The challenge is to gain insightful understandings on how the routes carrying the densest traffic organize themselves and impact the organization of the network
4.5 Formal Specification of the VSA Process
Comecemos pela fala da pessoa que coordenou os dois grupos e que nos fornece pistas para uma melhor compreensão de todo o processo vivenciado no início do surgimento dos grupos em questão:
Defendi o Mestrado e a profa. Socorro solicita da SEDUC, minhas horas, e uma das minhas tarefas era fazer o Itinerantes acontecer agora como grupo e esses meninos iam então para as escolas e foi o que aconteceu e, ao mesmo tempo, eu volto para UEPA e tomo conta da minha disciplina na UEPA, que foi a turma da Rita e da Dia que são as pioneiras. Aí foi paralelo, muito junto Itinerantes na Federal e Griot na Uepa [...] e fazendo um trabalho na turma da Dia, eu comecei a falar das histórias, os meninos da turma se apaixonaram e eu comecei a dar oficinas, os que se apaixonaram muito, ficaram. E foi o projeto piloto do Griot, e aí eu fiz o projeto de extensão, o projeto foi aprovado e aí eu comecei a trabalhar daquela forma que você já conhece de lá pra cá. Aí no primeiro momento nenhum deles gostava de ler, acho que fora a Dia, que já tinha mãe professora, os outros não. Tanto que eles se apaixonavam a cada texto que eles liam [...] eu não fiz nenhuma seleção para criar o Griot, ficou quem quis (BASTOS, 2014).
O grupo dos Contadores Itinerantes já existia na UFPA, visto que com a entrada de Renilda Bastos no mestrado e sendo orientanda da profa. Socorro Simões já havia esse interesse em trabalhar as narrativas recolhidas pelo IFNOPAP por parte das duas e, assim, ela começou um trabalho em 1996, na UFPA, muito embora com reuniões esporádicas, porém em virtude de uma grave doença a que foi acometida a professora Renilda Bastos ficou afastada da vida acadêmica por dois anos (1997/1998), o trabalho que havia começado que depois teria sido retomado, teve como conseqüência uma vírgula na trajetória deste grupo.
Após ter a saúde restabelecida, Renilda Bastos volta a coordenar o Contadores Itinerantes em 1999 e, concomitantemente, volta para UEPA, retoma sua disciplina e propõe para um grupo de alunos oficinas sobre a arte de contar histórias e funda o Griot. Sendo coordenadora de dois grupos, ela propõe encontros entre os dois grupos na UFPA, aos sábados, dia de trabalho com o Itinerantes, além desses encontros, aos sábados, o Griot se encontrava em dois dias a mais na UEPA, visto que o nosso curso tinha uma grande carga horária e tínhamos mais tempo para estudos de repertório, memória e performance.
Como já mencionado anteriormente, o objetivo dos Contadores Itinerantes era o de propagar as narrativas recolhidas pelo IFNOPAP nas salas de aula para que as crianças tivessem o conhecimento dos mitos presentes no local onde residem e, desse modo, apreender saberes, particulares, e a valorização da região amazônica.
O grupo Griot pensado e coordenado por Renilda Bastos, primeiramente tinha como objetivo a formação de leitores, haja vista que esta professora fazia parte das discussões do projeto PROLER, um projeto nacional de leitura. Além disso, como Especialista em Literatura Infanto-juvenil, e professora de pessoas que futuramente seriam professores de crianças de 1ª à 4ª séries do Ensino Fundamental, e assim como leitora, tinha sempre em seus objetivos a formação de leitores, então ela lutava nesse sentido, o Griot foi uma forma de aproximar a criança do livro. Porém, com o tempo, o Griot foi ganhando novos objetivos, além do objetivo primeiro, outros como suscitar ouvintes a contarem suas narrativas; visitar hospitais junto com outros projetos da UEPA, por exemplo: projetos de música e saúde e alegria, além de invadir os mais variados espaços com poesias.
