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In document Å straffe ikke-borgere (sider 59-63)

Do posicionamento histórico da comédia no campo artístico e do humor no espaço público os humoristas surgiram como o grupo de indivíduos aos quais se reconhece o poder pericial de provocar o riso nas outras pessoas e observar comicamente todas as dimensões da realidade [Lewis 2006; Mills 2010], adquirindo dessa forma um estatuto distintivo no seio da intervenção artística e da participação pública.

As formulações de rigoroso controlo das autoridades (políticas, religiosas, educativas) fariam com que os indivíduos tivessem mais cuidado na hora de criticar e satirizar os sistemas de poder. Com carácter de excepção poderiam surgir alguns comediantes, que teriam uma liberdade especial para dizer o que lhe aprouvesse – ou fosse aprovado pelos detentores do poder. Aqueles que usam a linguagem cómica, como bobos, palhaços, jograis e menestréis, ou seus equivalentes históricos, bem como os humoristas profissionais contemporâneos, são habitualmente personagens muito populares através dos tempos e culturas [Apte 1985; Sanders 1995; Minois 2007].

Os estudos científicos sobre humor podem beneficiar muito estudando os comediantes de

stand-up, não apenas porque sejam populares, mas porque podem fornecer algumas

interessantes perspectivas sobre aspectos da produção e apreciação do humor. Embora as performances ritualizadas e fortemente ensaiadas não reflictam impreterivelmente as situações mundanas e informais no qual a maior parte do humor ocorre [Bevis 2013], a comédia stand-up, os sketches e as sitcoms ilustram importantes facetas do mundo da vida quotidiana [Zijderveld 1983; Byrne 2002]. O papel dos humoristas na observação da sociedade e na recolecção de material para as suas performances exibe alguns indícios de paralelismos interessantes com os cientistas sociais que serão desenvolvidos em próximo capítulo.

O estudo de Greengross e Miller [2009] mostra que os comediantes profissionais exibem cinco traços similares entre si. Os humoristas profissionais apresentam características semelhantes aos comediantes amadores, mas quando comparados com estudantes universitários, os comediantes (amadores e profissionais) mostram uma maior abertura à exploração de novos temas ou de abordagens subversivas, e um menor grau de consciencialização, extroversão e agradabilidade. Este estudo mostra que o grau de aceitação e compreensão do humor é tanto maior entre indivíduos que não frequentaram o ensino superior ou que não o levaram muito a sério. Várias hipóteses podem ser levantadas a propósito, mas a explicação poderá estar no grau de seriedade exigido a quem procura alcançar um grau académico no meio universitário. Nos tempos modernos os comediantes podem assumir diversas formas. Do stand-up aos actores cómicos do cinema e da televisão, a profissão do cómico tornou-se uma profissão multifacetada, mas ainda assim uma actividade que tende a ser vista como complementar. Nos Estados Unidos da América, onde as profissões artísticas são fortemente organizadas em

guildas, não existe uma organização corporativa que congregue e organize os comediantes, ao contrário do que acontece com os actores, argumentistas e realizadores. Desta forma, os comediantes acabam por ser associados a estas categorias, isto é, mais do que integrantes de uma categoria devidamente autonomizada, são muitas vezes classificados como actores, argumentistas ou realizadores de comédias.

A este propósito, na relação do artista com a produção artística, Kogan [cit. Greengross e Miller 2009] distingue entre criadores e intérpretes. Criadores como escritores, compositores e coreógrafos produzem novas obras, enquanto actores, músicos e dançarinos actuam e interpretam estas obras criativas. Os comediantes são um dos poucos grupos culturais que criam e executam o seu próprio material (com as mesmas características existem, por exemplo, os cantautores ou os intervenientes em palestras e conferências académicas). Os comediantes escrevem o seu próprio material (tal como no mundo académico, usar o material de outros é considerado uma violação das regras éticas e pode acarretar a expulsão do circuito, neste caso dos clubes de comédia) mas também actuam perante uma audiência presente – ao contrário dos programas de sketches aqui analisados, onde o público está ausente, mediado por um ecrã, seja através da televisão, de DVD ou pelos canais da internet. Os comediantes, por acumularem simultaneamente as condições de criadores e actores, têm a liberdade de interpretar e alterar as suas próprias piadas tanto quanto queiram, e podem inclusivamente refiná-las ao longo da carreira, uma vez que nos espectáculos stand-up têm a oportunidade de assistir em directo à reacção do público.

«Actuar era uma parte importante da equação, pelo menos para mim. Eu não estava interessado em ser apenas um argumentista e eu escrevia unicamente material que sentisse que poderia ganhar vida. (…) Era porque todos estávamos interessados no trabalho de teatro, e tínhamos sido condicionados em Oxford e Cambridge pela noção de escrever e actuar.»

