De fato, a Rua Aspicuelta evoca em si as continuidades históricas das Ruas de Eventos, sobretudo, nas transformações das tradições socioculturais. Se imaginarmos uma parábola, esta se demonstrará decrescente da seguinte forma: a princípio, a imagem da Rua de São Bento emanava o predomínio e o poderio religioso, pelo excesso de igrejas católicas; posteriormente, a Rua Treze de Maio já
276
Cf. Idem, Idem. 277
URBANISMO ESPETÁCULO 148 se apresenta enfraquecida no sentido do credo, pois, inclusive, compartilhava seu único templo com os religiosos do candomblé. Assim, esta parábola se encerra através da Rua Aspicuelta, pela completa ausência de qualquer tipo de edificação de âmbito religioso.
Se, anteriormente, destacamos a importância da historiografia em desvendar processos contemporâneos, eis que emerge uma manifestação desta congruência pela esfera institucional.
No primeiro capítulo, a história como nos foi contada revelou a desapropriação do Convento de São Francisco para a instalação da Academia de Direito. Desse modo, houve preferência para o desenvolvimento intelectual. Semelhante preferencia ocorreu no segundo capítulo, na Rua Treze de Maio, quando o Governo optou por desviar o plano de avenidas para preservar a escola da região. Para o período, o desenvolvimento urbano e econômico era ditado pela indústria automobilística. Contudo, a Rua Aspicuelta também não apresenta nenhuma escola ou universidade, mas uma tendência contemporânea, os diversos ateliês instalados na extensão da rua, proporcionam atividades, cursos livres e de aperfeiçoamento; uma tendência nos moldes desta época.
E eis que a interpretação reencontra por uma nova via, insuspeita, o vocábulo “boêmio” ao contemplar a produção intelectual desta fase. Nos capítulos anteriores, apontamos algumas definições e conceituações do termo “boêmio”, para os fins desta dissertação, contudo, no transcurso entre as épocas, para a atual, seu sentido pouco se modificou. Assim, buscamos dialogar com os conceitos populares, que recaem, não mais sobre o agente boêmio, mas sobre uma área, tipificando-a como “reduto da inteligência e da boemia”. Note que, da mesma forma empreendida por nós, a conjunção “e” se revela enquanto complemento sinonímico. E isso é amplamente difuso nas mídias virtuais.
Iniciemos o retrocesso histórico para compreender estes sinônimos qualitativos. Foram os estudantes que atribuem vitalidade a este trecho do bairro, devido ao fechamento do “Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo – CRUSP”278
. Isso justifica a chegada dos estudantes na Vila Madalena durante a década de 1960. Logo em seguida, tem a chegada dos hippies, outra parcela da
278
URBANISMO ESPETÁCULO 149 sociedade sem muito poder aquisitivo que sobrevivia de sua arte. Ambos, atraídos pelos preços relativamente baixo dos aluguéis em comparação com outros pontos da cidade. Sobre a vitalidade da Vila o autor destaca:
“Na verdade foram eles que deram origem à Vila, como ela seria mais tarde. A Vila, […] nasceu, sem a menor dúvida, com a chegada dos hippies. Foram eles que começaram a se juntar em torno do bar Sujinho. Vivia-se então, o fim dos anos 1970”279
.
De um lado, enfatizou o autor a concepção do meio intelectual e das artes pelo contexto social e político, que a cidade e o país estavam em face. De outro lado, um detalhe fugaz que nos chama a atenção, está na mediação dos bares para estas manifestações culturais serem expressas nas ruas.
Estes grupos, hippies e universitários, tiveram grande representatibilidade até a década de 1980, quando, então, surgem outros tipos de jovens que eram “despojados […] se destacavam, dando uma nova roupagem à Vila, uma vez que apareciam vestidos de uma vanguarda moderna”280
. Tal descritivo, estético- comportamental e temporal, nos leva a crer que, este público, se trata do fluxo dos migrantes ou frequentadores da Treze de Maio.
Retomando a década de 1990, apesar de tímido, a “Vila Madá”, como popularmente chamada, já adquiria “indícios da espetacularização”, tornando-se uma grife até os moldes contemporâneos. Dos consumidores de cultura modificaram-se para os consumidores do espetáculo, orquestrado por um regente, que é o próprio poder aquisitivo281.
Retomando o olhar sob o viés intelectual, a diferenciação dos centros de ensino existentes na Rua Aspicuelta repousa no fato de que, reconhecendo as potencialidades do lugar, complementam o sentido da rua e da Vila como um todo, oferecendo ensino voltado às atividades prazerosas e recreativas, as quais retiram o aluno das atividades rotineiras. Desse modo, ali constatamos a presença de diversos ateliês e studios [Figuras 51 e 52].
279 Cf. SQUEFF, 2002,p.21 280 Cf. VERRI, 2014, p.133. 281 Idem, idem.
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Figura 51 - Instituto Centro Holístico: Rua
Aspicuelta entre as Ruas Fidalga e Girassol.
