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Formålet bak straffen må ikke tale mot en reaksjon i frihet

O novo século pautou-se por uma intensificação do interesse por parte dos media portugueses para com os assuntos relacionados com as sexualidades não-normativas. Esta intensificação deve-se, em parte, ao surgimento e sedimentação de organizações LGBT, entre elas a ILGA-Portugal (fundada em 1995) ou a Opus Gay (fundada em 1997); estas procuraram, numa fase inicial, chamar a atenção para os problemas discriminatórios que assolavam os grupos LGBT do país. Ao mesmo tempo começaram a surgir, ainda no final da década de 1990, algumas publicações vocacionadas para o público homossexual, das quais destaco a revista Korpus, fundada em 1996 e publicada ininterruptamente até ao inicio de 2007. Assuntos como o casamento gay, homoparentalidade, ou o roteiro de festas e espaços LGBT fizeram o destaque dos vinte e sete números publicados pela revista53.

Paralelamente, as televisões passaram a dar algum espaço aos transformistas ou aos assuntos relacionados com os grupos LGBT em programas como Minas e

Armadilhas da SIC, onde Domingos Machado “Belle Dominique” foi uma figura

burlesca central54. Os programas de Herman José (Herman Enciclopédia, Herman 98 e

Herman 99 da RTP; ou, a partir de 2000 o Herman SIC) passaram a incluir, igualmente,

várias personagens transformistas, também com uma componente burlesca exagerada. O ano de 2005 foi especialmente rico em produções televisivas relacionadas com esta temática. Só na SIC estrearam-se dois programas: Esquadrão G onde quatro personalidades procuravam mudar a aparência de vários desconhecidos; e um reality

show Senhora Dona Lady que tinha como objetivo encontrar o homem melhor

                                                                                                                         

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Para mais informações sobre a Revista Korpus e a respetiva lista de conteúdos vide: http://portugalgay.pt/revistas/korpus/ (acedido a 28 de julho de 2013).

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Entrevista a Domingos Machado num programa de televisão especial comemorativo dos 35 anos de carreira de Belle Dominique. “Portugal no Coração”, RTP1. Sítio na internet:

disfarçado de mulher. As baixas audiências do último contribuíram para o seu cancelamento na segunda semana de exibição. Já Esquadrão G gerou um conjunto de polémicas sociais e políticas (apoiadas em particular pelo Partido Nacional Renovador) através de um abaixo assinado por um “grupo de cidadãos indignados com a crescente propaganda explícita ao modo de vida gay” intitulado “Não és homem não és nada”; tinham como objetivo impedir a exibição do programa na estação de Carnaxide. Não obstante estes protestos o programa foi para o ar55. No mesmo ano a TVI exibiu

Ninguém como Tu (NBP), a primeira telenovela portuguesa a integrar nos seus roteiros

algumas personagens gays ou bissexuais. Posteriormente a temática foi também adotada numa outra produção destinada a um público alvo mais jovem, em Morangos com

Açúcar. É com base nesta exposição mediática que se constrói nos media uma nova

imagem do gay, desta vez como um personagem do quotidiano e aberto em relação à sua homossexualidade; e não um marginal como dantes.

Esta exposição não se cingiu apenas ao pequeno ecrã. Ainda em 2005 estreou nos cinemas Odete (Rosa Filmes), um filme de João Pedro Rodrigues que retrata, através de algumas imagens sexualmente sugestivas a obsessão e o lado mais obscuro da noite gay lisboeta. João Pedro Rodrigues voltou a tocar na temática em Morrer Como Um Homem (Rosa Filmes) de 2009, um filme que conta a história de um transformista no fim de carreira que vive na dúvida se deve ou não mudar de sexo. Temáticas como género, sexualidade, jogos de poder entre os transformistas, drogas e VIH são pontos amplamente focados num argumento inspirado na história real de “Ruth Bryden”, personagem de Joaquim Centúrio de Almeida que chegou a ser cabeça de cartaz no Finalmente Club. Esta produção conta com a participação de dois atores transformistas atualmente aí residentes: Fernando Santos como protagonista, e Jenny Larrue como coadjuvante56. Esta não foi a primeira vez que a história Bryden foi romanceada. As trágicas circunstâncias da sua vida e morte deram origem a vários textos e livros, entre eles Ruth Bryden – A Rainha da Noite por Carlos Castro em 2000 e Que Farei Quando

Tudo Arde de António Lobo Antunes em 2001.

Também na década de 2000 surgiu um conjunto de novos sistemas de

                                                                                                                         

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Notícia de Paula Mourato publicada no Diário de Notícias a 11 de setembro de 2005. Sítio na Internet: http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?content_id=622015&page=1 (acedido a 28 de julho de 2013). 56

Para mais informações sobre os filmes “Odete” e “Morrer Como Um Homem” vide o sítio oficial da produtora “Rosa Filmes”: http://www.rosafilmes.pt (acedido a 28 de julho de 2013).  

comunicação e redes sociais com vista a optimizar o contacto entre homossexuais masculinos; os sites e aplicações mais famosos deste tipo em Portugal são Manhunt57 e

Grindr58. Publicitados como meios rápidos, discretos e anónimos, estas aplicações permitem o encontro de homens com homens, organizados com base em vários fatores, designadamente a proximidade. Algumas das discotecas do Príncipe Real, nomeadamente o Bric ou mais recentemente o Construction Club fazem festas temáticas

