4. ELEMENTOS ESTRUCTURALES
4.3. FORJADOS
Para deixar claro o sentido da expressão “hermenêutica filosófica” que vai ser usada neste texto, é preciso explicitar os diversos sentidos adquiridos pela hermenêutica na história da filosofia, e até no âmbito do direito, no qual a expressão, sem o adjetivo “filosófica”, possui inegável caráter metodológico. Quero dizer com isso que a hermenêutica é sempre uma técnica de desobstrução do sentido de textos escritos; no direito, é reconhecida como um método utilizado para alcançar o sentido da lei. Na filosofia tradicional é pensada também como um método de extração do sentido do texto, como uma técnica auxiliar do intérprete. Mas, a partir da fenomenologia hermenêutica de Martin Heidegger, passa a ser vista como uma verdadeira ontologia, tornando-se ínsita ao próprio existir, isto é, compreender o mundo circundante é atividade natural mesma do sujeito.
Com a reviravolta linguística, a linguagem é concebida como o medium em que se unem o eu e o mundo originariamente existente. Essa concepção permite compreender a linguagem como o centro das atenções para a hermenêutica filosófica. A estrutura especulativa da linguagem, considerada por Gadamer como um constante “vir- à-fala”, é quem dá à hermenêutica filosófica uma conotação universal, pois a estrutura ontológica da linguagem é comum a todos. A estrutura especulativa da linguagem é concebida a distinção entre “ser em si e representar-se”222: ela vale por si, mas também
possui a capacidade de falar sobre si mesma, isto é, de se representar. Por isso, Gadamer afirma que o mundo especulativo da linguagem é o que conduz a “seu significado ontológico universal”223.
Para Gadamer, a crítica da “consciência estética, quanto da consciência histórica” tornou possível reconhecer a linguagem como esse medium universal. Por isso, ele entende que, com a linguagem, ultrapassou-se a simples crítica “para adquirir a dimensão de um questionamento universal”224; assim, a “relação humana com o mundo
tem o caráter da linguagem de modo absoluto”, razão por que a hermenêutica acaba
222 GADAMER, 2005, p. 613. 223 GADAMER, loc. cit. 224 GADAMER, loc. cit.
sendo “um aspecto universal da filosofia e não somente a base metodológica das chamadas ciências do espírito”225, possibilitando o giro hermenêutico.
Para Gadamer, a partir da linguagem reconhecida como tal, “o procedimento objetivador do conhecimento da natureza e o conceito do ser em si” são resultados de mera abstração – afinal, “essa abstração procura assegurar o ente”, organizando metodologicamente o conhecimento226. Portanto, na crítica feita ao método, Gadamer afirma que é impossível um conhecimento que se assegure de forma abstrata confiando apenas na linguagem como meio de garantir esse conhecimento; ora, esse tipo de trabalho dirige-se à linguagem vendo nela apenas um “ente”, e não o seu ser, que para nós é a capacidade especulativa da linguagem e a possibilidade de se adequar, quase instantaneamente, ao mundo-da-vida227, com maior rapidez do que o simples método. A visão equivocada da hermenêutica tradicional – ou, por assim dizer, da ciência atual228–
reside em querer organizar metodologicamente o conhecimento em estruturas discursivas e dar-lhes um caráter de racionalidade transcendental.
Se a hermenêutica era encarada como uma técnica ou uma arte, como era de se esperar numa época dominada pela ciência, a hermenêutica tendia, de fato, para transformar-se uma espécie de metodologia científica229. Ocorre que Gadamer deu-lhe uma configuração diferente, reconhecendo seu caráter ontológico. Quem faz essa “virada” é Heidegger, mas quem a aprofunda é Gadamer em Verdade e Método.
