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Forklaringer til artene 100 til 195

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9.3 Artsserie 1/2 – Kjøp av varer og tjenester som inngår i egen produksjon

9.3.2 Forklaringer til artene 100 til 195

Um racionalismo consistente não pode abolir a contingência da história e da interação social, pelos quais evoluem e se constroem as línguas reais106. Sylvain Auroux

Auroux (1998) defende que todos os sistemas linguísticos são subdeterminados gramaticalmente. Isso quer dizer que, segundo a sua perspectiva, não há nenhum sistema simbólico passível de dar conta de todas as produções linguageiras em uma dada língua. Sendo as frases gramaticais abstrações produzidas institucionalmente por um saber metalinguístico com finalidade normativa, não é possível deduzi-las a partir daquelas realizadas em uma dada situação de troca linguageira. Cotidianamente, são inúmeras as produções sintáticas, morfossintáticas ou morfológicas “defeituosas”, sendo que a maior parte delas acaba por ser enquadrada nos “barbarismos” definidos pelos padrões normativos da língua, frutos de um saber metalinguístico gramatizado responsável por “autorizar” os bons e os maus usos linguageiros.

Se considerarmos que a “língua” é uma criação histórica, sujeita às variações de uso por grupos e pela temporalidade, nenhuma regra gramatical seria capaz de encerrar todas suas

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Citação no original : « un rationalisme consistant ne peut abolir la contingence de l’histoire et de l’interaction sociale, par quoi évoluent et se construisent les langues réelles » (AUROUX, 1998, p. 100).

possibilidades de uso a prioristicamente. Nada no âmbito da linguagem parece impedir que todos os elementos linguísticos sejam provenientes, em última instância, de uma criação contingente. A criatividade, portanto, não estaria alocada na “natureza” do ser, mas na própria história, que tornaria possível os usos da linguagem pelos diferentes sujeitos (incluindo aqueles usos que possam ser considerados “incorretos”) e as estabilizações possíveis que, por ventura, venham a se tornar normas através do saber gramatical. Um ato do discurso, qualquer que seja, só é passível de ser interpretado, de obter eficiência comunicativa, quando avaliado no interior de uma sequência histórica totalmente contingente. O que significa que é a história/a temporalidade a instância criativa, e não os sujeitos em si (AUROUX, 1998).

Assim, Auroux (1998) defende duas hipóteses importantes para a sua perspectiva externalista, a hipótese da história, a qual supõe que a temporalidade é criativa, e a conjectura

sociológica, a qual defende que os processos cognitivos não estão presentes nos indivíduos

em si, mas nas interações existentes entre eles. Se somarmos as diferentes hipóteses aventadas pelo autor, quais sejam, as ferramentas linguísticas, a subdeterminação gramatical, a hipótese da história e a conjectura sociológica, podemos chegar à máxima que Auroux (1998, p. 112) define da seguinte forma:

Qualquer que seja a gramática que você construa para explicar as produções de um grupo de sujeitos, admitindo que você possa verificar o maior grau de adequação desejado entre os outputs da sua gramática e os fenômenos, então se produzirá em dado momento fenômenos para os quais ela será inadequada, sem que com isso seja impossível de encontrar uma outra gramática adequada ao mesmo grau concernente a esses fenômenos107.

Isso não impede, no entanto, a possibilidade de uso do cálculo nas representações linguísticas, o que nos leva a duas conclusões importantes: primeira, o fato de se negar uma visão que coloque a criatividade no âmbito da recursividade linguística linear, como uma espécie de sistema lógico inato, não impede que os seres humanos sejam capazes de internalizarem raciocínios lógico-matemáticos para resolverem determinados problemas. Isso demonstra apenas que o cálculo não é inato, mas que pode ser internalizado como sistema simbólico, assim como é o caso da própria língua(gem). Curiosamente, sendo os algoritmos uma espécie de instrumento técnico (hipótese das ferramentas linguísticas), eles podem

