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3.4 Samarbeid med andre aktører

3.4.2 Forhold til dommere

Na América Latina, ao longo de sua experiência de elaboração dos horrores das ditaduras militares, tem se falado muito sobre o sentido de fazer a memória ou de impor o esquecimento.

Ricoeur (2000) afirma que o dever da memória é o dever de fazer justiça, sendo a memória essencial para a reparação, por possibilitar a reconstituição do passado e sua cura. A cura é impossível caso haja esquecimento. Sua expressão “tremendum

horrendum”, aplicada ao Holocausto, pode também ser aplicada à violência dos governos militares. Este horror, o negativo da admiração, é produzido por acontecimentos que não devem ser esquecidos e que engendram sentimentos éticos consideráveis. Trata-se da história de vítimas que não podem ser generalizadas, que pedem a individuação de acontecimentos deploráveis, únicos. Somente a vontade de não esquecer pode fazer que os crimes não voltem a acontecer.

Aceitando a memória como sendo o oposto do esquecimento, talvez valha diferenciar este último. Parece haver um esquecimento definitivo, que é uma ameaça, algo deplorável, um apagamento irremediável. Há um esquecimento de reserva, reversível, um recurso através do esforço da memória. A memória é possível graças ao esquecimento, pois, se tudo está sempre presente na memória, não se pode trazer coisas do passado à memória (SILVA, 2005).

Como já afirmei acima, existe ainda a anistia, esquecimento institucional e intencional, sempre procedente da instância política, na tentativa de apagar os acontecimentos traumáticos do passado. Na ocasião de anistia, ainda que se fale de perdão, em muitos sentidos, esta é sua verdadeira antítese (RICOEUR, 2008).

Como interagir com uma memória que insiste em lembrar meus atos do passado e não me deixa em paz? Parecem existir pelo menos duas possibilidades: o arrependimento e o remorso. A primeira é uma forma de transação quando eu assumo o mal feito e você me devolve o estado da inocência. O remorso, ao contrário, brota do sentido ou do reconhecimento do irreparável, da clarividência de que o sofrimento infringido está pregado em mim para a eternidade. Neste caso, a consciência acusa um dano irreparável e, portanto, inexpiável. O remorso é este sinal de Caim, conforme o

relato bíblico, quando Deus ordena uma terrível vingança a quem ouse matar Caim53, após ele expressar seu remorso por ter matado seu irmão. Uma explicação pode ser que o crime cometido não admita nem pagamento e nem expiação: Caim tem que viver. Não deve ser maltratado, pois esta dor poderá ser interpretada como uma possibilidade de expiação de sua culpa (MATE, 2008).

Segundo o especialista alemão em reconciliação, Müller-Fahrenholz (2003), a força da memória intencional e seletiva permite muitas vezes lembrar somente a injustiça sofrida, porém não aquela cometida. A memória tem a ver com distanciamento no tempo, embora não seja verdade que, simplesmente, o tempo cura todas as feridas. No entanto, o tempo é o espaço que possibilita a cura porque – e na medida em que – permite dar novos passos.

Do mesmo modo como o tempo pode nos manter presos aos horrores do passado, pode dar-nos as possibilidades de abrir o círculo vicioso da lembrança ingrata e orientar-nos para um futuro, através da elaboração do passado. Recordar, fazer memória, tem a ver com a interiorização, trazer nossa própria história para o coração. É um confronto com acontecimentos e experiências que nos moldaram. Esquecer, intencionalmente ou obrigatoriamente, cria um buraco negro que sempre vai engolir pessoas e histórias; danifica a memória coletiva e com isso a identidade coletiva, uma vez que esta se alimenta da memória também.

Fazer memória parece ser a possibilidade de elaborar o passado e nos tornar sujeitos de nosso próprio agir. No dizer da palavra de língua inglesa, re-member significa agregar membros, quem sabe, pedaços e pessoas dispersos na história e no espaço, para se tornar, outra vez, um todo. A arte da memória parece ser a (re)apropriação permanente da história, com a finalidade de cada um encontrar sua própria integração, tornar-se um todo, e assim, possivelmente, seu próprio caminho.

Nesta linha de apropriação e de integração daquilo que é profundamente humano, somos advertidos de que o esquecimento pode significar que nos privamos da dimensão de profundidade na existência humana. Pois memória e profundidade são o mesmo, ou antes, a profundidade não pode ser alcançada a não ser através da recordação (ARENDT, 1997, p. 131).

53 Gênesis 4,14-14: “Eis que hoje me lanças da face da terra; também da tua presença ficarei escondido;

serei fugitivo e vagabundo na terra; e qualquer que me encontrar matar-me-á. O Senhor, porém, lhe disse: Portanto quem matar a Caim, sete vezes sobre ele cairá a vingança. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que não o ferisse quem quer que o encontrasse.”

