bokhoidere i fiskebransjen,
I, Forklaring av uttrykk
Sem ter a mínima pretensão de fechar questões aqui, mas de tencionar, de provocar e, ao mesmo tempo, de contribuir minimamente no debate de algumas questões que me incomodam e que falam de existências múltiplas nas formas de ser gay na cidade de Fortaleza é que compartilho minhas reflexões, tornando-as conhecidas no intuito de que as mesmas sejam fonte geradora de novas questões, de novos embates, apontando sempre para caminhos, para fluxos, para trânsitos, para linhas de fuga, para possibilidades, para devires em um eterno
continuum...
Apropriar-me do espaço da boate Meet - Music & Lounge como um lugar de um estar junto gay específico ilumina o modo de pensarmos nossa cidade e como esses espaços de sociabilidade que se dizem autorizados para um determinado público reconfiguram a mesma, em um movimento contínuo de desterritorialização e reterritorialização.
A boate MEET emerge, portanto como um empreendimento gay que gera lucro, atrai turistas e cria identificações com um público específico, procurando manter uma identidade que se pretende ser uníssona e coerente. Além de entender a boate como um espaço de negócio, minhas reflexões procuram contemplar a Meet sob o âmbito do simbólico e do político de território em que se torna possível agenciamentos de diferentes identidades.
Desde a fila, perpassando pelos banheiros, pelo lounge, pelo bar e por outros espaços da casa vai configurando, ou melhor, formatando uma identidade que se performatiza no corpo do MEETIDO. Corpo este que emerge na casa como espaço de lutas e investimentos. O corpo do MEETIDO é um corpo regulado, um corpo-autômato, um corpo-conformado. A construção do corpo do MEETIDO se articula com o capital aparência (apresentação) e com a performance (representação) e "ganha o mundo", se agiganta no interior da boate. Esse corpo se apresenta no território meetiano como um corpo submetido a constante vigilância, um corpo que só existe sob a mediação da regulação. Regula-se a si mesmo e ao outro a partir da dinâmica do olhar. O olhar vai mapeando os sujeitos, estabelecendo limites e possibilidades, apontando para comportamentos que são bem vistos e bem aceitos e outros que são ojerizados. Além do olhar, espaços e objetos se tornam objetivados para regularem os comportamentos e manterem essa dinâmica. Os espelhos se encontram, assim, nessa categoria de objetos presentes na casa e que dada a sua existência em vários espaços da boate vão atuando como elementos deflagradores de uma identidade que se apresenta como uma identidade de centro e outra que se corporifica sob os significantes da margem. Os banheiros
como um desses espaços, estabelecem dinâmicas diferentes que são particulares dada as singularidades desse lugar. Os banheiros acabam agenciando outras formas de encontro que em outros espaços da boate não são possíveis. Os banheiros permitem o trânsito dos corpos em um perímetro menor, o que permite que os corpos, mesmo que não queiram, se aproximam, se tocam. Os banheiros seriam assim espaços que possibilitam um entrecruzamento das identidades de centro e de margem, misturando corpos, lugares, símbolos, identidades... São nos banheiros, assim, que se cruzam histórias, intimidades, olhares, paqueras, jogos... Os banheiros são esses espaços de convergências, encontros marcados por trânsitos e por possibilidades que não possíveis em outros microterritórios da boate.
Além da dinâmica dos banheiros, outros espaços vão possibilitando encontros de naturezas diferentes que são mediados pela batida da música, pelos reflexos dos espelhos, pelo olhar do outro, pelos jogos de sedução... Encontros que são marcados pelo signo do comedimento, da polidez. O encontro dos Gays MEETIDOS de Fortaleza apresenta um tom de fixidez, de estaticidade, de representação. As performances que ali são engendradas vão tolhendo o movimento dos corpos que se autorregulam para estrearem uma identidade que ―veste‖ os signos de um está discreto, de um está machudo, revelando a natureza de um encontro que se pretende só entre Homens Gays MEETIDOS. Sendo assim, tudo aquilo que culturalmente está associado a possibilidades de transgredir em relação ao modelo do macho, imposto por uma cultura heteronormativa é reproduzido, é simulado, é parodiado.