Gadamer, por exemplo, anteviu na “hermenêutica romântica” o momento em que a hermenêutica ganha condições de estruturar-se. De fato, não descura das contribuições de Ranke, J. C. Droysen e Schleiermacher – para Gadamer, os representantes do método hermenêutico da Idade Moderna. Gadamer traça este recomeço (o da hermenêutica) – que chama de “redescobrimento” – a partir do interesse teológico e do filológico. Tanto o primeiro, quanto o segundo autores citados acima, tinham por objetivo “desvendar o sentido original dos textos através de um
225 GADAMER, 2005, p. 631. 226 Ibid., p. 614.
227 Ibid., p. 332.
228 É impossível aqui não se pensar no exemplo da Teoria Pura do Direito, de Hans Kelsen, que segue
esse esquema, apelando até mesmo para uma norma lógico-transcendental.
229 Isso, entretanto, não deixou de acontecer ante a existência, na Alemanha, de correntes hermenêuticas
objetivas, que privilegiam a coleta de dados empíricos. Consulte-se, como informação ilustrativa, WELLER, Wivian. A Hermenêutica como Método Empírico de Investigação. Disponível em <http://www.anped.org/br/reunioes/30ro/trabalhos/GT17>. Acesso em: 10 jun. 2010.
procedimento de correção quase artesanal”230, fossem esses textos a Bíblia ou textos da
literatura clássica.
É Schleiermacher que propõe a ideia de uma hermenêutica universal, com base na experiência de que a estranheza e o mal-entendido são universais. Daí nasce, por sua vez, a noção que orientará a hermenêutica gadameriana, que é a noção de compreensão. Com Schleiermacher, Gadamer aprende que compreensão é entendimento: “significa, de princípio, entender-se com os outros”231. Portanto, a partir do mal-entendido ou da
estranheza, desenvolve-se um processo de entendimento, na busca de se alcançar um acordo. É quando, segundo o próprio Gadamer, “o verdadeiro problema da compreensão aparecerá”, possibilitando que se faça “o esforço de compreender um conteúdo”, no afã de saber “como o outro chegou à sua opinião”232.
Partindo da noção de mal-entendido, que para ele não é a mesma coisa que incompreensão, Schleiermacher esboça um projeto universal para a hermenêutica, que consiste na tentativa de evitar o mal-entendido entre as pessoas. Nesse instante, segundo Gadamer, “a hermenêutica se eleva à autonomia de um método”233, e Schleiermacher
estabelece “um cânon de regras gramaticais e psicológicas de interpretação que se afastam completamente de toda ligação dogmática de conteúdo, inclusive na consciência do intérprete”. Portanto, o que vemos pela ótica de Gadamer, na história da hermenêutica tradicional, é a tentativa de Schleiermacher de “isolar o procedimento do compreender, trata-se de torná-lo autônomo com uma metodologia própria”234. “A
contribuição mais genuína” de Schleiermacher – que é a interpretação psicológica, técnica que mais tarde vai, provavelmente, influenciar Savigny235 – é descrita desta forma:
A hermenêutica abrange a arte da interpretação gramatical e psicológica. Mas o que há de mais próprio em Schleiermacher é a interpretação psicológica. É, em última análise, um comportamento
divinatório, um transferir-se para dentro da constituição completa do escritor, em conceber o ‘discurso interno’ da feitura da obra, uma reformulação do ato criador236.
230 GADAMER, 2005, p. 242. 231 Ibid., p. 248.
232 Ibid., p. 249. 233 Ibid., p. 255.
234 GADAMER, loc. cit.
235 “A teoria subjetiva, tendo por prosélitos, dentre outros, Savigny, Windscheid [...] entende que a meta
da interpretação é estudar a vontade histórico-psicológica do legislador [...] a interpretação deve procurar compreender o pensamento do legislador [...]” (DINIZ, M. H., 2006, p. 427-428, grifo nosso).
Para Gadamer, há dois aspectos na concepção hermenêutica de Schleiermacher: de um lado, infelizmente, toda interpretação permanece com a pecha do adivinhatório; de outro, remete-se ao conhecido postulado daquele autor, para quem o “que importa [é] compreender um autor melhor que ele próprio se compreendeu”237.