A importância de fazer memória e elaborar o passado é um dos objetivos do projeto Healing of Memories – Reconciliation between Peoples, Cultures and Religion54, no sudeste europeu. O segredo da reconciliação é fazer memória para criar uma forma bem sucedida de lembrar, em vez de esquecer. Pede um processo de mudança na visão e atuação política. Em um seminário internacional, com o mesmo nome, tive a oportunidade de encontrar Michel Lapsley, fundador e diretor do

Institute for Healing of Memories, na África do Sul. Sendo militante anti-apartheid,

foi vítima de uma carta-bomba que lhe arrancou as duas mãos, prejudicou a visão e o ouvido. Lapsley dirigiu-se a uma plateia de acadêmicos e outros, majoritariamente cidadãos da Romênia, país que, através da assim chamada revolução popular, depôs, em 1989, o governo comunista, após estar 40 anos no poder. Dizia algo como:

Entendo que houve uma mudança ideológica fundamental em 1989. Vocês viveram sob uma ideologia específica que teve efeitos profundos para a comunidade de fé, mas durante as palestras que me antecederam e durante os dias que estamos viajando pelo país não houve nenhuma referência a esta história. Tenho o privilégio de trabalhar em muitas partes do mundo e ouvir a dor da família humana. Uma das coisas mais importantes, para mim, em cada país aonde eu vá, não é aquilo que se fala, mas o que não pode ser falado. Assim, para mim uma das coisas mais memoráveis que gostaria de levar de minha visita a Romênia é o que as pessoas ainda não estão dispostas a falar. É porque as feridas são demasiado recentes? É porque são demasiado dolorosas?

Parece-me que temos de começar a falar não apenas o que pensamos sobre o passado, sobre feridas antigas, feridas recentes, mas como as pessoas as sentem. Uma das grandes lições da história é que o passado não desaparece. Você pode escolher entre enterrar e esquecê-lo ou fazer-lhe face e, a seguir, começar a curá-lo. (Informação verbal)55.

Lapsley encerrou sua intervenção com as seguintes palavras:

[...] meus caros irmãs e irmãos da Romênia, por favor, por favor, por favor, enfrentem o passado. Não pretendam enterrá-lo e esquecer. Toquem as feridas uns dos outros, falem sobre as escolhas feitas por vocês e das quais vocês se orgulhem. Falem também sobre as escolhas das quais vocês se culpem e envergonhem. Somente através da partilha das histórias bonitas e das histórias horríveis podemos começar estabelecer uma base da verdade sobre a qual reconciliação verdadeira pode acontecer. Simplesmente, contar os fatos, sem falar da dor e do veneno ligados às memórias não ajuda. (Informação verbal).

No mesmo sentido da necessidade de reaver a memória para aprender a “domá- la”, vai Abadian (2009a), quando fala do gerenciamento da memória, do domínio da memória – to master memory –, sugerindo que este exercício favorece a sabedoria. A

54 Healing of Memories – Reconciliation between Peoples, Cultures and Religion. Fogoraş Romania,

maio de 2009. Ver: <http://www.healingofmemories.ro/>.

55 Os textos aqui inseridos (e na sequência) fazem parte de anotações pessoais, registradas durante

palestra proferida por Michel Lapsley. Seminário Healing of Memories – Reconciliation between Peoples, Cultures and Religion. Fogoraş Romania, maio de 2009.

cura implica abraçar o passado com todas as memórias difíceis que nos mantêm sequestrados: enfrentar nossos medos, sentir e libertar a dor, assim como qualquer crença restritiva ou preconceito relacionado a ela. Curar a memória exige aproveitar os dons e as lições que estas memórias difíceis nos propiciam. Somos responsáveis e podemos eleger como manter nosso passado: restringir, lastimar e limitar os outros ou fortalecer, libertar, expandir nossa consciência e colocá-la amorosamente a serviço do TODO que é, que foi. Curar, gerenciar a memória é uma escolha exclusivamente pessoal. A peregrinação às memórias, gratas ou amargas, se associa em parte à sabedoria. Memória e sabedoria são lembranças do passado no presente, uma maneira de dar vida àquilo que já foi. O perigo de concentrar-se no passado está na possibilidade de bloquear nossa capacidade de estar no presente e enfrentar os desafios diários, diferentes dos do passado e estar dispostos a aproveitar as oportunidades. Ver o presente com novos olhos pode ser a contribuição da sabedoria – o retorno ao passado. Em algum momento seremos capazes de dizer que já não vale mais a pena o sacrifício: já obtivemos o que podíamos receber de nossas memórias e do passado e, agora, escolhemos viver mais no presente, no aqui e agora. Isso é, então, a cura da memória.

Ricoeur (2008, p. 196) afirma que o perdão é uma espécie de cura da memória, o acabamento de sua luta; liberta do peso da dívida, a memória fica liberada para grandes projetos. O perdão dá futuro à memória, pois uma memória curada é aquela que não desapareceu ou caiu no esquecimento, mas que, embora incômoda, perdeu seu caráter tóxico. O presente não está mais envenenado, excluindo a possibilidade do futuro. As feridas que restaram são capazes de influenciar a experiência sábia e podem ajudar outras pessoas (JESUDASAN; RÜPPEL, 2008).

Propagar o perdão como uma tarefa da memória e não do esquecimento parece- me importante no processo educativo para ir elaborando em maior profundidade nossa vida, extrair suas lições e assim, pouco a pouco, ir convertendo a memória amarga em aprendizagem que sustenta o presente e possibilita o futuro.