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Como tendência, o método científico tem sido considerado como “verdadeiro” quando se formulam hipóteses, as quais são testadas diversas vezes e por vários pesquisadores, buscando-se a generalização. Para o senso comum, e também para segmentos da área acadêmica, os métodos científicos devem conduzir a resultados exatos, o que não é necessariamente verdade. Considera-se que, por exemplo, entrevistar somente vinte pessoas

não é suficiente, representativo, porém a representatividade é relativa e esta varia de acordo com o que se pretende pesquisar.

Há diferentes correntes de pensamento entre os pesquisadores das áreas de ciências naturais e de ciências humanas ou sociais, gerando questionamentos sobre o que de fato é ou não ciência. Nesse contexto, entram em cena a caracterização das pesquisas em quantitativas ou qualitativas e a validade de seus métodos.

Os métodos qualitativos são especialmente utilizados em pesquisas da área das ciências sociais, para a qual o conceito central é o significado. Sem o intuito de enumerar ou medir eventos, o foco da pesquisa qualitativa é amplo, tendo como objetivo a obtenção de dados descritivos mediante o contato direto e interativo do pesquisador com a situação objeto de estudo (GIOVINAZZO, 2001). A preocupação em quantificar é substituída pela necessidade de lograr explicações das relações sociais consideradas essência e resultado da atividade humana criadora, afetiva e racional, que pode ser apreendida através do cotidiano, da vivência e da explicação do senso comum. Isso, conforme Minayo (2004, p. 72), implica considerar sujeito de estudo: “gente, em determinada condição social, pertencente a determinado grupo social ou classe, com suas crenças, valores e significados. Implica também considerar que o objeto das ciências sociais é complexo, contraditório, inacabado, e em permanente transformação”.

As estratégias utilizadas em pesquisas qualitativas envolvem, principalmente, a análise do comportamento de pessoas ou grupos por meio de observação ou entrevistas, gerando dados básicos para o desenvolvimento das relações entre os atores sociais e sua situação. Contudo, nem todos os estudos qualitativos envolvem conversas com pessoas ou observação das mesmas. As informações pesquisadas podem ser oriundas da investigação de características humanas ou evidências de atividades humanas. São freqüentes os estudos de textos, tais como jornais, livros e revistas, programas de televisão e gravações visando à identificação de características comportamentais (BAUER e GASKELL, 2003).

A metodologia qualitativa de pesquisa tem sido bastante adotada, conforme se verificou em pesquisa bibliográfica, em vários campos do conhecimento – saúde, demografia, educação, sociologia, antropologia, história, ciências políticas, etc. –, com a aquisição de resultados de grande interesse, os quais podem suscitar importantes revelações para outras áreas do conhecimento. Verifica-se assim, a amplitude do alcance da metodologia qualitativa de

45 pesquisa e a possibilidade de direcionar estudos para a revelação de aspectos de grande importância para nossas sociedades.

Não se tenciona aqui trazer à tona a discussão relativa aos méritos ou dificuldades e problemas destas duas perspectivas metodológicas de pesquisa. No entanto, vale frisar a relevância de cada uma, e, principalmente, a possibilidade da integração entre ambas.

Apesar de as metodologias qualitativa e quantitativa distinguirem-se quanto à forma e à ênfase, é importante frisar que, na maioria dos casos, elas não são excludentes, uma não prescinde da outra. Ao contrário, são complementares, e a possibilidade de mesclá-las é considerada ideal para uma pesquisa que se pretenda a mais completa possível. Enquanto o método qualitativo permite o aprofundamento do que acontece no particular, o método quantitativo possibilita verificar a extensão desse acontecimento. A discussão crítica do conceito de metodologias qualitativas induz a pensá-las não como uma alternativa ideológica às abordagens quantitativas, mas como uma forma de aprofundar o caráter social e de lidar com as dificuldades de construção do conhecimento que o apreendem de forma parcial e inacabada (MINAYO, 2004; SILVA, 2007).

Segundo Martins (2004), uma característica que constitui a marca dos métodos qualitativos é a flexibilidade, principalmente quanto às técnicas de coleta de dados, incorporando aquelas mais adequadas à observação que está sendo feita.

Como principais estratégias da pesquisa qualitativa – incluindo obtenção e análise de dados – podem ser destacadas as seguintes (ESTERBERG, 2002; MINAYO, 2004; FLICK, 2004):

Observação – adotada quando se deseja entender como pessoas se comportam em uma situação específica ou se objetiva o entendimento de uma cultura ou grupo em particular; Entrevista – de forma estruturada ou não-estruturada, a entrevista mostra-se viável quando

se deseja conhecer o que pessoas pensam ou sentem com relação a algum assunto;

Análise de Conteúdo – não requer a presença física do pesquisador e não envolve conversas ou observação de pessoas; consiste de exames relativos a características humanas ou evidências de suas atividades em textos, publicações, gravações (sonoras e (ou) visuais), documentos, etc.;

Análise do Discurso – técnica oriunda da área da lingüística; está relacionada às palavras que são usadas, e como, onde e de que forma são usadas para transmitir o que se deseja. A análise do discurso pode consistir de uma análise de conteúdo, mas não necessariamente; o conteúdo pode ser analisado sem que o foco seja a forma como o discurso é empregado e sim a idéia que representa.

Discurso do Sujeito Coletivo - é uma técnica de tabulação e organização de dados qualitativos que resolve um dos grandes impasses da pesquisa qualitativa na medida em que permite, através de procedimentos sistemáticos e padronizados, agregar depoimentos sem reduzi-los a quantidades. Em síntese, permite fazer uma coletividade falar, como se fosse um só indivíduo (LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2003).

Triangulação – adoção de duas ou mais estratégias de pesquisa para a coleta e/ou análise de dados, visando obter resultados para tornar a pesquisa a mais completa possível.

Os métodos qualitativos têm sido cada vez mais explorados e sua aplicação flexibilizada. Tanto a utilização de um único método isoladamente, quanto a conjugação entre dois ou mais, são possibilidades a serem consideradas para uma pesquisa, sendo que a possibilidade de integração entre as técnicas, desde que aplicadas com os critérios exigidos, pode enriquecer a aquisição de dados e os resultados de uma pesquisa.

O material obtido por meio de técnicas qualitativas de pesquisa apresenta uma variedade que exige do pesquisador uma capacidade integrativa que, por sua vez, depende do desenvolvimento de uma capacidade criadora e intuitiva. Na disciplina de métodos de pesquisa qualitativa o ensino da análise dos dados – ou seja, da forma de se atribuir significado a eles – constitui a maior dificuldade, sendo mais fácil o ensino da coleta dos dados ou da realização dos trabalhos de campo (MARTINS, 2004).

Silva (2007, p. 74) destaca um trecho de autoria de Sá (1998, p. 85) acerca da metodologia para estudos de representação social, que, no entanto, pode ser empregado para se referir à pesquisa qualitativa, qual seja,

trata-se de um campo que ainda permite – e solicita mesmo – algo como um espírito de aventura na perseguição do conhecimento científico. Não há nele procedimentos cristalizados, cuja não-observância possa resultar na imediata exclusão de alguém do rol de ‘pesquisadores sérios’. O que se exige é uma seriedade autêntica no engajamento do pesquisador em sua própria aventura metodológica.

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