4 BRUKERNES FORMIDLINGSKANALER
4.7 Formidlingen av fremtidige forskningsprogrammer
De acordo com os requisitos apontados por Maingueneau e Cossutta (1995 apud COSTA, 2001) para a instituição de um discurso constituinte, Costa (2001) reconhece como tal o discurso literomusical brasileiro, portanto, como um discurso que dá sentido aos atos da coletividade. Sua descrição desse discurso funda uma tendência de aplicação dos pressupostos teóricos da AD ao estudo da canção, que tem orientado outros pesquisadores a desenvolverem trabalhos que aprofundam e ampliam o conhecimento desse campo discursivo.
Costa (2001), focalizando a heterogeneidade na música popular brasileira no período de 1958 a 1985, descreve as diversas vertentes e movimentos que se organizam nessa prática discursiva e indica, assim, cinco maneiras de marcar posição e identidade mais claramente definidas em tal período:
a) movimentos estético-ideológicos (Bossa-Nova, Tropicalismo etc.); b) agrupamentos de caráter regional (mineiros, cearenses etc.);
c) agrupamentos em torno de temáticas (catingueiros, românticos, mangue beat etc.);
d) agrupamentos em torno do gênero musical (forrozeiros, sambistas, chorões etc.);
e) agrupamentos em torno de valores relativos à tradição (pop, MPB moderna, MPB tradicional etc.).
A abrangência da descrição feita por Costa (2001) dá conta de características do discurso literomusical brasileiro em vários posicionamentos reconhecidos pelo autor, para então agrupá-los, como pudemos notar, conforme o predomínio de um ou outro dos planos analisados quanto às afinidades encontradas entre os diversos posicionamentos. Contudo, não se trata aí de uma descrição pormenorizada, e sim de indicações de como se marcam posição e identidade no espaço discursivo analisado.
Tratando dos agrupamentos em torno de valores relativos à tradição, Costa (2001) reúne posicionamentos que se afinam por suas relações antagônicas
com a noção de nacionalidade. Há, de um lado, o posicionamento MPB13, que se identifica com a brasilidade; e, de outro lado, o posicionamento pop, que nega o pertencimento a qualquer nação. Embora outros traços possam expressar afinidade entre esses posicionamentos, é a partir de suas relações com o caráter brasileiro ou estrangeiro das adesões da prática discursiva que o autor (2001) os agrupa.
Nos demais planos da análise, cada posicionamento manifesta seus traços definidores, como podemos verificar na descrição do posicionamento pop, que apresentamos a seguir.
No mais, como considera Costa (2001, p. 169), “o discurso literomusical brasileiro aparece dilacerado por uma heterogeneidade complexa e inconsistente”, de forma que a diversidade de ritmos, estilos e propostas estéticas presentes nessa prática discursiva, manifesta-se como em uma ampla rede de relações entre os diferentes posicionamentos.
Normalmente essas formas se intercruzam e se sobrepõem, podendo-se, assim, falar de nordestinos pop, samba-jazzistas etc. Cada uma delas não implica apenas conteúdos verbo-melódicos definidos, mas uma prática discursiva que supõe modos de cantar, compor, comportar-se, tocar, difundir etc. coerentes com esses conteúdos (COSTA, 2001, p.170).
Acompanhando Costa (2001), percebemos que, no discurso literomusical brasileiro, as fronteiras entre um posicionamento e outro são bastante permeáveis e de forma alguma excludentes. De modo semelhante, no que se refere a um mesmo posicionamento.
O grau de relação que os diversos membros de um posicionamento assumem para com o ‘centro’ da tradição que o grupo institui pode ocasionar uma clivagem entre os que se propõem a seguir com maior ortodoxia as idéias originais e os que delas se distanciam, abrindo seu trabalho para outras influências. (COSTA, 2001, p.301-302).
Essa clivagem é o que notamos no interior do posicionamento pop. De acordo nossa análise – e isso detalhamos mais adiante –, Arnaldo Antunes é exemplo de membros que, embora assumam em suas obras grande parte dos investimentos que encontramos no pop nacional, instituem aí uma tendência que se afasta da formação ideológica central e que, no caso desse cancionista, vincula-se ao discurso tribalista.