Como é possível perceber, o “Contadores Itinerantes” diferencia-se do Griot, pois o último ultrapassa as fronteiras das salas de aula, e insere-se em espaços diferenciados como hospitais, feiras do livro, eventos culturais, além de escolas e ambientes pedagógicos. Sendo assim, começa também a nascer um movimento de formação de contadores de histórias no Pará, com características bem diferentes de contadores de histórias existentes em Belém, daqueles que faziam um trabalho solitário em suas salas de Educação Infantil, em Bibliotecas e em algumas salas de leituras em escolas da rede pública, estava nascendo grupos cuja formação abarcava conhecimentos teóricos e práticos da arte de contar histórias, o que eu denomino, neste trabalho, de contadores urbanos. A coordenadora afirmava sempre que profissionais de Educação e, principalmente de Letras, teriam de ser leitores e senhores de um grande repertório de textos de vários lugares e que pudessem compartilhar com outras pessoas e em qualquer espaços onde suas vozes pudessem ser ouvidas. Com o passar do tempo Bastos fugiu da máxima que as atividades ligadas ao contar quase sempre são dirigidas à criança para ensiná-la a ler, escrever e para desenvolver o prazer da leitura.
As reflexões de seus alunos vão para além desses objetivos escolares, estão preocupados também, ao contarem histórias, com as possibilidades orais de seus ouvintes. Sendo assim, para o Griot, grupo que mantém seu trabalho até hoje, a narrativa oral não pode ser apenas um meio para chegar a um fim que é a leitura como no princípio:
[...] mas que suas histórias em prosa e verso possam reencontrar nossos mitos, com as vozes de pessoas queridas, com vozes saudosas de nossas infâncias, com nossas fogueiras invisíveis... Isso é um árduo trabalho, porque é preciso chegar ao coração do ouvinte não importa a idade dele. Nesse aspecto, penso que o contador urbano precisa transformar suas vivências de leitura em texto oral e, por sua palavra proferida, criar eco em outras pessoas, que queira, com isso, contribuir para a memória cultural da humanidade que é tecida há milênios pela letra e pela voz num dinâmico intercâmbio. Penso que por meio do contador de histórias que empresta seu corpo, sua voz e seus sentimentos ao texto que narra, é que a palavra se corporifica e se espiritualiza, como nos ensina Zumthor (1997). Contar e ouvir histórias atiça algo que foi quase esquecido na modernidade, a experiência, algo que transcende a dimensão prática e nos aproxima do sagrado, e é isso que os novos contadores de histórias precisam aprender com a história dos contadores tradicionais [...] (BASTOS, 2014).
Identifica-se no trecho citado a prática do grupo Griot, pois há uma integrante intitulada carinhosamente como a memória do grupo, uma vez que todos os textos já realizados em diversos repertórios estão presentes tanto na memória quanto nos escritos que ela se deu o trabalho de redigir em um caderno pessoal de anotações. Ela tem afinidade com o texto do “Navio Negreiro” de Castro Alves e sabe recitá-lo na íntegra, sem recorrer ao escrito, fato que causa admiração no público que a ouve.
O contador de histórias passa a ser então, um guardião de memórias, um arquivo vivo da tradição de um povo. De acordo com Nora (1993, p. 9-13), o que existe são locais de memória porque não há mais meios de memória:
A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento [...] Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais.
Dessa maneira, o narrador que pode ser considerado o grupo vivo, citado por Nora, está sujeito à ação da lembrança e do esquecimento, ou seja, constituído por restos, cacos, vestígios que juntos corroboram com a necessidade de se manter presente a História.
Nos estudos de Ferreira (2003), a ação da memória se processa de acordo com sistemas internos de cada narrador. Nela ficará registrado somente aquilo que tiver algum significado para ele, algo que lhe desperte a curiosidade, que tenha íntima relação com sua história de vida, que lhe cause indignação ou esteja reforçando suas concepções.
Desse modo, não é certo afirmar que o contador de histórias guarda, na memória, tudo o que lhe penetra pelos sentidos; na verdade, tudo é captado parcialmente, alguns retalhos ficam, outros se perdem no grande emaranhado que compõe a colcha cultural, na qual estamos envolvidos, a partir do que esquece, ele vai criando novos códigos, novos motivos e atualizando seu repertório, como diz Ferreira: o esquecimento é o pivô narrativo.
Passemos para outra parte deste estudo que irá comentar e aprofundar as temáticas que foram mais salientadas nas entrevistas pelas narradoras estudadas.