INTUIÇÕES
A primeira oficina foi muito interessante, mas percebo que essa trouxe mais emoção às vivências propostas.
Na primeira parte, na exposição da dinâmica da espiral, ouve como disse anteriormente bastante atenção e um debate que levou boa parte da oficina. Considero fator positivo, porque a proposta está sendo compreendida e validada pelos educadores.
Com as informações sobre o espectro total, cada participante escolheu um espaço e procurou, na sua maioria, construir o seu, refletindo sobre a sua vida e como estão cada uma das dimensões: social, cultural, psicológica, biológica e cognitiva. Nesse momento, aqueles que estão mais receptivos às oficinas, pareciam mergulhar em seus pensamentos, procurando ver como estava cada uma das dimensões constitutivas do seu eu. Logo a seguir, no relato, surpreendi-me com as informações que escolheram socializar, algumas eram muito intimas. Claro que ao viver em grupo, nos inteiramos da vida do outro, mas são esses momentos que revelam uma essência mais profunda e particular.
Conforme a partilha ia acontecendo, e os espectros iam ocupando os espaços laterais do grande cartaz, alguns se sentiam bem entre todos, outros pareciam expressar um sentimento de desconforto e outros ainda não evidenciavam nenhuma reação que nos dissessem o que estariam pensando. Perceptível era notar que havia um desejo por um autoconhecimento maior e que ai poderia ser o inicio para esse processo acontecer.
Torna-se evidente também por outro lado que alguns educadores, embora estejam participando da proposta das oficinas, não estão suficientemente vinculados a mesma e, neste momento, demonstram pouco interesse pelo seu autoconhecimento.
Compreendo que o tempo das pessoas é diverso, mas vejo que a proposta poderia ter sido oferecida somente para aqueles que assim estivessem realmente interessados em participar, todavia sendo um horário destinado à reunião, uma pequena parcela, não compreendeu os objetivos expostos e prejudica o desenvolver das dinâmicas.
A outra etapa, que foi a dinâmica dos olhos cobertos, emocionou-me, pois procurando manter todos a salvos das arquibancadas, para que não se machucassem, notei que os educadores mais velhos tinham muito receio de se locomover pelo ambiente, arrastavam os pés, para saber onde estavam e permaneciam longo período quase que no mesmo lugar. Parece que a música não fazia o efeito de fazê-los deslizarem pelo ginásio. Quando então, comecei a inserir as pequenas reflexões, os corpos começaram a se movimentar mais rapidamente, parecia uma resposta ao que tinham que pensar. Havia reafirmado a não expressão verbal, para que a dinâmica pudesse atingir os lugares mais preservados de sua consciência. Acredito que no decorrer dos comandos, muitos tinham a vontade de falar ou até manifestar-se sobre cada uma das frases, mas a combinação não era esta. Procurava dar a eles um tempo significativo para que pudessem revolver suas memórias. O objetivo era que, mesmo que imaginariamente, pudessem ir construindo uma linha do tempo, tomando contato com os principais momentos de suas vidas e a memória afetiva que deles se associava.
Ao informar que seria a última viagem, alguns pareceram relaxar o corpo. Voltar a fase inicial, de bebê, não era equivocada, mas fazê-los tomar contato com algumas emoções primárias que o inconsciente guarda e lá no espaço subjetivo armazena.
Dando continuidade, após acostumar-se com a claridade, pedi então que fizessem os seus relatos por escrito. Percebi que alguns ficavam olhando para a folha e nada nela, outros tinham muito que escrever. Respeitei esse momento particular.
Quando se uniram em pequenos grupos ( quatro pessoas em cada grupo ), relataram sobre a vivência, do que foi marcante, do que não foi bom e se de fato conseguiram recordar cada uma das etapas mencionadas. Novamente destacaram-se aqueles grupos, nos quais os participantes viveram intensamente o momento e tinham o que partilhar. Não interferi diretamente nos pequenos grupos, deixei-os livre pelo tempo que havia estipulado ( vinte minutos ), para depois, então, convidá-los a partilhar no grande grupo. As falas encontram-se no quadro anterior. A riqueza e a intimidade das informações denotam a confiança no grupo. Esse aspecto é relevante, pois quanto mais a vontade as pessoas estão, maior é a possibilidade de abandonarem-se em sua história de vida e deixarem a dimensão subjetiva falar.