Fonte: Banco de dados do Autor (2015).
Figura 52 - Academia Espaço Cult: R. Aspicuelta
entre as R. Harmonia E Tv. Alonso. Fonte: Banco de dados do Autor (2015).
Cravejado pelas tensões rotineiras, estes ambientes pode ser compreendidos mais do que um lugar de encontro e sociabilização, destinadas ao desenvolvimento cultural e intelectual, instigante é a mediação simbólica do estabelecimento consigo próprio. Com efeito, as pessoas do período contemporâneo apreendem a necessidade de se destinar tempo. Trata-se de um recurso sensível, marcado por um momento prazeroso e, portanto, de lazer; intimamente vinculado a espetacularização.
Efetivamente, o maior espetáculo do planeta é o Carnaval e, da mesma forma como ocorreu no Bixiga com a Escola de Samba Vai-Vai, a Vila Madalena presta sua contribuição para este festejo com a Escola de Samba Pérola Negra.
Fundada em 1973 a Escola comporta um elemento enigmático pertinente ao próprio nome, há quem diga que faz menção a joia rara, outros afirmam que o fundador resolveu nomeá-la assim porque achou interessante o nome da cerveja que degustava282. Mas nada disso vem muito ao caso aqui. O que é interessante é perceber o valor metafórico que evocam ambos os sentidos. O primeiro, claramente explícito por “joia rara”, faz referência a todos os elementos da Vila, seu sentido de vizinhança e dos equipamentos que comporta, que a tornam atrativa; de forma implícita, “negra” remete à etnia, aos valores simples e classe operária. Já o segundo sentido, evoca descontração, irreverência e os “ares boêmios”, que são próprios do ambiente fornecido pela Vila.
282
URBANISMO ESPETÁCULO 151 Faz-se saber que a sede da Escola de Samba Pérola Negra está na Rua Girassol. Outra curiosidade é de que, por um breve período em sua história, a Vila Madalena também abrigou a Escola de Samba Tom Maior.
À luz dessas considerações, percebe-se que tão característico da cultura popular brasileira, estes elementos reconfiguraram a dinâmica local, tornaram-no apreciativo ao valor de “joia”, todo um bairro, não restrito, em nosso discurso, apenas às Escolas de Samba, mas ao todo. Comtemplado por tais aspectos, enaltecemos as características dos eventos, por dissolverem as coisas, como antigos valores, inclusive, identidades e propondo-nos outras. O que antes era um bairro próximo ao leito dos rios do qual as elites se distanciavam, atualmente, estas ruas são seus pontos de encontro. Isso nos mostra que nada é fixo e, por isso, nos submete ao “teste do saber”. Diante da nova história e da nova geografia é o nosso saber, movido por antigas concepções, que também se dissolve, cabendo-nos reconstituí-lo através dos eventos283.
Essas alusões são apreciativas, mas para esclarecer a titulação deste tópico, cabe recordar que, invariavelmente, o único índice religioso que para esta Rua de Eventos restou, está presente no nome em que carrega, pois remete ao padre jesuíta João de Aspicuelta Navarro.
Por fim, outra vertente da arte urbana presente na Vila é dada pela cultura do graffiti e, pela subcultura, da pichação, enquanto manifestações que se refletem na rua. Os locais onde isso ocorre com maior intensidade são o Beco do Batman ou o Beco do Aprendiz, é do interesse das agências publicitarias e do público em geral utilizar-se do lugar, como pano de fundo e explicitar os mais diversos estilos da arte e da cultura urbana [Figura 53].
Figura 53 – Beco do Batman. Fonte:
FUSION JIU-JITSU, (2015).
283
URBANISMO ESPETÁCULO 152 Na Rua Aspicuelta e em outros pontos do bairro, essas manifestações se dão especialmente nos tapumes, em áreas com edificações porvir, isso é também uma estratégia de exulto das características do bairro [Figuras 54 a 57] que, além de não o degradam, evitam que ocorra de forma depredativa ou de forma não consensual a ação nos patrimônios.
Figura 54 – Rua Aspicuelta enfrente a Travessa
Alonso. Fonte: Banco de dados do Autor, (2015).
Figura 55 – Rua Aspicuelta enfrente a Travessa
Alonso. Fonte: Banco de dados do Autor, (2015).
Figura 56 – Rua Aspicuelta ao lado da
Travessa Alonso. Fonte: Banco de dados do Autor, (2015).
Figura 57 – Rua Aspicuelta entre as ruas
Girassol e Harmonia. Fonte: Banco de dados do Autor, (2015).
Este trecho da Rua Aspicuelta, explicitado pelas imagens, está contido entre as ruas Girassol e Travessa Alonso, o que, possivelmente, induz notável referência e proximidade com o Beco do Batman, desse modo estas manifestações aqui ocorreram de forma mais intensa, se comparado ao restante da rua, que houve poucos, se houve, indícios deste tipo de arte urbana.
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