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A respeito das relações entre os estudos terminológicos e a prática tradutória, é importante enfatizar a natureza distinta de ambos os campos de pesquisa. Conforme abordado anteriormente, a Terminologia ocupa-se do estudo do termo, da definição e da fraseologia.3

Dessa maneira, dialoga, ainda que discretamente, com outras ciências do léxico também autônomas, como a lexicografia e a lexicologia. No que diz respeito à tradução, Aubert mostra que seu objetivo é “a análise de um fenômeno complexo, ao mesmo tempo linguístico, sociocultural, histórico, estético, político e individual.” (AUBERT, 2001, p. 11).

De modo semelhante ao pensamento de Aubert (2001), Cabré (2004, p. 104) concebe a tradução como o ato de transposição de ideias de uma dada língua de partida em uma língua de chegada diferente. Entretanto, as línguas em questão estão integradas em sistemas culturais particulares, nos quais há variáveis cognitivas, culturais, psicológicas, sociológicas e também linguísticas. A prática tradutória, deste modo, dá-se a partir da interação entre as referidas variáveis.

Embora tratem de questões particulares do fazer científico, é inegável que ambas as áreas possuem relações estreitas, uma vez que a tradução fundamenta-se na terminologia. No tocante a essa questão, Aubert (2001, p. 12) menciona que os tradutores são usuários dos produtos da pesquisa terminológica, por meio de glossários e dicionários técnicos, bases de dados terminológicos, entre outros. Dessa maneira, o autor acrescenta a importância de o tradutor ter em mãos uma gama de estudos terminológicos confiáveis, fundamentados em

metodologias adequadas. Por outro lado, Aubert explica que a terminologia se beneficia da tradução, por introduzir termos novos, inexistentes na língua de chegada.

O autor (p.13) comenta que a relação entre as duas áreas de conhecimento mostra-se complexa, devido às lacunas no processo de descrição terminológica em seu aspecto mono e bilíngue, dificultando, deste modo, o exercício adequado da prática tradutória. A ausência de descrições mais aprofundadas gera a proliferação de dialetos de especialidades, cujo caráter apresenta-se variável, dependendo da região e do usuário que os emprega.

Para Aubert (2001, p. 18), a proliferação desordenada de termos, produto de lacunas de descrição e sistematização terminológica, obriga o tradutor a recorrer à improvisação, aumentando a complexidade do problema. Aubert (2001, p. 13) explica que a diversidade de termos e dialetos de especialidade ainda não recebeu atenção especial por partes dos estudos dialetológicos. Menciona, como exemplo, a irresolubilidade que permeia entre a conceituação terminológica de chácara, sítio e fazenda.

Também a respeito da relação entre Terminologia e tradução, Cabré (2004) esclarece que ambas apresentam aspectos coincidentes entre si: 1) ambas são práticas tradicionais, embora seu caráter disciplinar tenha sido consolidado recentemente; 2) ambas as áreas são interdisciplinares, uma vez que se baseiam na cognição, na comunicação e na linguística; 3) ambas se originaram devido à necessidade de esclarecer problemas de compreensão e também de representar um pensamento especializado. Nesse sentido, a atividade terminológica surgiu, primeiramente, do intuito de se referir à realidade com maior precisão e, posteriormente, do interesse de cientistas em propor conceitos e denominações fixas para suas pesquisas.

Quanto às contribuições dos instrumentos terminográficos, Krieger explica que recuperam a informação usual, a qual é “aceita coletivamente no que diz respeito tanto ao emprego do termo como ao conceito que veicula. Por isso, são obras de referências de grande significado no conjunto da documentação de apoio de que o tradutor necessita” (KRIEGER, 2006, p. 203).

Dessa maneira, a elaboração de instrumentos terminográficos permite que o tradutor técnico conheça o campo de especialidade em que sua tradução se insere. Krieger acrescenta que o conhecimento mais aprofundado de um domínio técnico facilita o manejo dos termos. Por sua vez, para o tradutor em formação, Krieger (2006, p. 205) aponta que o aprofundamento será vantajoso ao adquirir pelo menos uma base teórica mínima que o faça refletir sobre a constituição, estatuto e funcionamento das terminologias.

A respeito do ensino terminológico, Krieger (2006, p. 204) aponta a importância, para os tradutores em formação, dos conhecimentos de princípios da Terminologia e de exercícios

de elaboração de glossários, com o auxílio de ferramentas e programas que armazenem registros e conceitos terminológicos.

Em razão da escassez de glossários e dicionários especializados em determinadas áreas, Aubert (2001) e Krieger (2006) comentam que os próprios tradutores costumam elaborá-los, uma vez que não encontram materiais adequados ou confiáveis que possam suprir suas necessidades.

De modo a cumprir com os objetivos da presente pesquisa, também é importante abordar algumas considerações à respeito dos glossários que, conforme mencionado anteriormente, mostram-se elementos relevantes para o auxílio da prática tradutória.

Em termos gerais, o trabalho lexicográfico ou terminográfico que se propõe a organizar um dicionário ou, no caso de nossa pesquisa, um glossário, apoia-se em dois pontos básicos para o processo de organização das entradas: a macro e a microestrutura. Conforme explica Haensch (1982, p. 452), a macroestrutura está relacionada à disposição das entradas em ordem alfabética, fato que permite ao público-alvo um acesso prático e eficiente.

A microestrutura, por sua vez, trata da organização de cada verbete ou entrada de um dicionário ou glossário, no sentido de decidir quais são as formas fixas a serem apresentadas. De acordo com Rey-Debove (1971), entende-se por microestrutura todo o conjunto de informações que acompanham a entrada. Andrade (2000) propõe uma estrutura básica de microestrutura, definindo-a como “artigo + enunciado lexicográfico”. Por outro lado, encontramos pesquisas que ampliam a noção de microestrutura, como a proposta de modelo de Barbosa (1989):

Artigo = {+ Entrada + Enunciado lexicográfico (± Paradigma Informacional 1 + Paradigma Definicional, ± Paradigma Pragmático 1 ± Paradigma Informacional 2 ..., ± Paradigma Informacional n )}

Expandindo as noções do modelo proposto por Barbosa (1989), encontram-se no Paradigma Informacional as abreviaturas, conjugação, categoria gramatical, gênero, número, homônimos, pronúncia, entre outros. Em segundo lugar, o Paradigma Definicional é responsável pela descrição dos semas, isto é, dos componentes mínimos de significação. Quanto ao Paradigma Pragmático, encontram-se inseridos na presente categoria as informações contextuais. Cabe mencionar que, para a autora, artigo é o mesmo que verbete.

Também é válido levar em consideração que, dependendo da proposta do projeto léxico ou terminográfico, as informações apresentadas por meio do modelo de microestrutura

em questão são suscetíveis à variação. Na Seção de Metodologia, serão fornecidas informações detalhadas acerca das características do glossário elaborado para este estudo.