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Nas oficinas propostas pelo Saúde e Prevenção nas Escolas, além do momento em que os alunos se expõem, articulando uma fala sobre si mesmos, o facilitador deve sempre transmitir alguma informação aos adolescentes sobre o assunto em questão. Dependendo da oficina, essa transmissão vem antes ou depois do momento de fala dos adolescentes. “Conforme forem falando, escreva as palavras ao redor da AIDS e explique o significado da sigla Síndrome da Imunodeficiência Adquirida que está nas conclusões.” (BRASIL, 2010b, p. 16). “Encerre informando-os de que o conceito de ‘direito à comunicação’ apareceu pela primeira vez na década de 1960 e foi se cristalizando em debates promovidos pela UNESCO, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.” (BRASIL, 2010c, p. 48). “Comece explicando o que vem a ser vulnerabilidade.” (BRASIL, 2010b, p. 27). “Destaque que as concepções que predominam na sociedade, associando juventude a risco, influenciam na exposição dos(as) jovens, principalmente do sexo masculino, a situações de maior vulnerabilidade.” (BRASIL, 2010b, p. 28). “Explique que a aids também é uma infecção sexualmente transmissível, mas faz parte daquelas que não têm nem sintomas nem sinais visíveis.” (BRASIL, 2010b, p. 41).

O projeto parece seguir os trilhos das demais iniciativas de educação em saúde atuais que, como apontam Meyer et al. (2006), seguem um modelo que se baseia na transmissão de conhecimentos especializados. Segundo os autores, esse modelo enseja um trabalho no qual os educadores detêm o saber e os demais são leigos e têm os seus saberes desvalorizados. No SPE, o discurso dos adolescentes sobre as temáticas trabalhadas tem certo espaço de escuta e exposição. Contudo, parece sempre ser sobreposto por um saber considerado “correto”, baseado em conhecimentos médicos, jurídicos, psicológicos, etc., previamente adquiridos pelo facilitador das oficinas. Como foi visto no tópico anterior deste capítulo, a quebra em relação ao especialismo está muito presente no material voltado à equipe de treinamento dos profissionais de saúde e educação, mas não está fortemente presente no material que guia a ação desses profissionais com os adolescentes.

Conforme Meyer et al. (2006), permanece nos programas e projetos de educação em saúde a ideia, higienista e normatizadora, de que é possível obter saúde através de informações científicas adequadas e da vontade pessoal do sujeito. Mesmo em propostas participativas, como a do SPE, em que se desenvolve a educação entre pares e que busca aproximar-se mais da realidade dos adolescentes, os conhecimentos técnicos continuam tendo força e sendo referidos a todo momento na descrição de como devem acontecer as oficinas.

Mesmo naquelas propostas que buscam ampliar a abrangência dos programas educativos, tal ampliação dá-se no sentido da incorporação de estratégias participativas, nas quais a interação com o repertório sócio-cultural e o seu resgate constituem um recurso de acomodação dos conteúdos técnico-científicos ao universo cultural daqueles a quem se deseja (ou se deve) ensinar. A lógica que se persegue é a da busca de meios mais eficazes para dar conta de objetivos que continuam circunscritos ao universo da higienização e normatização dos comportamentos, como se uma consideração ampliada de sua determinação pudesse gerar uma forma, também ampliada, de prevenção de riscos e adesão a comportamentos saudáveis ainda definidos e legitimados, em primeira instância, pelo conhecimento técnico-científico. Continua-se, pois, buscando enriquecer estratégias didáticas tecnicamente informadas pelas “necessidades de saúde” reconhecidas no âmbito das ciências médicas. (MEYER et al., 2006, p. 1336-1337).

Dessa maneira, a fala dos adolescentes não “cai no vazio”. Não se trata apenas de falar. Essa fala é seguida por uma informação com valor de verdade sobre o assunto da fala. Nas atividades do SPE, é importante tanto que se aprenda algo exterior, um conhecimento sobre determinado assunto, quanto que aconteça uma relação reflexiva do adolescente consigo mesmo. Talvez seja correto dizer que as oficinas tratam-se de um dispositivo pedagógico que opera através da confissão e da transmissão de informação. "Um dispositivo pedagógico será, então, qualquer lugar no qual se constitui ou se transforma a experiência de si. Qualquer lugar no qual se aprendem ou se modificam as relações que o sujeito estabelece consigo mesmo." (LARROSA, 1994, p. 57).

Larrosa (1994) expõe que, atualmente, o discurso pedagógico articula-se intimamente com o discurso terapêutico. Isso porque as práticas pedagógicas não buscam mais apenas transmitir informações, mas também formar sujeitos. É possível perceber a presença disto nos materiais do SPE. O discurso pedagógico presente no SPE é interrogativo e regulativo. Ele faz vir à tona uma fala do sujeito (que não é livre, pois não se pode dizer qualquer coisa e de qualquer forma) e coloca-a em cheque a partir das informações com valor de verdade que são dadas após ou antes da fala dos alunos. Informações estas que são sempre científicas, uma vez que se apoiam seja no discurso médico, jurídico, psicológico, pedagógico, etc. Ou seja, estabelece-se, modifica-se, regula-se o significado dessas falas sobre

si mesmos dos adolescentes ou, como diz Larrosa (1994), realiza-se operações sobre a experiência de si dos alunos.

O que se quer transformar não é apenas o que o aluno faz ou sabe, mas também (e talvez principalmente) a sua relação com a sua própria sexualidade. Uma vez que, com Foucault (1988), é possível pensar que o que é da ordem da sexualidade diz respeito ao que é da ordem do sujeito, pode-se dizer que se quer modificar o próprio sujeito através desse trabalho sobre suas sexualidades.

Talvez seja correto afirmar que, nessas oficinas, há uma prática pedagógica que se trata de:

[...] produzir, capturar e mediar pedagogicamente alguma modalidade da relação da pessoa consigo mesma, com o objetivo explícito de sua transformação. Algumas práticas pedagógicas, então, incluem técnicas encaminhadas a estabelecer algum tipo de relação do sujeito consigo mesmo, a fazer determinadas coisas com essa relação é, eventualmente, a transformá-la. Para dizer de uma maneira próxima ao vocabulário foucaultiano, trata-se de produzir e mediar certas "formas de subjetivação" nas quais se estabeleceria e se modificaria a "experiência" que a pessoa tem de si mesma. (LARROSA, 1994, p. 51).