O conceito de sistemas de inovação foi trabalhado na década de 90 por diversos autores, principalmente por Lundvall (1992), Freeman (1995) e Cooke (2001).
Edquist (2005) define os sistemas de inovação como sistemas com a função principal de desenvolver, difundir e aplicar inovações. O autor explica que os sistemas de inovação são constituídos por organizações e instituições e pelas relações entre elas. Para ele, as organizações são os atores do jogo, tais como empresas, universidades, organizações de capital de risco e agências públicas, enquanto as instituições dizem respeito às regras do jogo, como leis de propriedade intelectual, regras e normas do relacionamento entre universidades e empresas, entre outros. Além disso, o autor lembra que esses sistemas são compostos pelos fatores determinantes no processo de inovação, tais como econômico, social, político, organizacional e institucional.
A abordagem de sistemas de inovação pode ser visualizada em diferentes perspectivas. Lundvall (1992) e Freeman (1995) trabalharam essencialmente com a perspectiva de sistemas nacionais de inovação.
O termo Sistema Nacional de Inovação tem origem nas ideias trabalhadas por Friedrich List (1841) e sua preocupação com o desenvolvimento de países como a Alemanha, que na época era menos
desenvolvida que a protagonista da Revolução Industrial, Inglaterra, dando destaque à importância do capital intelectual nesse processo. (FREEMAN, 1995).
Freeman (1995) explica que List (1841) analisou diversas características do sistema nacional de inovação que estão no centro de estudos contemporâneos – tais como educação e instituições de ensino, ciência, institutos técnicos, acumulação de conhecimento, adaptação de tecnologia importada, promoção de setores estratégicos – e também deu destaque ao papel do Estado de coordenação e execução por meio de políticas de longo prazo para a indústria e a economia.
Inspirado nas ideias de List (1841), Lundvall (1985) é o primeiro a utilizar o termo sistema de inovação. O autor destaca a importância dos diferentes atores para a economia e a importância da interação desses atores para a inovação.
Lundvall (1985) explica na década de 80 que as universidades passam a estar voltadas para pesquisas básicas, enquanto as empresas estariam voltadas para pesquisas aplicadas, havendo instituições intermediárias que realizam ambas as pesquisas. Além disso, o autor observa também que indústrias baseadas na ciência e com fortes ligações a atividades de P&D têm se tornado mais importantes para a competitividade internacional. Assim, tal cenário reflete a tendência de criação de centros de excelências e tecnópolis, que incentivam a cooperação entre universidades e empresas.
Freeman (1995) ressalta, entretanto, que a mudança técnica não depende apenas das atividades de P&D, mas de diversas outras atividades como educação, treinamento, controle de qualidade, design, entre outros. Do mesmo modo, o crescimento econômico estaria ligado mais à eficiência da difusão das inovações do que ao fato de ser o primeiro a inovar.
Freeman (1995) defende que a inovação é um fenômeno interativo, no qual as empresas dependem de redes de relacionamento junto a outros integrantes do sistema de inovação para inovar. O autor explica que as relações inter e intraorganizacionais são de extrema relevância para o alcance da inovação, e aponta importantes agentes, como as empresas, desenvolvendo pesquisas em laboratórios de P&D; as universidades, provendo educação, conhecimento e pesquisas; e o governo propiciando políticas e estrutura de fomento à inovação.
Além disso, Freeman (1995) concorda com geógrafos e economistas que argumentaram que a proximidade cultural e geográfica, a infraestrutura local, as externalidades, a mão de obra qualificada, os
serviços especializados, a confiança mútua e a rede de relações institucionalizadas, mesmo que informais, são importantes fontes de diversidade e vantagem competitiva e contribuíram para o desenvolvimento de regiões. O autor enfatiza ainda que corrobora com as ideias de Porter (2009) que defende que as competências locais são uma importante fonte competitiva frente à globalização da economia.