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Citação em francês : « Quelle que soit la grammaire que vous construisiez pour expliquer les productions

d’un groupe de sujets, en admettant que vous puissiez vérifier le plus grand degré d’adéquation voulu entre les

outputs de votre grammaire et les phénomènes, alors il se produira à un moment donné des phénomènes pour

lesquels elle sera inadéquate, sans que pour autant il soit impossible de trouver une autre grammaire adéquate au même degré concernant ces phénomènes » (AUROUX, 1998, p. 112-113. Tradução nossa).

abandonar, em parte, a sua “natureza mental”, pois seriam artefatos humanos criados na/pela linguagem e institucionalizadas pelos diversos grupos do saber; segunda, desconsiderar que os modelos lógico-matemáticos possam dar conta da totalidade do funcionamento da linguagem, avaliada sob a perspectiva de regras, axiomas e algoritmos finitos que tornam possível a infinidade de produções, não implica que a Linguística deva abandonar as tentativas de formalização da linguagem por meio de modelos automatizados, apenas que esses modelos formais não podem ser reduzidos à forma da própria linguagem. Como destaca Auroux (1998), toda tentativa exitosa de formalização da linguagem é um avanço para o campo das Ciências da Linguagem, mas levar em consideração essa não-redução dos processos formais da Ciência ao funcionamento da linguagem nos possibilita abandonar uma série de raciocínios metafísicos, os quais podem mais atrapalhar do que ajudar.

Ao contrário do que postulam os racionalistas, as atividades de cálculo nas línguas naturais desempenham o oposto à criatividade humana. Elas não são, portanto, as responsáveis pela inovação das “formas”, mas, sim, pela manutenção delas, por aquilo que se fixa, se estabiliza e se convenciona. Mesmo que as convenções possibilitem que os enunciados proferidos possam prescindir de uma “certa dose” de passado. Em vez de postular a existência de regras homogêneas presentes em todos os falantes de uma dada língua, seria mais produtivo enveredar pela construção de modelos interativos que possam se deter sobre as diferentes competências dos sujeitos, haja vista que eles possuem histórias de vida diferentes. Cada sujeito, portanto, está submetido a uma espécie de confrontação com o tempo, de modo que está apto a desenvolver novas competências, a “apreender” novas regras e a se utilizar de novas estruturas linguísticas. Cada ato do discurso só pode ser compreendido, em última instância, a partir do seu enquadramento em uma sequência linguística historicamente materializada, logo, completamente contingente (AUROUX, 1998). Esse raciocínio é coerente com o de Orlandi (2009, p. 9) quando a pesquisadora afirma:

Para alguns, o já-dito é fechamento de mundo. Porque estabelece, delimita, imobiliza. No entanto, também se pode pensar que aquilo que se diz, uma vez dito, vira coisa no mundo: ganha espessura, faz história. E a história traz em si a

ambiguidade do que muda e do que permanece.

Nessa acepção, a história é a fonte das ambiguidades e permanências. Auroux (1998) vai ainda mais longe ao afirmar que, em uma perspectiva de longo prazo, toda e qualquer análise racionalista terminará por ceder a uma abordagem empirista, a qual leva em consideração a contingência histórica e as interações sociais, responsáveis por possibilitar a

construção das línguas reais. Sendo estas compostas por um conjunto indefinido de emissões linguísticas geradas pela interação de um conjunto de sujeitos (não-descritível por uma abordagem estritamente extensional) “aptos” a se comunicarem com um grau considerado de intercompreensão, embora jamais possa ser absoluto.

Se a criatividade não se reduz ao indivíduo, podemos afirmar, então, que a própria cognição não o faz. Isso nos levaria a uma releitura radical do conceito, que, por vezes, é reduzida às capacidades inatas dos seres humanos. A instrumentalização do mundo pelos humanos só é tornada possível pela própria relação que os sujeitos estabelecem com ele. Isso quer dizer que seria impossível, por exemplo, contar se não tivéssemos as coisas a serem contadas. É da relação que se estabelece entre os sujeitos entre si com o ambiente no qual eles interagem que emerge, se difunde e se interioriza o próprio conhecimento. Não haveria conhecimento se não houvesse o mundo a ser conhecido, categorizado e organizado, etc.

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