3 TEORI OG FOREGÅENDE LITTERATUR
3.1 Forholdet mellom oljeprisen og valutakurser
Primeiramente, são importantes que se salientem dois fatos relevantes nessa imersão descontínua pela história da tatuagem no mundo; o primeiro fato é que essa pesquisa é bibliográfica (são estudos e relatos feitos por jornalistas, sociólogos, arqueólogos, viajantes e pesquisadores que fizeram levantamentos de técnicas corporais ao redor do mundo); e segundo que não há na história da tatuagem uma linearidade, ela é constitutivamente descontínua. Sua emergência está relacionada a contextos e momentos históricos específicos. Fato que nos instigam a questionar como essa prática dispersa sempre marcou o homem, sua pele, seu lugar, seus costumes, em diferentes momentos e partes da terra?
As primeiras respostas estão com os arqueólogos e historiadores. Edward H. Dodd, Jr.36 (apud, MARQUES, 1997, p.13), estudioso da Arte Polinésia, berço da
descoberta da tatuagem do mundo moderno, relata que a tatuagem parece ser um dos mais plausíveis candidatos ao controvertido conceito de origem independente em várias partes do mundo. “Ela foi inventada várias vezes, em diferentes momentos e partes da terra, em todos os continentes, com maior ou menor variação de propósitos, técnicas e resultados”.
Ideia também sustentada por Araújo (2005) e Costa (2011), eles concebem que homens e mulheres se tatuam há milhares de anos, ação que os marcavam e os inseriam em um determinado grupo. A primeira tatuagem que se tem registro é a do “homem do gelo” que viveu há mais de cinco mil e duzentos anos e trazia 50 marcas de tatuagens na pele. Ele foi encontrado por turistas na região dos Alpes entre a Itália e a Áustria.
36Dodd autor dos livros: "Polynesian Art," "Polynesian Seafaring," "Polynesia's Sacred Isle," and "The
Na figura feminina, registra-se a múnia Amumet, “mãe egípcia”, também, conhecida como deusa do amor. Ela foi encontrada em Tebas, a capital dos faraós há mais de quatro mil anos. A tatuagem da Egipícia Amunet era na barriga, anunciando que “ela poderia ter muitos filhos”. (ARAUJO, 2005, p. 43). Outras múmias do sexo feminino, encontradas no Valle do rio Nilo, apresentavam tatuagens em linhas horizontais e paralelas à altura do estômago que, segundo Costa (2011, relacionavam-se aos rituais de proteção contra a gravidez e doenças ou ao efeito “cosmético” para realçar seus encantos. Essas marcas femininas atravessaram gerações, espaços geográficos e povos distintos, como biopoderes para geração da vida, pois contemporaneamente, na Amazônia, - tribo Nawê -, os pontos tatuados na barriga e nos seios das meninas marcam a entrada no período fértil (LÉVI-STRAUSS, 1994). Isso mostra que, mesmo na descontinuidade da história, na distância entre a prática da tatuagem das mulheres egípcias e das índias da tribu Nawê é possível perceber “um acontecimento histórico se inscrevendo na continuidade interna, no espaço potencial de coerência própria a uma memória” (PÊCHEUX, 2007, p.50 - 52).
Sendo memória aqui entendida como:
aquilo que face a um texto como acontecimento a ler, vem reestabelecer os implícitos (quer dizer, mas tecnicamente os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos, etc.) de quem sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível.
Esses atravessamentos de práticas e rituais antigos são perceptíveis em momentos e culturas distintas em diferentes partes do mundo. Referem-se às relações que se estabelecem entre “o eu e o outro” nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos. São práticas que retomam e ressignificam na realidade social que os envolvem.
Nesse espaço de memória e ressignificação, é preciso refletir sobre o sujeito como um ser descentrado que tem a ilusão de ser o centro do seu dizer, de suas práticas, quando na verdade desconhece que é marcado por uma heterogeneidade decorrente de sua interação social em diferentes segmentos da sociedade, tendo em vista que a exterioridade está no interior do sujeito, em seu discurso está o outro, compreendido como exterioridade social (PÊCHEUX, 2009).
É esse espaço exterior que constrói sujeitos heterogêneos, mesmo que se inscreva a partir de discursos e valores estabelecidos em outros lugares, em outros espaços de memória, mas que são singularizados, de acordo com Coracini (2006, p.146), ao longo da vida, “nos meandros das relações sociais, das experiências pessoais, da relação consigo mesmo”.