Para encerrar, tomamos a dinâmica das preciosidades que revelam o ser no mundo, com a caixa dos objetos. Esse momento foi também bastante interativo e significativo. Cada educador foi partilhando com o outro os objetos da caixa, sendo que havia também combinado que eles só seriam revelados no momento da oficina. É interessante perceber a história que cada objeto tem na vida das pessoas e porque elas os guardam por tanto tempo. Talvez, a própria explicação não seja suficiente para justificar guardar algumas
coisas por tanto tempo, mas no intimo de cada um, essa relação pode ser o elo com a dimensão objetiva/ subjetiva. Um a um dos educadores, foram desvelando o seu pequeno universo, nas preciosidades que portavam em suas caixas.
Admirei-me mais na segunda etapa, pois ao escolher um dos objetos para estarem em uma caixa maior que já havia sido preparada, eles relutaram em escolher um, pois todos eram importantes, mas como tínhamos um número elevado de participantes, não havia como deixar os objetos de todos.
Cada manuseio, tentativa de descobrir o seu objeto ( de tanta importância ), parecia que era uma última tarefa, se não conseguissem, seriam derrotados. Alguns se sentiram assim mesmo, pois estiveram muito distante dos objetos que haviam trazido e escolhido como o mais representativo. Ao final, quando todos estavam com um objeto, retirando a faixa dos olhos, a reação era de vergonha, de espanto, alegria e outros de conquista, por terem reconhecido aquilo que era precioso em sua vida.
TECENDO E UNINDO AS INTUIÇÕES
Procurando tecer e unir as percepções desta espiral, percebo que alguns educadores e provavelmente as pessoas, normalmente sentem-se inibidos em expressar ou partilhar o que se esconde em seu interior. As dinâmicas auxiliam, para que fazendo um retorno ao seu universo sagrado, consigam compreender e perceber o que foi deixando para trás em suas trajetórias existenciais.
Algumas marcas são profundas e pelas circunstâncias do cotidiano acabam por serem bem escondidas. Para revelar a inteireza do educador, é necessário fazer esse movimento da espiral, ir do exterior ao interior
e lá identificar as dimensões evolutivas que ainda não propiciam um equilíbrio entre elas, para dar o sentido e o significado da inteireza da pessoa.
Quando educadores desvestem-se dos seus aventais e deixam as barras de giz e procuram responder primeiro as suas questões, há fortemente uma tendência, desse movimento acontecer em sala de aula posteriormente. Percebemos que exigimos do aluno, atenção, concentração e interesse para as nossas aulas, mas não nos permitimos olhar além.
O aluno é um ser humano, com marcas, imagens, sensações, frustrações e um interior cheio de histórias. Nós, não contentes de exigir o que eles não podem nos dar, ainda os rotulamos, muitas vezes, de maus alunos. Por isso, a necessidade de uma compreensão primeira de quem de fato é o ser humano, quem somos nós, na pessoa dos educadores, para depois então, conseguirmos trabalhar também a pessoa do aluno.
Os seres humanos possuem uma ligação muito tênue entre a realidade e a sua subjetividade. A sociedade atual preconiza tanto status, que impede que o ser seja ele. A regra é reproduzir para ter. Nós, em nossa pesquisa, estamos procurando tornar claro, que estamos no caminho inverso, queremos ser para nos tornarmos melhores e co-partícipes de uma cultura que permita esse ser, revelar-se na sua inteireza. A inteireza que postulamos, refere-se ao modo singular que cada um irá viver, mas indiscutivelmente, respeitando o outro e deixando que ele seja e expresse o seu “eu”. Só assim conseguiremos pensar uma sociedade planetária que tenha uma sustentabilidade, a partir da ampliação dos níveis de consciência do humano, a qual poderá vir a respeitar toda e qualquer forma de vida e não compactuar das ações que descartem a vida humana.
A originalidade do ser humano e, consequentemente do educador, passa por esse movimento, de dar-se conta quem ele é nesta história da humanidade e como poderá, compreendendo seu universo subjetivo, expressar um compromisso com a preservação do planeta e da própria condição humana. Sem esse movimento da espiral da subjetividade, há um grande risco, de continuarmos não nos percebendo humanos e dissociados de uma reverência à vida que ainda mantém a nossa espécie.
6.4.3 - ESPIRAIS DA INTERAÇÃO - ABRINDO AS JANELAS PARA IR AO