Manhunt, que procuram promover a rede social sedeada na World Wide Web e nas

aplicações móveis. Apesar da crescente popularidade destes meios de comunicação, as discotecas e os bares do Príncipe Real e Bairro Alto continuaram a desempenhar uma importante função em prol do entretenimento e da procura de parceiros sexuais entre a “comunidade homossexual”, como nota “Simão” (nome fictício), 36 anos, cliente assíduo desses espaços: “O engate na discoteca tem inúmeras vantagens em relação ao engate nas redes sociais. Nas discotecas é imediato; vês as pessoas como realmente são e não em fotografias que se calhar nem são representativas do que elas são no dia-a-dia. Na discoteca não há enganos; ou é ou não é. Já pelas redes sociais podes ser hipócrita”59.

No inicio da década de 2000 começava-se já a desenhar o contemporâneo mapa noturno gay. O Trumps e o Bric começavam a abandonar os espetáculos de transformismo em prol de outras formas de entretenimento menos dispendiosas; outros espaços começaram a fechar ou a mudar as suas políticas performativas. O Bric fechou no final de 2011, voltando a abrir em março de 2012 com o nome Construction Club, sob a tutela de novos administradores. Perante este contexto de intensas mudanças, o Finalmente Club manteve-se inalterado, tornando-se no único estabelecimento que continuou a oferecer espetáculos de transformismo diários. Após a morte de “Barloff” de José Manuel Rosado e “Bryden” de Joaquim Centúrio de Almeida, “Deborah Krystal” de Fernando Santos ascendeu a cabeça de cartaz do estabelecimento no ano 2000, mantendo o seu cargo ininterruptamente até a atualidade e tornando-se assim na principal figura do transformismo em Portugal, um titulo confirmado por vários artistas da área, nomeadamente pelo pioneiro Carlos Ferreira “Guida Scarllaty”:

                                                                                                                         

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Sítio oficial do Manhunt: http://www.manhunt.net (acedido a 28 de julho de 2013). 58

Sítio oficial do Grindr: http://grindr.com (acedido a 28 de julho de 2013). 59

Entrevista a “Simão” (nome fictício), cliente de estabelecimentos do Roteiro Gay de Lisboa (17 de maio de 2013, Lisboa, 19:00).

“Alguém escreveu no meu facebook algo do tipo “Deborah Krystal é a Guida Scarllaty do século XXI” – eu acho que sim, concordo plenamente. Apesar de ele nunca ter trabalhado comigo, porque ele é bastante mais jovem do que eu, acho que por telepatia ou porque lhe contaram…[risos] acabou por adquirir um estilo parecido ao meu. Mas eu acho que é algo mesmo dele – ele é extremamente criativo, tem um poder de comunicação muito bom e tem já muita prática… tem já uns vinte e tal anos de carreira e é realmente o personagem no qual eu me revejo”60.

Paralelamente surgiu uma necessidade de reafirmar o transformismo como uma prática artística de relevo através, por exemplo, da realização de um workshop de formação teatral e artes performativas de transformismo com o título “Basic Actor’s Transform” que teve lugar no Teatro Mário Viegas entre 5 de dezembro de 2011 e 2 de março de 2012, destinado a quem quisesse adquirir formação em teatro ou em espetáculos de travesti. O referido workshop contou com a participação especial de Carlos Ferreira e Fernando Santos61.

Foi neste âmbito que o Finalmente Club deixou a sua marca em Portugal: surgiu no meio das convulsões políticas do pós-revolução de abril, vivenciou noites de muito sucesso, atravessou a crise do VIH, assistiu ao emergir de novas estéticas concorrentes na década de 1990, sobreviveu à forte concorrência multilateral de três décadas até que, finalmente, se emancipou como “a casa” do transformismo em Portugal – a única que oferece espetáculos todos os dias – 365 dias por ano. Nos últimos dez anos, já sob a supervisão de Santos, o seu público tornou-se extremamente heterogéneo, variando grandemente de noite para noite. O baixo valor do consumo obrigatório (6 euros) também contribuiu para todo este processo. Alguns meses antes de falecer, Armando Teixeira (fundador e até então proprietário do Finalmente Club) vendeu o espaço a um arquiteto espanhol. Uma das condições acordadas no processo de venda foi que a estrutura de funcionamento da casa se mantivesse intacta: o mesmo tipo de espetáculos, os contratos dos artistas e funcionários, entre outros. Após o atual dono ter adquirido o espaço ao lado do Finalmente Club (uma antiga leitaria), coloca-se a possibilidade de alargar a pista. Equaciona-se a vantagem de alargar o espaço ou, ao contrário, manter os clientes com os corpos colados uns aos outros no reduzido espaço de 25 metros

                                                                                                                         

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Entrevista a Carlos Ferreira no programa “Há Conversa”, RTP Memória (16-12-2011). Sítio na internet: http://www.youtube.com/watch?v=WwfEnQ_ehOY&feature=share (acedido a 28 de julho de 2013). 61

quadrados62. “Na dúvida é melhor deixar como está”, refere Fernando Santos; “afinal uma estrutura vencedora deve permanecer inalterada”63.