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Dando um passo adiante em nosso estudo de Mateus, faremos uma leitura mais atenta dos três versículos que nos interessam. Vamos lê-los segundo nossa própria tradução, e esta aproximação nos colocará diante de novos detalhes:

(2) Então, sempre que fazes esmola não toqueis trombeta diante de ti, como

fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para que sejam glorificados pelos homens. Verdadeiramente vos digo: eles recebem a recompensa deles.

81 direita, (4) para que seja a tua esmola em secreto, e o teu pai que vê em

secreto te recompensará.50

No texto, Jesus quer que seus discípulos se diferenciem dos hipócritas. Simultaneamente, queria o narrador que seu destinatário aprendesse com isso. Provavelmente tratava-se da criação de distinções comportamentais entre grupos sociais que rivalizam, da criação de fronteiras que permitiam identificar quem estava entre os justos e quem estava entre os hipócritas. Nesse caso específico, tal diferenciação deveria se manifestar quando o discípulo fosse praticar atos de justiça por meio da esmola. A esmola é, em si, uma ação esperada, considerada necessária, recorrente se possível, mas cujo tempo exato da execução, sua frequência ou mesmo os valores oferecidos não são especificados no texto. Como vimos no item anterior, a esmola não é o tema central da discussão, mas apenas um valor intermediário para a obtenção do valor final, que é a recompensa (humana ou divina). A obrigatoriedade da esmola está pressuposta, a adesão àquela cultura religiosa já havia se encarregado de convencer os religiosos dessa obrigação. A esmola é, então, apenas um exemplo de como aplicar de maneira prática aquele princípio geral da boa obra secreta.

Em termos formais, a instrução sobre a esmola se apresenta a partir de oposições, e essas oposições são criadas para afastar os grupos antagônicos, rotulando-os elogiosa ou pejorativamente. O texto nega a prática caritativa dos hipócritas e explica qual o modo correto de agir, que é exatamente o oposto do modo apresentado como próprio dos hipócritas. Há, portanto, duas formas de apresentar o mesmo imperativo, uma negativa do tipo não faça..., e outra positiva do tipo mas faça....51 A oposição segue distinguindo o nós do eles ao comparar as ações exibicionistas de um com as ações discretas idealizadas para o outro. Então, encontraremos as recompensas que são devidas a cada um dos grupos, que também se opõem e podem ser caracterizadas como positivas (recompensas de Deus) e negativas (recompensas terrenas). Vejamos como são colocadas essas oposições num quadro didático, já destacando que o tema mais relevante é a “recompensa” e as duas possíveis formas de buscá-la:

50 Texto grego: (2) {Otan ou=n poih/|j evlehmosu,nhn( mh. salpi,sh|j e;mprosqe,n

sou( w[sper oi` u`pokritai. poiou/sin evn tai/j sunagwgai/j kai. evn tai/j r`u,maij( o[pwj doxasqw/sin u`po. tw/n avnqrw,pwn\ avmh.n le,gw u`mi/n(

avpe,cousin to.n misqo.n auvtw/nÅ (3) sou/ de. poiou/ntoj evlehmosu,nhn mh.

gnw,tw h` avristera, sou ti, poiei/ h` dexia, sou( (4) o[pwj h=| sou h`

evlehmosu,nh evn tw/| kruptw/|\ kai. o` path,r sou o` ble,pwn evn tw/| kruptw/| avpodw,sei soiÅ

51 Quando nos referimos aos imperativos do texto falamos da função que as expressões exercem como ordem ou

pedido, mas estamos conscientes de que o texto grego apresenta tais ordens usando o verbo fazer (poie,w) no presente subjuntivo (que fazes) e no particípio presente (fazendo).

RECOMPENSAS TERRENAS RECOMPENSAS CELESTIAIS Imperativo Negativo: Sempre que fazes esmola

[...] não (façam) como os hipócritas...

Imperativo Positivo: Mas tu, fazendo esmola...

