio da casa da tia para continuar seus estudos. Porém, fica evidente no seu relato a necessidade de uma renda para se manter e não ficar dependendo dos outros, mesmo considerando a boa condição financeira da tia (irmã do seu padrasto).

É ... isso aí no começo foi problemático (situação financeira). Então, no 1º período eu pedia muita ajuda pra minha tia, “tia pague meus passes, pelo menos”. Porque eu não sabia do RU (Restaurante), ninguém me falou nada, então, eu perdi o RU no 1º período e ficava voltando pra almoçar em casa e ai aumentava o gasto com passagens e eu ficava pedindo ajuda pra minha tia. Já no 2º período, eu consegui a monitoria de Cálculo I e a bolsa era RS

180,00, aí pronto, salvou! Com essa bolsa de RS 180,00 eu podia pagar os passes e consegui o RU. Aí, tudo melhorou a partir do 2º período. Do 2º até o 9º período, eu sobrevivi aqui com bolsas ...

A situação de RITA, concluinte de Engenharia Civil e recém aprovada no mestrado não foi diferente. Natural do Rio de Janeiro precisou recorrer ao apoio dos tios para a questão da moradia. E devido à renda de 3 mil reais do tio (bancário aposentado) não conseguiu se cadastrar no Restaurante Universitário, pois a renda foi considerada alta pela UFPB.

Ainda bem que a gente tem a sorte de poder tirar xerox de livros, os professores utilizavam livros caros, nem todos os alunos tinham como comprar, então eles aceitavam que você utilizasse a xerox, isso é muito bom. Então, em questão financeira tem aquela coisa tipo, às vezes, não dá para poder almoçar aqui, aí tinha que ir em casa correndo, em questão de uma hora, comer e voltar porque almoçar aqui é caro, a não ser que você não comesse quase nada, aí passava o dia inteiro com fome. [...] Então a gente economizava aqui em uma xerox, economizava de comprar roupa, sapato, por exemplo.

Assim, eu tive dificuldade em relação à dinheiro claro, aí por isso que eu procurei monitoria, procurei PIBIC porque não é que faltasse, mas quer melhor sensação do que você estar gastando o que é seu [...]não ter que ficar pedindo dinheiro toda hora para tirar xerox, para colocar passe, para se alimentar...

Sem falar que o curso de graduação nessas áreas de ensino tem uma carga horária maior e portanto, requer do estudante mais tempo na universidade, gerando mais despesas com alimentação, por exemplo, além da exigência de aquisição de materiais específicos para o cumprimento das atividades acadêmicas, como: livros, computador, kit de instrumentos de trabalho pessoal etc, como relata ELVIRA estudante do 7º período de Odontologia:

[...] todo mundo me dizia que eu não ia conseguir cursar, todo mundo me dizia isso. [PORQUE?] Porque diziam que era um curso muito caro, me dá até vontade de chorar, porque eu tô assim no final, e eu vejo assim a realização...(choro) e assim, eu lembro que todo mundo dizia que eu não tinha dinheiro pra cursar, que gente pobre não fazia odontologia... pessoas da família, vizinhos... Até aqui na universidade, eu lembro com muita... no primeiro dia de aula, nos primeiros dias fui fazer o cadastramento do RU e a assistente social disse que eu não ia conseguir cursar porque o filho da outra assistente social, que tinha condições, passou um sufoco enorme, e eu... quando ela olhou pra minha renda, você minha filha jamais vai conseguir cursar esse curso, caríssimo...

