Ao nos referirmos a texto como um lugar em que são construídos sentidos em uma dinâmica interacional que envolve autor, copidesque, texto e leitor, pensamos, obrigatoriamente, a textualidade, que é o que faz um texto ser um todo significativo ‒ não apenas a colocação de frases em sequência ‒ e, consequentemente, um evento comunicativo bem-sucedido.
Beaugrande (1997, s.p.) assinala que o texto “é um evento comunicativo para o qual convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais”, perspectiva que nos leva a pensar que a produção de sentidos de um texto envolve tanto relações situacionais como relações cotextuais. Dessa forma, não produzimos nem entendemos um texto com base apenas em elementos linguísticos ou em unidades formais da língua. A compreensão de um texto, bem como a produção de sentidos, depende do conhecimento linguístico, do conhecimento de mundo – individual e coletivo – e de aspectos socio-históricos.
De acordo com a visão de Marcuschi (2008), o aspecto linguístico não é de todo relevante para que consideremos determinado texto um texto, mas o contexto situacional em que ele ocorre é. Como o autor observa, independentemente da quantidade de problemas sintáticos e ortográficos presentes em um texto13, “ele produzirá os efeitos desejados se estiver em
uma cultura e circular entre sujeitos que dominam a língua em que ele foi escrito [...]. A textualidade não depende, de modo geral, da correção sintático-ortográfica da língua e sim de sua condição de processabilidade cognitiva e discursiva (Marcuschi, 2008: 90-91).
Dessa forma, considerando o foco de nossa pesquisa, adotamos a perspectiva de que o copidesque, para ampliar o alcance de sua atuação, deve se pautar não apenas nos elementos sintático-gramaticais, mas também nos elementos situacionais, cognitivos, culturais e históricos que envolvem a produção de determinado texto e, consequentemente,
13 Em relação especificamente aos textos produzidos no contexto acadêmico, entendemos que inadequações de
caráter sintático-gramaticais, ainda que não prejudiquem a produção de sentidos, podem afetar de forma negativa a imagem do pesquisador diante da comunidade discursiva acadêmica, uma vez que o texto não está totalmente adequado à situação comunicativa.
53 a copidescagem desse material linguístico. Uma vez que consideramos tal ponto de vista, torna-se necessário apresentarmos o aporte teórico que sustenta a abordagem dos princípios de textualidade por nós adotada nesta investigação.
Os princípios de textualidade foram primeiramente propostos por Beaugrande e Dressler, em 1981, na obra Introduction to text linguistics. Nela, os autores denominavam tais princípios de critérios, ou padrões, segundo uma perspectiva centrada na forma e no código, que não levava em conta o caráter social da linguagem. Eles identificaram, por meio de seus estudos, sete critérios, a saber: coerência e coesão, intencionalidade, aceitabilidade, informatividade, situacionalidade e intertextualidade
Em 1997, na obra New foundations for a science of text and discourse, Beaugrande revisou os sete critérios propostos e, então, passou a denominá-los de princípios. Diferentemente do que havia exposto em 1981, quando, juntamente com Dressler, definiu o texto como uma “ocorrência comunicativa” (Beaugrande; Dressler, 1981, s.p.), Beaugrande passou a considerar o texto segundo uma visão que contempla não apenas o aspecto linguístico, mas também o social e o cognitivo.
Nessa concepção, o texto não é uma virtualidade, é uma realidade, uma vez que não se trata somente de um sistema formal, trata-se também de uma realização linguística em que os usuários da língua compartilham conhecimentos sobre o mundo e sobre a sociedade, para construírem os sentidos necessários à compreensão do texto. Dessa forma, passamos a ter uma articulação entre autor, leitor, texto e contexto.