[Michael Palin, The Pythons Autobiography by the Pythons: 111]

Os comediantes apresentam as suas piadas, o seu material de trabalho, em ambientes que variam desde pequenos bares de vizinhança até grandes estádios, e têm performances com durações entre 10 e 90 minutos (os dois espectáculos que Robin Williams fez para a HBO30

duram cerca de 100 minutos cada). Para serem bem sucedidos na sua profissão, os comediantes devem conseguir fazer rir os outros – e nisto não diferem dos bobos medievais. Esta característica pode ser reveladora de algumas respostas a esse mistério original, saber quando e por que razão os indivíduos e os grupos se riem. Além disso, serve também de indicador para compreender o que caracteriza os indivíduos que os outros consideram engraçados. Como os comediantes contam centenas de piadas num espectáculo de stand-up em frente a uma audiência, eles têm uma noção imediata daquilo que o público recebe e

percebe como cómico e divertido. A sua exposição é também particular no campo da arte e da intervenção pública. Na comédia stand-up o comediante interpreta-se a si próprio, sem mediações de situações ou personagens. O que está em cima do palco são, aparentemente, as suas opiniões sobre o mundo e a realidade [Brett Mills 2010].

Hoje em dia, a comédia stand-up e os sketches curtos têm tido um recrudescimento devido a um número de comediantes alternativos surgidos nas plataformas digitais como os blogues, o twitter ou o YouTube, que eliminam a barreira do programador e do custo para o público, uma vez que o acesso a estes canais é livre tanto para quem produz como para quem assiste31. Se o grupo Gato Fedorento surgiu em simultâneo na blogosfera e num canal de televisão pago, o caso de sucesso mais estrondoso dos últimos anos em língua portuguesa é o canal Porta dos Fundos, um grupo de comediantes profissional que se estreou exclusivamente na plataforma YouTube e daí derivou todo o sucesso – que hoje compreende já DVDs com os

sketches, livros com os textos e outro merchandising.

Para ilustrar um arquétipo da representação dos humoristas, o próximo interlúdio apresenta um quadro cómico que exibe um particularismo pós-moderno, onde uma personagem dialoga com o actor que a interpreta. Neste quadro, o Chato encontra o actor Nuno Lopes. Repare-se na primeira provocação que aquele lhe faz a propósito da profissão de actor.

CHATO

Olha para mim, sou o Nuno Lopes, eu. Olha para mim, todo estiloso, sentadinho, sem fazer nenhum, a ouvir música… toda a gente gosta dele, que ele é espectacular, ganhou prémios e globos e coisas… Porquê? Ajuda as pessoas a curarem as gripes? Não ajuda. Ajuda as pessoas a livrarem-se da crise? Também não ajuda. Que é que ele faz?

(…)

NUNO LOPES O que é que eu faço?

CHATO

(Com tom de desprezo) Faz rir.

NUNO LOPES Faço.

CHATO

Achas tu! Achas tu! Achas que fazes rir as pessoas. Se querias fazer rir porque é que não foste antes para peido?

NUNO LOPES Para peido?!

CHATO

Isso é que faz rir. Eu tenho um tio, que vai lá almoçar a casa, e às vezes a meio do almoço estamos todos sentados, ele…

(som de flatulência) É um gargalhão de riso.

(Excerto de “Chato com Nuno Lopes”, Os Contemporâneos)

Este quadro humorístico apresenta na forma narrativa uma personagem a falar com o seu actor, mas na essência são os comediantes a falar com o público e consigo próprios. A personagem representa duas atitudes comuns na objecção ao humor e à comédia.

A primeira é a desvalorização da profissão, uma vez que o comediante não melhora as condições de saúde nem as condições socioeconómicas dos indivíduos, faz apenas rir. Esta mesma deslegitimação é explicada por Marx [1996] – o irmão Groucho – na sua autobiografia, quando conta que, no início da sua carreira, ao invés de uma vida de celebridade [Hollander 2011], a posição social de um actor e comediante estava entre um cigano que deita cartas e um carteirista.

A segunda encontra-se na resposta final do Chato quando este explica que soltar flatulências – a representação arquetípica do humor físico – é muito mais divertido do que produzir situações humorísticas e construir personagens cómicas. Esta resposta remete para o fascínio pelo riso acerca do grotesco e para a universalidade do discurso humorístico simplificados. Uma flatulência não necessita de ulterior descodificação, enquanto uma metonímia exige chaves interpretativas. Claro que uma flatulência também pode ser uma metonímia, mas isso seria outra tese.

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