A OECD (1997), por sua vez, destaca a importância da compreensão do sistema nacional de inovação por parte dos que desenvolvem políticas públicas para que possam identificar pontos de alavancagem para melhorar a inovação e a competitividade. De acordo com a OECD (1997, p. 7, tradução nossa), “a abordagem dos sistemas nacionais de inovação destaca que os fluxos de tecnologia e informação entre pessoas, empresas e instituições são a chave para o processo de inovação.” O relatório aponta que tentativas de vincular esses fluxos ao desempenho das empresas mostraram que altos níveis de colaboração técnica, difusão tecnológica e mobilidade de pessoas contribuem para o aumento da capacidade de inovação de empresas em termos de produtos, patentes e produtividade.
Outra perspectiva dos sistemas de inovação, trabalhada por autores como Cooke (2001) é a regional. Cooke (2001) relata que foi o primeiro autor a utilizar o termo Sistemas Regionais de Inovação, em 1992. Ele questiona o foco nacional dado por Lundvall e Freeman – aquele mais voltado para aprendizagem interativa e este para as redes – apontando a generalidade relativa dos conceitos de sistema nacional de inovação e o ponto cego sobre regiões como as principais deficiências da abordagem dos autores. A fim de preencher essa lacuna, Cooke (2001) realizou diversos estudos, em regiões como o País de Gales e Baden-Württemberg na Alemanha, para compreender o que levava regiões a serem mais inovadoras e competitivas do que outras.
Por região, Cooke (2001) entende uma unidade política situada entre os níveis nacional e local de governo, com certa homogeneidade cultural ou histórica e que possua poderes pelo menos legais para intervir e apoiar o desenvolvimento econômico, especialmente a inovação.
Os sistemas regionais de inovação podem apresentar, quando comparados com os sistemas nacionais de inovação, um maior potencial de sucesso, uma vez que o volume de recursos e o número de agentes envolvidos nesses últimos são bem maior, o que pode dificultar a troca de informações e a governança de modo geral. (GANZERT; MARTINELLI, 2009).
Cooke (2001) aponta as condições e fatores que aumentam ou diminuem o potencial de sistemas regionais de inovação. No nível de infraestrutura, o autor destaca a competência financeira regional, a autonomia de gastos e impostos, a influência política na infraestrutura e a relação entre universidades e empresas. Além disso, no nível superestrutural, favorecem o sucesso de um sistema regional de inovação aspectos como cultura cooperativa; aprendizagem interativa; consenso associativo; relações harmônicas de trabalho; projetos interativos de inovações; desenvolvimentos dos colaboradores; políticas inclusivas, de monitoramento e consultivas; entre outras condições.
A diferença entre clusters e sistemas de inovação, na visão de Ganzert e Martinelli (2009, p. 150) está no fato de que “enquanto o termo cluster se configura em torno do arranjo físico geográfico de agentes de um determinado setor, a ideia de sistemas de inovação prima pelo fluxo informacional entre os agentes do setor”, ou seja, os sistemas de inovação estariam mais voltados para a troca de conhecimentos tácitos e explícitos em um determinado espaço, e não apenas de um setor específico. Os autores salientam, entretanto, que quando apoiado sobre um cluster, o sistema regional de inovação possui maior efetividade.
Com relação a essa troca de conhecimentos, os autores explicam que a mesma se dá pela transferência de conhecimentos explícitos e profissionais capacitados para a atuação em empresas por parte das universidades; pela transferência de resultados de pesquisas avançadas por parte dos centros de pesquisa para as universidades; pelo fornecimento de serviços de pesquisa e desenvolvimento e conhecimentos explícitos dos centros de pesquisa para as empresas do sistema regional de inovação; e pelo oferecimento de emprego aos jovens das universidades por parte das empresas.
Por fim, é destacado que os sistemas regionais de inovação abertos, ou seja, aquelas que estabelecem fluxos informacionais com outros sistemas regionais e nacionais, aumentam sua competitividade e capacidade de inovação. (GANZERT; MARTINELLI, 2009).
De modo geral, pode-se observar que as ideias trabalhadas pelos autores Lundvall (1992), Freeman (1995) e Cooke (2001), apesar de suas especificidades, possuem convergências e ressaltam a importância dos sistemas nacionais e regionais para a competitividade e sucesso das regiões, graças às redes de relações entre os agentes que favorecem a inovação.