Nesse movimento de continuidade e descontinuidade da história, uma escavação soviética feita em 1948 trouxe o que restava do corpo de um guerreiro cita37, encontrado
em Pazyryk (sudoeste da Sibéria e noroeste da Mongólia, nas montanhas de Altai), em tumbas congeladas, datado do século V ou IV a.C. “O que restou do cita mostra que ele tinha tatuagens excepcionais cobrindo os ombros, braços e parte da perna direita entre o pé e o joelho”. As tatuagens sugerem que o motivo era quase sempre de animais, pois além de um peixe, aparece, alce, cavalo, felino e macaco – “todos enfeitados com capuzes com penacho” (MARQUES, 1997, p 18). O que mostra a ligação do homem daquela época com a natureza.
O uso de símbolos leva a crer que o povo cita, além da ter como referência de coragem e astúcia dos animais, eles viviam em harmonia com a natureza. As tatuagens eram imagens que ofereciam elementos indiciários sobre valores e crenças e sua forte relação com a o meio ambiente. Segundo Le Breton (2004, p. 98), os significados que são grafados simbolicamente na pele dos antigos não são imagens marcadas aleatoriamente, mas expõem a forte relação dos indivíduos com seus deuses e com a natureza.
Desse modo, pode-se dizer que se na atualidade, de acordo com alguns estudiosos como Courtine (2012) Gregolin, (2007) Milanez, (2006), as técnicas de exposição do corpo operam um jogo no qual se constituem identidades a partir da regulamentação de saberes sobre como as pessoas deveriam agir diante dos seus corpos. Na Antiguidade, as técnicas corporais, como a tatuagem, também criavam um jogo entre objetivação e subjetivação, tendo em vista que essas técnicas faziam parte de um conjunto de saberes pelos quais os sujeitos marcavam sua vida e seus valores.
Ao adentrar nos caminhos mais longínquos e descontínuos da prática da tatuagem nos deparamos com registros em diferentes campos discursivos (literário, religiosos, compêndios históricos, diários de bordos) que contribuíram no processo de objetivação do sujeito.
37 Primeiros povos indo-europeus, viveram na imensa área que era conhecida até a Idade Média como Cítia.
Segundo Araujo (2005), na arte plástica, por exemplo, esse discurso aparece na tela, “Jovem filha de Pictus” (1595-88), do frances Jacques Le Moyne de Morges, registrando aí um lugar de memória da prática da tatuagem do povo pictus, Pessoas que viviam no norte da Europa, na região da atual Escócia em 20 a.C. e tinha por costume pintar todo corpo. Segundo as pesquisas feitas pelo americano geneticista Bryan Sykes, os pictos seriam originários da Península Ibérica.
Os Pictos como povo constituem um enigma. Alguns especialistas defendem que seriam uma tribo celta, outros, por outro lado, creem tratar-se de um povo mais antigo. Os escritores romanos sempre os distinguiram dos celtas da Escócia, surpreendendo-se pela sua ferocidade e o hábito barbárico de se pintarem ou tatuarem. Até o nome "Pictos" não ajuda, na medida em que deriva da palavra latina picti, que significa simplesmente "pintados" - uma referência às suas pinturas ou tatuagens de guerra. Mas, acredita-se que seja palavra de origem celta, significando desenhado, causticado o que confirmaria a prática da tatuagem e não a pintura (ARAUJO 2005, p.45).
Registra-se que, desde século IV a.C. em lugares e épocas distintas, o homem adornou seu corpo, porque as técnicas corporais faziam parte de valores culturais. Na Polinésia, na Indonésia, Filipinas e Nova Zelândia (Moaris) tatuavam-se em rituais quase sempre ligados à religião. Os povos celtas e vikings, os dinamarqueses, os normandos e os saxões cada grupo desenvolvia seu próprio estilo, e embora a técnica não variasse, assim diz Araújo (2005), os desenhos e motivos eram bem singulares em cada cultura. Fato que continua ainda hoje, pois o significado de uma tatuagem varia até mesmo de pessoa para pessoa. Uma cruz que tem uma simbologia em determinado grupo, não tem, necessariamente, o mesmo significado para outro no mesmo período. O que significa que cada comunidade ou nação constrói seus símbolos, significados e marcas identitárias a partir de suas práticas culturais específicas.
