O relacionamento de Lúcia com sua mãe é marcado por muitos desentendimentos e não somente pelo fato de ela ter se mudado para Brasília. A paciente relata que atualmente sua mãe possui uma doença degenerativa e varia entre momentos de lucidez e de confusão psíquica. Lúcia permanece com a mesma função vivida durante a infância e a adolescência: cuidar da saúde da mãe, pois apesar de residir em Brasília sempre retorna à sua cidade natal. Ela observa que as dificuldades no relacionamento permanecem e diz: “Ainda é muito difícil cuidar de minha mãe. Sempre tive dificuldades para cuidar dela. É como se a gente nunca chegasse a um
acordo, em nada do que a gente conversa” referindo-se tanto aos cuidados corporais quanto as suas tentativas em fazer companhia para mãe ou dialogar e afirma que os “desentendimentos” sempre estiveram presentes na relação. O relacionamento com a mãe parece pautado nas dificuldades de comunicação, Lúcia pontua: “temos linguagens diferentes” como se raramente encontrassem momentos de entendimento mútuo.
O fato de Lúcia não poder ser ela mesma atualmente parece expressar a sua dificuldade de encontrar e experimentar um espaço onde ela possa ser espontânea como parece explicar as linguagens diferentes com sua mãe. Pode ser que estas linguagens diferentes e as constantes falhas e dificuldades de comunicação tenham sido movimentos vivenciados na relação precoce de Lúcia com sua mãe e é possível entender essas relações olhando para o início da vida do bebê. Winnicott teorizou sobre as peculiaridades do desenvolvimento do bebê e de sua relação com o ambiente e a partir dos conceitos trabalhados no capítulo dois é possível estabelecer possíveis relações entre a vida precoce de Lúcia e suas relações atuais. É possível perceber que talvez essas linguagens podem não ter passado por um período de adaptação, de conhecimento, de harmonia entre a díade mãe-bebê.
Lúcia, ainda bebê, precisava de um ambiente suficientemente bom que se adaptasse ativamente às suas necessidades e que fosse capaz e disponível para reconhecer suas demandas, como revela Winnicott (1987a/2006) sobre o ambiente adequado que um bebê necessita ao nascer. Para tanto, ela necessitava de uma mãe presente e viva física e psiquicamente capaz de entrar no estado de preocupação materna primária e de se relacionar simbioticamente com ela (Winnicott, 1964a/2008, 1979[1963]/2007). Lúcia, ainda bebê, estava em um processo de conquista de seus
atender aos seus próprios ritmos (Winnicott, 1979[1963a]/2007; Granato, 2006). O estado de preocupação materna primária auxiliaria Maria a adaptar-se ao ritmo, à linguagem e ao jeito de Lúcia que inicialmente era um bebê ainda não conhecido por Maria, era como um estrangeiro para ela (Aragão, 2011).
Ferenczi (1992) teoriza sobre as linguagens diferentes entre crianças e adultos. O autor explica que as crianças sentem-se indefesas (física e moralmente) à autoridade esmagadora dos adultos que as emudecem podendo fazê-las perder a consciência. O autor observa que quando o medo da criança atinge sua maior intensidade ela reage automaticamente à vontade do adulto adivinhando seus desejos, obedecendo de forma a esquecer de si mesma e identificando-se totalmente com o adulto – ou seja, o adulto invasivo não permite que a criança possa ser ela mesma. A forma que a criança encontra para sobreviver a essa invasão é obedecendo ao adulto de forma a abrir mão de si mesma e tornando-se semelhante a ele.
Pode ser que em sua vida precoce, Lúcia tenha sentido as demandas de sua mãe como prioridade e sobressaindo as suas próprias demandas. Pode ser que Lúcia tenha sentido uma dificuldade de individuação ficando presa a essa mãe por uma submissão frente a agressividade causada por uma ausência de investimento por parte de sua mãe com a qual Lúcia, enquanto bebê, não pode defender-se, mas apenas identificar-se com a mãe doente e frágil. Desta forma Lúcia reagiu emudecendo, não falando de si mesma, ou seja, as linguagens diferentes podem ter sido sentidas como uma invasão, como uma impossibilidade de Lúcia poder ser ela mesma na relação com sua mãe-ambiente.
Talvez mudar-se ou não para Brasília não tenha sido a questão principal de sua relação familiar, mas sim ter que constantemente provar que não mudou de personalidade, justamente por isso parece haver uma necessidade desesperada de
Lúcia de sentir-se aprovada perante essa família que não aceita a sua tentativa de se movimentar, de poder ser livre em fazer suas escolhas ou que parece não reconhecê-la como alguém que pode diferenciar-se deles enquanto sujeito. Enquanto ela busca por essa aprovação desse outro que não a concede é como se ela estivesse presa e submetida ao desejo dos outros, como descreve Ferenczi.
A partir do relato de Lúcia a mudança para Brasília pode demonstrar uma tentativa de distanciamento da família (ou de sua mãe) que parece não ter reconhecido aquilo que existe de positivo nela. Mudar-se para Brasília parece ter sido uma tentativa de maior individuação que não pôde ser completamente alcançada na relação inicial com as figuras parentais, enquanto a mãe, e esta em sua relativa ausência materna, a mantinha presa numa relação insatisfatória. É assim que Lúcia tem se percebido e, de certa forma, é isso que ela ainda escuta da família: que ela é insatisfatória, que toma as decisões erradas e o que faz não tem valor.
Mudar-se para Brasília foi mais do que uma tentativa de distanciamento, foi uma tentativa de individuar-se, mas nunca pode fazer isso por ainda estar presa na relação de dependência inicial com a mãe, pois Lúcia ainda volta para sua cidade natal para prestar cuidados à sua mãe. Lúcia, pela impossibilidade de defender-se frente à essa mãe ausente psiquicamente, acabou por se identificar com ela criando uma relação de dependência submissa, uma dependência na qual existe uma submissão em relação à função do ambiente. Talvez essa tenha sido a preocupação da família pela possibilidade de Lúcia ir para uma cidade “fria” e “distante”, sem que pudesse proteger-se dessa influência negativa e acabar por identificar-se e tornar-se também uma pessoa fria e distante. Este fato possui certa relação com a vida primitiva de Lúcia, que saiu do útero de sua mãe para ir para uma família "fria e distante" da
materna doente e frágil, "fria e distante". O fato de Lúcia ter se mudado para Brasília pode significar a tentativa de distanciar-se dessa relação submissa com a família, de libertar-se e poder, finalmente, ser a si mesma.