Exibicionismo dos hipócritas: não toqueis trombeta diante de ti [...] nas sinagogas e nas ruas

Discrição dos justos: não conheça a tua esquerda o que faz a tua direita Sentença: eles recebem a recompensa deles (dos

homens)

Sentença: teu pai (Deus) que vê em secreto te recompensará

Se olharmos para o quadro comparativo dando atenção às suas três linhas de forma independente, temos na primeira os dois grupos que estão sendo colocados em oposição (tu/vós vs. hipócritas). Não há espaço para dúvidas em relação a qual dos dois grupos o texto rejeita ou constrói como anti-sujeitos; o uso do adjetivo “hipócritas” como enunciado de estado já é suficiente para isso. O termo hipócrita, de origem teatral, foi transferido ao âmbito da ética e ganhou uma conotação extremamente negativa (Luz, 1993, p. 452). Os adversários de Mateus são descritos como pessoas que fazem boas obras para se exibir diante dos outros e, portanto, suas esmolas não são sinceras atitudes de compaixão para com o pobre, mas atos de hipocrisia, de fingimento. Isso, na leitura mateana, os aproxima dos atos teatrais em que atores fingem ser outras pessoas para conseguir aplausos (Coenen, 1993, p. 68-70), ou como já dissemos, eles são mentirosos, pessoas que parecem, mas não são.

A segunda linha oferece mais informações sobre aquela hipocrisia ao descrever em tons irônicos e metafóricos as ações dos dois grupos. Os hipócritas praticam boas obras diante dos homens, querem fazer sua caridade conhecida, as anunciam nas sinagogas e nas ruas; metaforicamente, tocam trombetas para chamar a atenção às suas caridades. Aí está a lógica da reciprocidade sendo colocada como a finalidade dos atos de caridade pretensamente religiosos dos hipócritas. Agindo dessa maneira eles usufruem da automática retribuição da sociedade. O texto propõe outro modo de agir aos seus destinatários, os instrui a oferecer as esmolas secretamente, fazendo-o pelo emprego de um provável provérbio que diz: “não conheça a tua esquerda o que faz a tua direita”.

Segundo o comentarista Hans Dieter Betz, este provérbio do versículo 3 não encontra reais paralelos na literatura bíblica ou judaica, nem na literatura Greco-romana

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contemporânea, o que dificulta qualquer consideração que se queira fazer sobre essa aparente

frase feita. Mas Betz faz uma sugestão interpretativa interessante aos nossos propósitos,

dizendo que este provérbio mateano, fosse ele popular ou não, deve ser entendido em oposição a outro famoso provérbio latino que afirmava a cultura da retribuição dizendo: “uma mão lava a outra” (Manus manum lavat) (1995, p. 358-359).52 Em nossa leitura, a justificativa para essa instrução está na rejeição à prática religiosa com vistas à retribuição humana, que no modo mateano de ver, é uma infidelidade em relação ao contrato já estabelecido entre eles e Deus.

Por outro lado, a esmola feita secretamente não poderá ser retribuída na terra, resultaria numa natural disjunção com os valores econômicos oferecidos na esmola, mas seria recompensada por se tratar do preciso cumprimento do contrato entre Deus e os homens. Na terceira linha do nosso quadro comparativo vemos que ambos os padrões comportamentais implicam em alguma forma de retribuição. Em Mateus, em vez de verdadeira solidariedade o que se idealiza é uma relação clientelista exclusivamente com Deus. Mesmo quando homem nenhum sabe que o discípulo de Jesus faz caridade, Deus sabe, pois vê em secreto, e faz valer a expectativa humana pela retribuição recompensando o ato de fazer esmola. Novamente, a esmola, embora seja incentivada, não é o objetivo final, nem se explica como ação compassiva de alívio da pobreza alheia, ela é apenas um meio de se conseguir uma recompensa.

Assim, insistiremos afirmando que a lógica por trás da ética mateana continua sendo baseada na reciprocidade. Porém, convém atentar para o fato de que na ideologia mateana quem é religioso e se diz guiado por imperativos divinos deve buscar exclusivamente recompensas advindas da divindade. Se Deus é o patrono dessa relação, tais ofertas precisam ser dirigidas exclusivamente a ele; mas a prática dos hipócritas, supomos, consiste em se considerar clientes de Deus e prestar favores a outros homens visando suas retribuições. Mas para o Evangelho de Mateus esses hipócritas religiosos estariam negando com suas práticas o seu discurso, estariam buscando recompensas humanas, tesouros terrenos, enquanto que somente as recompensas celestiais tinham valor verdadeiro (Mt 6.19-21). Em resumo, nessas