A tatuagem dos primeiros povos que se tem registro são exemplos disso, pois se para os pictos a tatuagem era característica de raça e singularizava determinadas
Figura 9 In: ARAÚJO. Tatuagem, piercing e outras mensagens do corpo( 2010. p. 45)
características de um povo para os Moaris, povo da nova Zelândia vindo do leste da Polinésia, tatuar era um traço sagrado, e “seu portador tinha de ser um homem livre e nobre, possuindo um lugar diferenciado” (RAMOS, 2001). Para essa comunidade, a tatuagem mostrava o status dentro da tribo ou clã. O motivo era aspiral e tinha em cada curva um significado. Le Breton (2004) salienta que a tatuagem em terminadas tribos marcava claramente a distinção, expondo, permanentemente a posição do sujeito dentro de um grupo.
Ao tratar da história da tatuagem, Ramos (2002) relata que na Polinésia38, lugar de
origem da tatuagem ocidental, a arte de tatuar é uma das formas mais artísticas do mundo antigo. Ela se desenvolveu há milhares de anos nas ilhas do Pacífico e, em sua forma mais avançada, era caracterizada por designs geométricos muito elaborados. Os desenhos eram normalmente incrementados, aumentados e renovados durante a vida da pessoa, até que seu corpo ficasse completamente coberto. Tudo o que os polinésios faziam era decorado: pote, canoas, arma de guerra, ferramentas. A tatuagem era parte da vida daquelas pessoas de forma natural.
Assim, concebe-se que, naquele momento, a ideia de identidade era construída pela unidade e estabilidade que se revelavam nas afinidades simbólicas da comunidade. De acordo com Le Breton (2004), nas sociedades tradicionais, o indivíduo é, apenas, membro de um grande corpo coletivo e o que distinguia um do outro eram as posições hierárquicas que se ocupava.
Evidências sugerem que a arte de tatuar tem sua origem na Polinésia, a partir da ocupação por habitantes vindos da parte sul da Ásia que, gradualmente, foram habitando as ilhas da Melanésia do Norte. Ocuparam primeiramente áreas da Nova Guiné, há cerca de 50 mil anos e, eram chamados de Lapitas, por causa de um tipo de cerâmica que produziam. (A cerâmica Lapita é um assunto de interesse especial para a história da tatuagem, porque nos fornece a mais antiga evidência que prova a natureza dos motivos das tatuagens polinésias). Muitos dos potes e vasos de cerâmica da cultura Lapita traziam decorações neles gravados, que consistiam em elementos em forma de V, figuras
38Polinésia ("muitas ilhas"): corresponde às ilhas mais distantes da Austrália, dispersas por uma grande área
do Pacífico. São em sua maioria possessões britânicas, francesas e Chilena. Os países independentes da Polinésia são Tonga, Samoa, Tuvalu e, historicamente e culturalmente (o último em relação aos seus povos aborígenes), a Nova Zelândia (nome polinésio: Aotearoa). O estado estanunidense do Havaí e a ilha chilena Rapa Nui ou ilha de Páscoa também fazem parte da Polinésia.
geométricas interligadas e motivos estilizados, semelhantes a máscaras e criaturas do mar. (MARQUES, 1997).
Intericonicamente, as imagens semelhantes são encontradas nos registros das tatuagens da Polinésia, pois os desenhos feitos com pontilhados sugerem que a técnica utilizada na decoração da cerâmica era um tanto quanto similar à usada na tatuagem. Diversos tipos de estatuetas, feitas em diferentes tipos de materiais e decoradas com desenhos similares, foram encontradas juntamente com materiais utilizados para tatuar, em sítios arqueológicos dos Lapitas. (RAMOS, 2002)
Os instrumentos para tatuar, dos quais pesquisadores, como Caruchet39, Hans Peter e Martin Salles40 ( pesquisadores sobre a arte no corpo) tratam em sua obras,
datam de mais de três mil anos e se constituem por pedaços achatados e bem delineados de ossos, sendo que uma das suas extremidades possui a forma de um pente, com dentes bastante pontiagudos. O tatuador mergulhava o instrumento em uma tinta preta e indelével diluída na água com que desenhava assim diversas figuras no corpo, batendo levemente no instrumento com uma pequena marreta. Esta técnica, que jamais foi encontrada em outra parte do mundo, foi bastante comum em toda área do Pacífico e continua sendo utilizada até hoje por artistas tradicionais em Samoa41.