[...] o curso, para quem não é da odontologia não tem noção do quanto é caro, é muito caro. O curso é muito exclusivista e muito caro. Lista de instrumentais chegam a custar 3 mil reais em algumas disciplinas, e a gente paga sete disciplinas no período. A universidade só fornece material de consumo, instrumental não. A partir do quarto período começamos a adquirir os instrumentais. O quinto período foi o mais pesado, só de instrumental foi quase 5 mil reais. Eu sempre vou procurar desconto ao máximo. O fato de

historicamente o curso ser de gente que tem poder aquisitivo grande, os professores não entendem o fato de um estudante não querer comprar alguma coisa. [...] a universidade eu acho muito carente para o curso de odontologia, eu nunca recebi nenhum auxilio, fora o RU (Restaurante), da universidade para compra de materiais e instrumentais. Até têm um programa, mas demora tanto a comprar que você perde o período letivo de prática, e o professora quer logo né.

Outro aspecto analisado, diz respeito às configurações familiares, no tocante às relações de interdependência com o desempenho escolar. Os sociólogos Lahire (1997) e Charlot (2009) são enfáticos ao afirmarem que para se compreender os resultados de desempenho escolar (“fracasso” ou “sucesso”) é preciso nos debruçarmo-nos sobre a “singularidade das histórias” dos estudantes e de suas “configurações familiares”.

O indivíduo alimenta-se do seu tecido familiar e não é por isso surpreendente que as exigências e os modelos da família contribuem fortemente para estruturar a relação dos indivíduos com o saber e a escola (CHARLOT, 2009, p.214).

Compreendendo que a “família e a escola podem ser consideradas como redes de interdependência estruturadas por formas de relações sociais específicas” (LAHIRE, 1997, p.19), optei por conhecer como se deu a construção das trajetórias escolares desses jovens na educação básica e quais dispositivos favoreceram o prolongamento dos estudos até o ensino superior.

O meu olhar se voltou para a história singular desses jovens com o propósito de verificar em que medida as práticas e as formas de relações sociais vivenciadas na família e nas instituições escolares influenciaram nas suas trajetórias de sucesso escolar no ensino superior.

No início da entrevista, solicitei que descrevesse como foi sua trajetória escolar desde que começou a estudar; como foi o acompanhamento da família na vida escolar; que dificuldades e facilidades teve no processo ensino aprendizagem; que aprendizagens lembra ter adquirido no ensino médio e como elas contribuíram para a inserção na universidade.

A primeira constatação foi a de que estes jovens tiveram percursos escolares lineares na educação básica, ou seja, não vivenciaram situações de fracasso escolar. Segunda, todos eles cursaram o ensino fundamental em escolas da rede privada e da rede pública. Essas mudanças de rede de ensino, segundo relato dos jovens, foi decorrente das oscilações nas condições econômicas de suas famílias pois, como lembra R. Hoggart, 1991 apud Lahire (1997, p.24):

Se quiserem sobreviver e não afundar, os pobres devem, como carga suplementar, irônica e perversa, gerir seu dinheiro, como os contadores o fariam. Não pode ser ultrapassado, afrouxado, relaxado, nem mesmo um pouquinho.

Assim, identificou-se que todos cursaram a pré-escola (antiga alfabetização) em escolas particulares (com exceção de FRED, que não frequentou a educação infantil e toda sua trajetória do ensino fundamental foi em escolas da rede pública), mas nos anos subsequentes do ensino fundamental seus percursos escolares variaram entre escolas da rede pública e privada.

De modo geral, essa situação revela o esforço das famílias em gerir “disposições econômicas” (LAHIRE, 1997) que assegurasse, desde cedo, a educação dos filhos. Pois, apesar da situação financeira pouco favorável dessas famílias percebe-se a preocupação em investir, na educação infantil – “transmissão da cultura legitima”, Bourdieu –, nem que para isso fosse necessário pagar escola particular, e com certeza essa decisão não foi por livre escolha, mas por não encontrar na rede pública a oferta dessa modalidade de ensino.

Com efeito, há que se considerar que, no Brasil, as políticas voltadas para a educação infantil sempre foram muito frágeis, tendo apenas começado a se tornarem mais efetivas com o advento do FUNDEB – o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização do Magistério –, em 2008. Até então, a maioria das famílias deveria acudir ao sistema privado de ensino para a oferta da educação infantil.