A conjunção de aspectos linguísticos, sociais e cognitivos na produção de um texto envolve segundo Beaugrande (1997), os sete princípios de textualidade. O autor assinala que esses princípios representam “as mais importantes formas de conectividade” entre um texto e o conhecimento de mundo e da sociedade que o usuário da língua possui, e não “os fatores linguísticos do texto-artefato nem as fronteiras entre ‘textos e não-textos’” (Beaugrande, 1997, s.p.). Assim, entendemos que tais princípios convergem para a construção de sentidos mais do que guiam a boa formação textual.
Assim como defendeu em Beaugrande e Dressler (1981), Beaugrande (1997) destaca que a coesão e a coerência estão relacionadas ao texto, a intencionalidade e a aceitabilidade estão relacionadas aos indivíduos participantes do ato comunicativo. Contudo, adota um
54 posicionamento diverso do observado na obra que concebeu juntamente com Dressler em relação aos princípios de informatividade, situacionalidade e intertextualidade: em vez de estarem vinculados ao usuário, estariam vinculados à situação comunicativa.
Koch (2006) critica a divisão entre princípios centrados no texto e princípios centrados no usuário, que para ela é não tem sentido. De acordo com a autora, considerando-se a abordagem pragmático-cognitiva, não há razão para tal distinção, uma vez que todos os princípios estão calcados simultaneamente no texto e nos usuários. O emprego ou não de recursos coesivos e sua seleção são determinados por aspectos pragmático-cognitivos.
De fato, o posicionamento pela autora contribui para o desenvolvimento de nossa própria abordagem acerca do trabalho realizado pelo copidesque. Em relação ao princípio da intencionalidade, por exemplo, não podemos dizer que está centrado apenas nos participantes do evento comunicativo. Obviamente, o copidesque, ao realizar determinada alteração no texto do autor, é movido por uma intenção, que não se baseia somente na sua vontade, indo além, tal alteração, motivada por uma intenção, é movida também por aspectos relacionados a elementos como gênero textual utilizado, formas para reforçar ou estabelecer a credibilidade do autor e situação comunicativa
Desse modo, ao promover uma alteração textual, o copidesque deve considerar o gênero utilizado, os efeitos de sentido decorrentes, os interlocutores e o autor do texto, entre outros aspectos. Assim, a intencionalidade, como indicam Beaugrande e Dressler (1981) e Beaugrande (1997), não estaria calcada apenas no usuário da língua, conforme observa Koch (2006).
Com relação aos critérios de textualidade propostos por Beaugrande e Dressler (1981), especialmente o critério da coerência, Koch (2006) ressalta que ele não é apenas um critério entre os demais e focado no texto. Em relação à abordagem adotada por Beaugrande e Dressler (1981), Koch (2006) observa que a coerência é o “resultado da confluência de todos os demais fatores”, ou seja, os outros critérios concorrem para que a coerência esteja presente em um texto.
Ainda em 1989, na obra Texto e coerência, Koch e Travaglia já postulavam que os princípios de textualidade, assim como o conhecimento linguístico, o conhecimento de mundo, o conhecimento partilhado, os fatores pragmáticos, entre outros elementos,
55 concorriam para o estabelecimento da coerência textual. Esse posicionamento, além de ter sido um avanço em relação à abordagem de Beaugrande e Dressler (1981) e até de ter ido além do que propôs Beaugrande (1997) evidencia o fato de que os princípios não são estanques, uma vez que mantêm relação entre si e, em alguns casos se sobrepõem, para reforçar a coerência não apenas no que se refere ao conteúdo textual, mas também no que se refere ao gênero utilizado, à situação comunicativa e aos participantes do evento comunicativo. Nessa direção, embora elencados separadamente, até para fins didáticos e de sistematização, os princípios de textualidade funcionam de forma interligada, conjuntamente, para possibilitar a construção de sentidos.
A seguir, apresentamos um quadro em que elencamos os princípios de textualidade e alguns dos elementos que os caracterizam (Quadro 7).
