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É sucedâneo da quina, Pois de febres é meizinha, Como salsa, cura sífilis A dermatose daninha.

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(Parreira Brava. In: GALENO, Juvenal. Medicina Caseira)

Embora o fragmento do poema a cima esteja se referindo à Parreira Brava, também conhecida como Abutua butua, planta trepadeira do Brasil, que, segundo Napoleão Chernoviz, no seu Dicionario de Medicina Popular, foi levada do Brasil para a Europa em 1688, tendo sido empregada pelos médicos como diurética, nas hidropisias. O verso fala da importância da quina para a cura de febres. Por ser um vegetal muito usado e conhecido, resolvemos refletir um pouco sobre sua vulgarização.

A quina, através do seu princípio ativo quinino, apresenta propriedades tônicas e febrífugas, que se fazem importantes para o combate às febres. Oriunda da América do Sul, a planta apresenta três tipos medicinais: a quina vermelha, a cinzenta e a amarela, as quais, segundo Chernoviz, apresentam-se como as de uso mais corrente pela medicina, dentre as vinte e cinco espécies existentes aproximadamente.

O primeiro registro escrito do uso da quina ocorreu em um livro religioso escrito em 1636, e publicado na Espanha em 1639. O autor, um monge agostiniano de nome Calancha, de Lima, Peru, escreveu: “Na aldeia de Loxa cresce uma árvore a que chamam ‘árvore da febre’ cuja casca, da côr da canela, pulverizada em quantidade equivalente ao pêso de duas pequenas moedas de prata, e dada com bebida, cura as febres terçãs.”162

Muitas são as versões para a descoberta da cortiça da febre. Uma versão popular e que dura muito tempo é a que a condessa Anna del Chinchón, em 1638, esposa do vice-rei do Peru, utilizou a cortiça e sua cura milagrosa resultou na introdução da quina na Espanha em 1639 para o tratamento da malária. Não existe comprovação que tal história tenha realmente acontecido, mas, ainda assim, a mistura foi chamada por muitos anos como Los polvos de la Condessa. Contudo, o vice-rei levou um grande carregamento para a Espanha e em 1640, a droga estava sendo empregada em toda a Europa. Somente em 1643, é que seu

94 uso foi registrado na literatura médica européia por um belga chamado Herman van der Heyden.

Outros que também se serviram da quina e seu uso medicamentoso foram os padres jesuítas que importavam e distribuíam a quina pela Europa, fazendo com que a droga se chamasse “cortiça de jesuíta”. Os grupos médicos conservadores olhavam com desdém o novo antiterapêutico, por não estar de acordo com o ensinamento de Cláudio Galeno, o que fez com que a droga fosse aviada por muitos anos pelos “charlatões” e sob a forma de remédios secretos.

O reconhecimento oficial da quina só aconteceu em 1677, quando foi incluída numa edição da London Pharmacopoeia como ‘Cortex Peruanus’.163 A quina ficou conhecida por suas propriedades febrífugas. Conta a lenda que um índio ardendo em febre e atormentado pela sede, bebeu da água de um lago em que haviam mergulhados alguns ramos de quina e ficou curado. Outros afirmam que um índio curou um espanhol com o pó feito da casca da quina.164 Entretanto, não se sabe ao certo se os índios tinham conhecimento e estavam familiarizados com as propriedades medicinais da quina. Somente em 1820, dois séculos depois segundo as referências das descobertas “ao acaso” da quina, é que Pelletier e Canventou isolaram a quina e a chichonia da quiina, o que fez com que seu uso se propagasse rapidamente.

No Ceará, o doutor José Maria Teixeira, em seu Relatório de Saúde sobre a cidade do Aracaty em 1879,165 registra a utilização da quina, juntamente com eucalyptos globulares, para a cura das febres intermittentes, também conhecidas como sezões ou maleitas.

Esse tipo de febre é conhecido como intermittente porque “(...) ela aparece e desapparece successivamente, por intervallos mais ou menos longos, durante

162 CHERNOVIZ, Pedro Napoleão. Dicionário de Medicina Popular e das Sciencias Accessorias. op. cit. p. 819.

163 VER: ROLLO, M.. Medicamentos Usados na Quimioterapia da Malária. In: GOODMAN, Louis S.

e GILMAN, Alfred (orgs). As Bases Farmacologicas da Terapêutica. op. cit.

164 VER: REDONDO, Garcia e THEÓPHILO, Rodolpho. Botânica Elementar. Fortaleza:

Fundação Waldemar Alcântara, 1997.

165 Relatório de Saude Publica da cidade de Aracaty feito pelo dr. José Maria Teixeira para o

95 os quaes não existe vestígio algum de movimento febril”.166 Os seus acessos variavam fazendo com que fossem atribuídos outros nomes para a mesma enfermidade:

Quando o accesso se repete todos os dias e á mesma hora, cham-se febre quotidiana; se de dois dias, terçã; se de tres dias, quartã. Apparecendo a febre duas vezes em vinte e quatro horas, chama-se

quotidiana dupla. Estes typos são os mais frequentes; há ainda, mas são

mui raros.167

As febres, independente de sua denominação, representavam ser uma grande preocupação no Ceará durante a segunda metade do século XIX. Por várias vezes a indicação de sua ocorrência e os pedidos de socorros aos enfermos compuseram as páginas de ofícios destinados ao Presidente da Província do Ceará.

Em minha communicação anterior, pude annunciar (...) a declinação do mal, que há meses, flagella esta cidade e seu municipio; mas parece que, de então para cá, o estado sanitário tem feiosado. Os casos de febres catarrhaes, aliás muito frequentês na passagem da estação invernosa para a secca, vieram complicar-se com as intermittentes simples e perniciosas, tomando estes de máo caracter e as veses com resultado fatal.168

As demonstrações, descrições, do sofrimento do povo e a referência a quais pessoas eram atingidas, principalmente, vinham de várias localidades:

Tenho a honra de communicar a V. Ex.cia que as febres intermittentes desenvolverão-se com maxima intensidade n’sta parochia, acommettendo de preferencia as classes indigentes, que, carecendo de remedios, deixão-se assoberbar pelo mal. A vista d’ste estado lastimoso tomo a liberdade de lembrar a V. Ex.cia a necessidade de enviar uma ambulancia de medicamentos para distribuir se aos doentes pobres que tudo esperão do paternal governo de V. Ex.cia169

166 CHERNOVIZ, Pedro Napoleão. Dicionario de Medicina Popular e das Sciencias Accessorias. op. cit. p. 1093.

167 Id. Ibidem. p. 1093.

168 Ofício expedido pelo Juiz de Direito Vicente Alves de Paula Pessôa ao Presidente da Província

96 Assim, o que tudo indica, pela informação do ofício, é a presença das enfermidades nas classes mais desprovidas de recursos econômicos e a ausência de socorros públicos, que geralmente só vinham em períodos de grandes epidemias e após várias solicitações de ajuda.

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