52 Mesmo não dando grande importância, Betz menciona estudiosos que acreditam existir paralelos literários a

esse provérbio mateano em texto de tradição mandeísta (1995, p. 358-359). Contudo, ainda que não se possa afirmar que o autor de Mateus tenha se apropriado de um provérbio popular, parece que seu discurso fez adeptos; se voltamos a atenção àqueles textos extracanônicos já discutidos que podem possuir relações estreitas com a tradição mateana, podemos ler o mesmo provérbio no Evangelho de Tomé 62 e ainda encontrar instruções anti- retributivas similares na Didaché 1.5, que começa dizendo: Dê a quem lhe pede e não peças de volta, pois o Pai

passagens a lógica da reciprocidade regula o relacionamento entre os hipócritas e a sociedade, enquanto que se deveria ter Deus como único e soberano patrono. Quando passa à descrição dos relacionamentos humanos ideais o autor de Mateus estimula a caridade, mas pede segredo na realização das boas obras; ele oculta aos olhos humanos os interesses pessoais dos seguidores, que assim abrem mão das possíveis recompensas terrenas. Mas a boa ação praticada é sempre digna de recompensa, e nesse caso, a retribuição só poderia ser praticada por Deus. Não se tratava apenas de buscar a pobreza, mas de rejeitar o vínculo clientelista entre humanos que mesmo a esmola podia criar, e de buscar um relacionamento religioso aplicável à vida de maneira mais ampla.

O comentarista Dale C. Allison Jr. tem razão quando observa que as instruções de Mateus 6.1-18 possuem paralelos próximos em 23.1-12 (1999, p. 108). Em Mateus 23.5a temos, com outras palavras, a mesma crítica contra os hipócritas: “E todas as suas obras fazem para serem vistos pelos homens”. Porém, o evangelho é mais detalhista aí do que no capítulo 6 em relação às recompensas que os tais hipócritas recebem quando chamam a atenção para suas supostas boas obras. Eles procuram honra, o prestígio social acessível aos clientes que junto a ricos patronos se assentam nos melhores lugares nos banquetes (v. 6); querem ser saudados nas praças públicas e querem ser conhecidos como “rabis” (v. 7). Ao que nos parece, os hipócritas estavam, segundo a leitura que o evangelho faz deles, se associando a ricos patronos gentios, assumindo o papel de clientes e até desejando eles mesmos adquirir tais prestígios sociais; estavam frequentando os banquetes hierarquizados e cheios de extravagâncias e até ansiavam ser comparados aos mestres gentios, que davam demonstrações públicas de suas habilidades retóricas e de cultura literária. Diríamos que esses escribas e fariseus estavam assimilando a cultura Greco-romana em seu judaísmo urbano e nas suas sinagogas, estavam se envolvendo nas redes patronais, buscando proteção e prestígio como geralmente faziam os membros da chamada plebe urbana. Porém, para o Evangelho de Mateus isso não era uma atitude conveniente aos discípulos de Jesus, pelo que os instrui dizendo:

(8) Mas vós não sereis chamados rabis, pois um (só) é vosso senhor, e todos

vós sois irmãos. (9) E pai não chameis sobre a terra, pois um (só) é vosso pai celestial. (10) Nem sereis chamados guias, porque vosso guia é um (só), o

85 Cristo. (11) E o maior de vós será vosso servo. (12) E aquele que exaltará a si

mesmo será humilhado, e aquele que humilhará a si mesmo será exaltado.53

Com os olhos voltados diretamente para a comunidade de discípulos que idealiza, o autor lhe transmite um padrão igualitário de relacionamento, que é construído no texto, mais uma vez, em oposição direta ao exemplo dos hipócritas. Trata-se obviamente de uma rejeição das estruturas hierárquicas do mundo gentílico, posição que é defendida com um argumento peculiar, o de que só há um senhor. Para Mateus, todos os homens são iguais, clientes na linguagem que temos utilizado, ou “irmãos” como diz o evangelho. Quem quer ser exaltado será humilhado, pois está se rebelando contra a posição de liderança que pertence exclusivamente a Deus. Do mesmo modo, quem se coloca sob a proteção de um patrono humano está abdicando da proteção do patrono divino, quebrando os vínculos com o verdadeiro Senhor.

Nesses versículos lidos há pouco, além de negar recompensas celestiais aos que procuram as terrenas, Mateus também ameaça os mesmos com aquilo que eles repudiam, que é a humilhação (v. 11-12). Assim, para a manipulação do destinatário o texto já não se limita às promessas de recompensas celestiais, mas também se utiliza de intimidação, admitindo que no fim das contas a condição servil e a humilhação continuam sendo valores negativos e indesejáveis.

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