Tolher-se, simular-se, representar-se tanto por meio do corpo, como da imagem, como da performance são, portanto, pré-requisitos para que o encontro se efetive. Entretanto, esse encontro nem sempre ocorre de modo tranquilo ou sem muitos transtornos. Vez por outra emerge uma identidade fronteiriça, que desafia as normas de regulação que ali são impostas. Essas ―margens‖ identitárias são marcadas por símbolos, expressos em roupas, estilos e performances. São identidades plásticas, abertas, processuais, que se montam e desmontam-se com certa fluidez, pois são reconhecidas por seu caráter autocriador. São identidades- estilistas-de-si-mesmas. São queers. São ―viados‖, drags, travestis, transexuais, e todas as demais identidades que lhe são negadas sua existência. Sujeitos marcados pela abjeção, pela intolerância, como também por uma reinvenção contínua de si, expressas nas instabilidades, nas fraturas, em um não conformismo sem fim com a ideia de uma identidade fixa e permanente que os levam a utilizar seus corpos como eternos espaços de experimentação.
Os queers são sujeitos a quem foram atribuídos uma vida relegada, sujeitos expatriados de uma cultura que se pretende inteligível, cindida por binarismos que tentam reduzir a todo custo o repertório de possibilidades de ser e estar no mundo.
Sendo assim, a boate então se caracteriza como um lugar em que sujeitos são educados, corpos são docilizados, aparências são homogeneizadas e performances conformadas, emergindo como um território gay na cidade de homens gays cults, homens gays discretos, homens gays distintos. A casa possibilita, a partir de uma análise de seus sentidos simbólicos, diálogos com a classe, a partir dos lugares sociais dos sujeitos e do elemento que identifica sua representação identitária mais corroborada; com o gênero, a partir dos investimentos expressos em uma forma de pedagogia da identidade MEETIDA, reproduzindo no seu território uma lógica uníssona de ser homem. Pois ser homem em território meetiano está estritamente associado a processos que envolvem uma educação que só tem sentido de ser corporificada nos corpos-aparências-performances do MEETIDO quando se pensa que essa identidade será construída para ser apresentada, para ser vista.
Ser Homem então nesse espaço quer dizer suprimir o feminino, negá-lo, pois o feminino se configura como elemento ameaçador das identidades ―machudas‖ que se pretendem másculas e viris, distantes de todas as representações efeminadas que acabam por transformar esse ―Homem com H‖ em viado, em bicha, em um menos MEETIDO. Assim, em território meetiano, ser um Homem Masculino é negar seus jeitos femininos, pois é isso que torna o homem em Homem, autenticando com a marca do MACHO.
Portanto, não pretendendo achar que etnografando e produzindo algum tipo de conhecimento nos torna mais aliviados em relação ao peso que os atravessamentos que o ―observar o observar‖ desempenham em nossos espíritos, espero que essa pesquisa não produza algum tipo de história, marcada pela fixidez e limitada no tempo e no espaço. São geografias que quero que marquem esse trabalho, revelando caminhos, percursos que nos conduzam a diferentes lugares e provoque em nós uma permanente situação de mal-estar frente aquilo que pretende se colocar como realidade pronta e acabada. Se o trabalho cindir, confundir, embaraçar, desconstruir, tencionar, provocar, perturbar, produzindo, assim, sensações correlatas, considero-me parcialmente satisfeito. Para não concluir, que venham os devires para nos revelar que as existências são precisam ser nomeadas para serem existências, pois é só partir das diferenças que tornamos menos pesada a nossa existência, afinal de contas, todos nós nascemos nus, só depois que a gente vira drag.