13Embora MPB seja uma sigla que abrevia “música popular brasileira”, esse termo é usado para se
3.2.1 O pop no discurso literomusical brasileiro
Como parte dos “agrupamentos em torno de valores relativos à tradição”, Costa (2001) reconhece o pop no discurso literomusical brasileiro como um posicionamento que se consolida nos anos 80 e tem, segundo o autor, três grandes fontes constitutivas: a) o movimento “jovem-guardista” (anos 60); b) a soul music brasileira (anos 60 e 70); e c) o rock psicodélico brasileiro (anos 70).
Segundo Costa (2001), esse posicionamento destaca-se, no plano musical, pela dedicação quase exclusiva ao rock, blues, soul, country, rap e baladas, assim como pela composição camerística de base formada por guitarra elétrica base, guitarra solo, baixo elétrico e bateria, em harmonia e sequência harmônica simples e com pouca variação melódica.
No plano verbal, liberdade, especialmente presente no âmbito das fronteiras nacionais, é a principal temática:
Há uma tendência anti-nacionalista expressa por diversas visões: visão pessimista do país, atitude de deboche para com o país e os valores cívicos, de redefinição dos conceitos de pátria e nação ou ainda uma atitude de rejeição a toda e qualquer pertinência nacional” (COSTA, 2001, p. 153)
Também se referindo ao tratamento dessa temática pelo pop, Pinho (2007) esclarece que a preocupação e a referência à questão nacional no posicionamento pop dos anos 80 podem indicar uma manifestação “nacionalista”, uma vez que há essa dedicação a dizer algo sobre “o nacional”, seja positiva ou negativamente.
Pinho (2007, p. 84) observa que:
Essa problematização [do nacional] levanta um questionamento importante acerca da idéia da identidade nacional brasileira, em que o país, visto a partir de um discurso crítico, é desmistificado como referência para os sujeitos.
Ainda no plano verbal, Costa (2001) nota que, apesar da tradição “anglofone” do pop, o rock brasileiro tem sido cantado, desde o início, majoritariamente em língua portuguesa e somente nas gerações mais recentes percebe-se um grande número de roqueiros que preferem cantar em inglês.
De todo modo, Costa (2001) destaca nas canções pop a presença de expressões do inglês ou mesmo a adoção de dicção semelhante à do inglês e, por
outro lado, a rejeição de marcas dialetais oriundas de regiões periféricas ao eixo Rio- São Paulo.
Entendemos que a maior aproximação do pop brasileiro à língua nacional junto à inserção de marcas “anglofones” – que tanto nos remete para a origem do rock quanto à possibilidade de alcance universal – pode indicar a pretensa universalidade dos artistas pop brasileiros que, segundo Pinho (2007, p. 86), trazem no ethos de liberdade “a questão da globalização, do conflito entre o nacional e o estrangeiro (interno versus externo), do local e do global”.
Pela ausência de traços que possam aludir a uma cultura, a uma nação ou a um lugar específicos, como bem nos esclarece Costa (2001, p. 155), “os músicos pop tendem a enfatizar o direcionar os ouvidos para o planeta [...]. Ser ‘antenado’, estar ‘conectado’ à realidade mundial”.
Seja no âmbito das fronteiras nacionais ou em qualquer outro que consideremos dentre aqueles abordados pelo pop, esse posicionamento assume, no discurso literomusical brasileiro, o ethos da mulher e do homem livres, em investimentos que, para Costa (2001), diferenciam-se entre o ethos da rebeldia e o ethos da leveza (ou da “cuca legal”).
A indicação desses investimentos éticos foi – como já mencionamos – o
despertar de nossa investigação acerca do posicionamento de Arnaldo Antunes e de outros cancionistas que, de acordo com nossa leitura, seguem uma tendência que explora ethé ideologicamente distantes destes que se afirmam na tradição do pop nacional.