Conforme Ramos (2002), embora a produção de cerâmica tenha cessado na época do nascimento de Cristo, a arte da tatuagem tornou-se mais e mais sofisticada. Na Polinésia, essa prática se desenvolveu, tornando-se uma refinada forma de arte, pois por volta do ano 200 d.C., viajantes de Samoa e Tonga chegaram às ilhas Marquesas e desenvolveram uma das mais complexas culturas da Polinésia: a arte e a arquitetura marquesa foram altamente desenvolvidas. Os desenhos característicos dali, os quais, em muitos casos, cobriam todo o corpo, estavam entre os mais elaborados de toda a Polinésia.
Oitocentos anos mais tarde, cerca de 1000 d.C., os polinésios haviam colonizado com sucesso a maioria das ilhas habitáveis a leste de Samoa. Traços culturais distintos
39Willian Caruchet desenvolveu vários trabalhos sobre a arte no corpo como “Le tatuage ou Le Corps Sans
Honte”.
40 Desenvolveram pesquisas sobre a arte no corpo em algumas regiões da Oceania como Polinésia como La
Pinture du Corps.
41 Samoa, ponto de (partida) para a posterior expansão polinésia para o Pacífico Oriental, acabando na
ocupação de ilhas tão distantes como o Havaí, ao norte, a Nova Zelândia ou Aotearoa (seu nome polinésio), ao sul e a ilha de Páscoa ou Rapa Nui, ao leste.
evoluíram em cada um dos grupos de ilhas da Polinésia e, quando os europeus ali chegaram, as pessoas destes vários arquipélagos possuíam sua própria língua, mitologia e arte, incluindo estilos únicos de tatuagem.
Willian Caruchet, pesquisador de tatuagens, autor do livro Le Tatuage Ou Le
corps sons hont, relata os procedimentos e significações marcantes em algumas culturas
no continente da Oceania. Na Nova Zelândia, por exemplo, a admiração pela tatuagem torna-se obrigatória para as mulheres que vão casar, sendo impossível conquistar um homem e ser-lhe fisicamente agradável, sem ter um corpo tatuado. Caruchet confirma isso ao dizer: o encanto da mulher se fazia presente após a intervenção de um tatuador. Naquela cultura, “uma esposa só pode sentir carinho por seu marido depois da intervenção de um tatuador”. (CARUCHET, 1995, P. 74, apud, RAMOS, 2001, p. 26).
Nesse espaço discursivo dos primeiros registros da tatuagem no continente da Oceania, vale ressaltar ainda os relatos de Cook (em sua viagem pelo novíssimo mundo – Oceania)42 ao tratar dos desenhos impressionantes na pele dos Moaris. De acordo com
Cook (1944, p. 132), os guerreiros moaris, após a guerra, comiam seus inimigos no ritual festivo e guardavam as cabeças daqueles mais importantes como troféus, essa importância era perceptível pelas grandes marcas espirais que lhes cobriam o rosto. Veja- se o exemplo:
Figura 10 Google imagens, 2014
Os desenhos tinham o poder de curar, de proteger, e de lembrar; era o amuleto de sorte das muitas batalhas de um povo genuinamente guerreiro. Eles eram as formas mais expressivas de magia utilizada pelos maoris. “As tatuagens moaris vão além da
42 Descrições isoladas e incidentais da tatuagem na Polinésia foram encontradas nos diários de bordo de
navios europeus, que datavam do século 17 e início do século 18. Mas somente na ocasião da viagem do capitão Cook, em 1769, é que a arte de tatuar foi descrita com maiores detalhes.
O espiral, símbolo do
renascimento, representa o movimento cíclico da vida. A maioria das tatuagens era na cabeça porque esse era o lugar mais sagrado do corpo.
manifestação artística, representando plenamente uma manifestação humana e cultural. É, literalmente, a vida à flor da pele. ” (ARAÚJO, 2005, p.45). Eles também a usavam como forma de aperfeiçoar o corpo, a fim de torná-lo mais bonito e atraente.