Quadro 7. Princípios de textualidade
PRINCÍPIOS CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS
Coerência Torna determinada sequência linguística um texto; para a qual confluem os
demais princípios; resulta de processos cognitivos
Coesão Resulta de processos linguísticos e textuais presentes na materialidade linguística e da rede de ligações semânticas estabelecidas no texto construídas por elementos gramaticais e lexicais
Intencionalidade
Está relacionado com a intenção do produtor do enunciado
Aceitabilidade Está relacionado com o modo como o interlocutor aceita o enunciado
Informatividade Refere-se ao grau de previsibilidade da informação contida em um texto
(quanto mais esperada for a informação, mais previsível será o texto)
Situacionalidade Está relacionado aos aspectos que tornam um texto relevante em
determinada situação de comunicação
Intertextualidade Refere-se ao conhecimento de outros textos, que é necessário para que a
compreensão se efetive Elaborado pela autora
Ressaltamos que, para tornar nossa exposição mais didática, na análise do corpus selecionado, desenvolvida no Capítulo 4, identificamos, na maioria dos excertos selecionados, um princípio a cada proposição. Esse procedimento pode dar a entender que os princípios são estanques ou que a fronteira entre eles é facilmente definida. No entanto, muitas vezes, há princípios sobrepostos “alguns são redundantes e se recobrem” (Marcuschi, 2008: 93).
O princípio da coerência, por exemplo, permeia o princípio da informatividade. De acordo com Koch e Travaglia (2011: 81), “a informatividade exerce [...] um importante papel na seleção e arranjo de alternativas no texto, podendo facilitar ou dificultar o estabelecimento da coerência”. Já no caso do princípio de intertextualidade do tipo tipológico (em que um tipo
56 de texto é empregado no lugar de outro), o emprego de elementos que não são próprios de determinado tipo de texto acarreta problemas de coerência, como no caso de se escrever um artigo científico com base no tipo dialogal, isso porque os tipos diferentes de texto possuem determinadas marcas que estabelecem de uma dada maneira a continuidade do texto, condição para que o texto seja coerente.
Na sequência, a fim de estabelecermos o aporte teórico por nós adotado nesta pesquisa, discorremos de forma detalhada sobre os sete princípios de textualidade conforme propostos por Beaugrande e Dressler (1981).
3.2 Coerência e coesão
Conforme postulam Beaugrande e Dressler (1981), a coerência é o resultado de como os elementos subjacentes à superfície textual configuram-se para conferir sentido ao texto, por essa razão, é um fator de fundamental importância na constituição da textualidade, conceituação que se mostra redutora, como salienta Koch (2006). Para a autora,
coerência não é apenas um critério de textualidade entre os demais (e centrado no texto!), mas constitui o resultado da confluência de todos os demais fatores, aliados a mecanismos e processos de ordem cognitiva, como o conhecimento enciclopédico, o conhecimento compartilhado, o conhecimento procedural, etc. O que se tem defendido é que a coerência resulta de uma construção dos usuários do texto, numa data situação comunicativa [...] (Koch, 2006: 43).
É preciso observar que, de fato, a concepção apresentada por Koch (2006) amplia o entendimento acerca da coerência, bem como sua relevância na composição textual, no entanto, como ela mesma notou, assim como a coesão, a coerência sofreu alterações conceituais significativas ao longo do tempo, o que não invalida os estudos realizados anteriormente.
Consideramos um discurso coerente quando apresenta congruência com os conhecimentos do interlocutor, que necessita de um repertório (conhecimento de mundo, conhecimento textual e conhecimento linguístico)14 para proceder à adequada interpretação. O locutor, ou
14 De acordo com Fávero (2006), o conhecimento linguístico está relacionado ao que sabemos acerca de como
pronunciar palavras em nosso idioma, bem como ao que sabemos sobre vocabulário e regras da língua. Permite que percebamos os vocábulos agrupados em frases e categorias, como sujeito, predicado e sintagmas. O conhecimento textual diz respeito à classificação do texto em relação à sua estrutura (um texto narrativo, por exemplo), à interação autor-leitor (argumentação, por exemplo). Conforme destaca a autora, quanto mais amplo