Com base nesse postulado, é possível verificar a contribuição da interpretação de cunho psicológico definida por Schleiermacher, e criticada por Gadamer. Schleiermacher deseja efetuar a reconstrução de tudo que o autor pensou; na verdade, o trabalho do intérprete reduzir-se-ia a reproduzir o pensamento do autor – talvez até melhor do que ele, como a citação acima afirma. Para Gadamer, o postulado acima é uma obviedade. Afinal, como ele mesmo argumenta, na premissa de conhecer o outro melhor do que ele mesmo se compreendeu, é preciso ficar atento e verificar se o sentido extraído dessa compreensão não se converteu em algo completamente distinto238. Para Gadamer, tanto o romantismo, quanto Schleiermacher, no afã de criarem uma hermenêutica universal, perderam a noção do que se pode chamar de “compreensão objetiva”239, já que estavam atentos ao “espírito” (como Fichte, segundo Gadamer), ao
psicologismo.
Como conclui Gadamer, embora a escola romântica da hermenêutica possa ter descortinado o valor da consciência histórica, ainda que tenha evoluído da compreensão dos textos para a compreensão da história, quem faz a virada ontológica é Heidegger, que faz a junção da hermenêutica com o método fenomenológico de Edmund Husserl e possibilita o “como hermenêutico”. Daí o interesse de Heidegger por aquilo que Gadamer chama “a estrutura da compreensão”240.
Vejamos como o próprio Gadamer compreende essa questão.
Gadamer começa dizendo que Heidegger permite que a intenção filosófica latente em Dilthey consiga sobressair. Primeiro Heidegger demonstra que o conceito de substância era inadequado para o ser e para o conhecimento histórico. Com apoio na noção de “intencionalidade” da fenomenologia de Husserl, Gadamer acredita que Heidegger afasta tanto o “psicologismo objetivista”, quanto o “pseudoplatonismo da filosofia da consciência”. Com a superação do axioma da separação entre o significado das palavras e o conteúdo psíquico real da consciência, Gadamer insiste em dizer que a fenomenologia permitiu que “a subjetividade humana” adquirisse “validade
237 GADAMER, 2005, p. 263. 238 Ibid., p. 266.
239 Ibid., p. 269. 240 Ibid., p. 354.
ontológica”241, passando, assim, também a ser vista como um fenômeno. As vivências
passam a adquirir condições de tematização. Desse fluxo interno chamado vivência, surge então o conceito de horizonte: “um horizonte não é uma fronteira rígida, mas algo que se desloca com a pessoa e a convida a que continue a caminhar”242.
O horizonte acaba sendo o nexo entre a vivência e o mundo, “pois tudo o que está dado como ente está dado como mundo e leva consigo o horizonte do mundo”243. O
mundo então é algo prévio a qualquer pretensão científica. Isso conduz Husserl a uma decisão extraordinária, a nosso ver: “ele não fala mais de consciência, nem de subjetividade, mas de vida”244. Explica Gadamer:
Forjando um conceito que faz aparecer o contraste com o conceito de mundo que pode ser objetivado pelas ciências, Husserl chama a esse
conceito fenomenológico de mundo de ‘mundo da vida’, ou seja, o mundo em que nos introduzimos por mero viver nossa atividade natural, que, como tal, jamais poderá tornar-se objetivo para nós, mas que representa o solo prévio de toda experiência245.
Gadamer, portanto, debate-se com esse conceito pela extraordinariedade que ele, de fato, representa. Significa retornar ao natural? Representa apenas um sentido naturalístico, naquilo que a filosofia tem de pensar o mundo? É possível sentir Gadamer tentando explicar a que se refere esse conceito. Ele diz, por exemplo, que tal conceito “se opõe a todo objetivismo” e que é “um conceito essencialmente histórico”; ou melhor, o “mundo da vida quer dizer outra coisa, significa o todo em que estamos vivendo enquanto seres históricos”246.
Para a hermenêutica filosófica, portanto, o modelo paradigmático de conhecimento, em nosso sentir, não é a objetividade das ciências naturais, nem muito menos a subjetividade própria do indivíduo natural, como realidade; mas, sim, a intersubjetividade que é construída historicamente.
3.2 O CARÁTER DA HERMENÊUTICA FILOSÓFICA E A SUA PRETENSÃO À