Alguns desses sentidos são retomados ainda hoje, pois cada vez mais pessoas são atraídas pelo belo grafismo e pela simbologia ampla que retrata força, luta e coragem. São sentidos cristalizados que são reativados para marcar uma posição de um grupo geralmente jovem. Entretanto, é válido salientar que, embora “todo discurso seja marcado por enunciados que o antecedem” (FERNANDES, 2012, p.51), essa retomada não significa de uma mesma maneira de um lugar a outro, visto se tratar de outro lugar, de outro espaço social, de outras condições históricas. Para Foucault (2005, p.111), “o enunciado se delineia em um campo enunciativo onde tem lugar e status, que lhe apresentam relações possíveis com o passado e que lhe abre um futuro eventual”. Na contemporaneidade, essas linhas e traços moaris retornam, em especial no sexo masculino, marcando em outros lugares de força e coragem, em partes do corpo que geralmente tem músculos, como na parte externa e interna dos braços, representando a coragem e a força física.
Ainda, no diário de viagem de Cook (1994, p. 77), ele relata que diferentemente dos moaris os taitianos não pintavam os rostos - “no rosto não as põem nunca” -, pois nele se marca a singularidade de cada um. Ele acreditava que, para esse povo, a prática da tatoo era um ritual de passagem que se dava “em uma operação dolorosa que se faz em ambos os sexos, da idade de 12 a 14 anos. ” Fato que, também, marca a tatuagem como um símbolo identitário de um grupo. Com esse mesmo valor de rito de passagem, ainda hoje, essa prática é adotada em tribos indígenas brasileiras e em comunidades africanas.
Segundo Le Breton (2004, p. 174), em numerosas sociedades humanas as marcas corporais estiveram ou estão associadas a ritos de passagem ou a significados precisos no seio da comunidade. Ele acrescenta dizendo: “a tatuagem tem assim um valor de identificação, mostra no cerne da carne a pertença a um sistema social, revela as afinidades religiosas, estabelece a ligação com o cosmo. ”
Para os nativos havaianos, a tatuagem fazia parte da percepção corporal, quer seja ela estética, física ou espiritual. Eram as marcas, tatuadas, pintadas ou escarificadas que davam sentido aos corpos. “Um corpo sem marca não existe culturalmente ou mesmo espiritualmente, não pertence a uma tribo, etnia ou grupo social” (RAMOS 2001, p.36).
Atualmente, os jovens dessas regiões são os herdeiros dos ancestrais que viviam naquela região como os pictos e os moaris.
O ato de um polinésio ou melanésio se tatuar hoje os tornam museus vivos de seus povos e, embora o significado “original” tenha sido apagado juntamente com suas tradições, pelos traços e tinta indelével singulares do europeu, sua pele tem o poder de emergir uma memória de fazer seus mortos falarem. São linhas, riscos e desenhos - conhecidos no mundo ocidental como tribal – que ainda vivem e são reconstruídos a partir de dados e referências comuns aos diferentes membros daquela comunidade. As tattoos acionam para essa comunidade uma memória coletiva de seu povo, ou seja, aquilo “o que ainda é vivo na consciência do grupo para o indivíduo e para a comunidade”.( HALBWACHS, 2006, p.71 ). Nesse caso, as tatuagens que residem na pele dos jovens polinésios lembram: bravura, coragem, ligação com a natureza e valores religiosos.
Atualmente, na Indonésia propriamente dita43, a tatuagem é uma prática proibida,
o que se vê lá hoje é foco de resistência aos valores religiosos. Para os governantes daquele país, a arte no corpo é um insulto à religião local (Islã). O Islamismo acredita que o sentido do versículo 119 (SURA 4) do alcorão era uma condenação de Maomé aos crimes contra a natureza, de castração e de fazer marcas no rosto e no corpo. (MARQUES, 1997, p.33).
Sendo a prática da tatuagem um insulto à religião, contraria os valores culturais, políticos que regem aquele país. E ao estar fora da verdade, ela passa a ser interditada, sofre coerção, tendo em vista que vem contrapor a vontade de verdade adotada pelas leis que regem a vida das pessoas, recolocando-as em questão ao marcarem seus corpos e assim construírem “suas próprias verdades”.
Essa proibição à prática da tatuagem, comum também a outros países Árabes, remetem a Foucault (1979) quando nos propõe que o poder implica resistência e que as lutas contra as tecnologias prontas, conduzidas por um conjunto de práticas como as educativas e religiosas nos apontam a vontade de verdade não apenas como forma certa a