Embora no interior da classe média ainda existam indivíduos que façam distinções entre “ricos” e “novos ricos”, tendo como um parâmetro hierárquico daquilo que é ou deixa de ser nobre e honroso, o capital cultural, educacional e os gostos, estas máscaras distintivas não são capazes de suplantar o fato de que o consumo está ocorrendo. Isto era, como foi explicitado anteriormente, algo intenso entre a velha classe média brasileira, em crise após os distúrbios econômicos em nível nacional e mundial entre os anos 1980 e 1990, e a nova classe média em ascensão, mais atinada a consumir aquilo que é efêmero. Independente de se adquirir produtos eletrônicos, objetos de arte, sensações, educação, viagens, imagens ou qualquer outra coisa, o consumo está presente. Fica nítida a constatação de que a cultura dominante está sendo legitimada, também como a reprodução das relações classistas. No âmbito religioso da CG ao se reforçar que Deus está preocupado em acabar com as necessidades dos indivíduos crentes, devem-se entender tais carências em consonância com uma forma de ser classe média na contemporaneidade. A educação ou o consumo desta última, como um dos elementos que distinguia simbolicamente (Bourdieu: 1984, 253) dois grupos dentro de uma mesma classe, na religião estudada é entendida de outra maneira.
Não se nota no argumento educacional da CG a separação moral entre consumistas de “bens intelectuais” e consumistas de “bens fúteis”. Como exemplo, nesta igreja a busca pela capacitação acadêmica é um dever de todo fiel que anela glorificar a Deus com o seu ato e, conseqüentemente, propiciar melhorias econômicas para a sua família e a sua comunidade religiosa. Assim, ao investir em sua formação intelectual o crente terá melhores condições de administrar sua vida com eficiência e “colher as bênçãos de Deus”. Nesta instituição religiosa, desde quando se iniciou esta pesquisa, o mês de janeiro é oportuno para que os seus integrantes reavaliem suas
atitudes anteriores, valores, objetivos e metas para o ano que se inicia. De tal forma, para facilitar esta tarefa eles recebem uma pequena cartilha intitulada Projeto de Vida que deverá ser lida e preenchida pelos membros solteiros e casados. Cada livreto traz temas específicos e um deles traz como subtítulo “Eu e meu trabalho/escola”. Os deveres ressaltados aos fiéis são os seguintes:
Buscar promessas de Deus para ao meu trabalho/escola; tempo específico de oração pelo trabalho/escola; atitudes que vou tomar em relação ao meu chefe; atitudes que vou tomar em relação aos meus parceiros; atitudes que vou tomar em relação aos meus empregados; atitudes que vou tomar em relação aos meus professores; atitudes que vou tomar em relação aos amigos da escola; o que devo fazer para melhor na empresa; em que matérias preciso melhorar e o que devo fazer; que pessoas podem me orientar no trabalho/na escola; e que cursos complementares posso fazer.110
Em cada um destes itens o crente deve especificar o que fará, quais as datas de todas as atividades, quem são as pessoas envolvidas, quais erros foram cometidos, quais as ações para melhorar e quais são as observações. Neste mês de janeiro, embora os GCEMs entrem em férias, os seus dirigentes e os pastores da igreja se disponibilizam a ajudar a cada um fazer o seu projeto, a orar pelos fiéis e em um culto específico a ungirem com óleo as pessoas e seus Projetos. E após o reinicio das atividades nos GCEMs os crentes são incitados nos encontros a compartilharem com os demais participantes do grupo os seus êxitos e a maneira utilizada para alcançá-los, a exporem suas dificuldades e receberem sugestões das pessoas, também como apresentarem suas derrotas para que haja uma interação a fim de que o quadro negativo seja mudado.
Busca-se, então, insuflar os fiéis a tomarem um contato racional com suas debilidades profissionais e acadêmicas a fim de que posteriormente façam o investimento em educação e atitudes que lhes renderá os benefícios espirituais e materiais galgados. Embora amenizado no grupo religioso pelo discurso de que alguns enriquecem mais que outros por vontade divina e que os possuidores de maiores recursos devem ajudar os de nenhum ou pouco, o status econômico e social é interpretado em termos de “bênçãos financeiras alcançadas”. Quanto mais o crente se
aplica em agir segundo as doutrinas religiosas e exercer uma gestão financeira eficaz, mais sucesso ele obterá.
A fim de contribuir com a compreensão do ideário da CG sobre classe e dinheiro, vale lembrar Bourdieu, quem ao estudar as diferenciações entre classes operárias e burguesas, assevera (1984) que há pessoas que passaram um determinado período de “aburguesamento” e isso lhes forneceu a possibilidade de aquisição de valores e gostos de classe média, todavia por algum motivo econômico qualquer elas não têm mais perspectivas de ascensão social e de consumo requintado como outrora, nestas condições elas procuram formas de resignificação do modo como se vive pontuando suas diferenças em relação a outros grupos ao ressaltar, como exemplo, a educação e cultura adquiridas. Para Paugam (2003), estes indivíduos vivenciam um misto de angústia, dificuldades financeiras e humilhação. Se por um lado elas não querem ser amparadas, por outro elas nutrem um sentimento de fracasso pessoal que lhes dá a sensação de que os demais indivíduos olham para elas como se fossem seres inferiores. Nota-se, então, que a identidade negativa incitada pela má situação é integrada progressivamente na consciência social. A interiorização mencionada, também abarca os sentimentos de inferiorização, desqualificação, e vergonha pela degradação do espaço de moradia. Compartilha-se a humilhação por depender de alguém, a provação, a consciência gradativa de que não vão ascender a um status social superior e a angústia nas salas de espera por terem que recorrer ao sistema de assistência social do governo.
Os estudos de Bourdieu e Paugam se dão a partir de uma realidade francesa, contudo são profícuas e importantes as contribuições para o entendimento do processo de empobrecimento, a relação com o dinheiro, as distinções classistas e os comportamentos defensivos que permitem aos indivíduos inverterem simbolicamente a condição social pela qual passam. Na CG a ênfase ideológica de que Deus supre as necessidades dos/as crentes acrescida da honra social de quem se esforça por ser um cristão honesto se mostra como um alento aos fiéis da igreja que no contato com o ideário classista religioso via testemunhos e sermões nos cultos notam-se, até então, distantes de alcançarem estes padrões impostos pela instituição. Por outro lado, não é preciso lamentar a dificuldade em crescer socialmente, pois Deus, embora tenha a
atitude convencional de prover o básico aos crentes, Ele possibilita o enriquecimento de alguns por razões desconhecidas dos seres humanos.