Um tema em voga à época era a pregação do desengajamento da crença religiosa: “Veneza empenhava-se em manter sua independência em matéria religiosa do papado e o Estado veneziano buscava manter sob firme controle o entusiasmo religioso”.61 Para alcançar tais fins, os dirigentes venezianos, dentre outros meios, incentivavam ou patrocinavam a produção e a leitura de obras laicas que fundamentassem o modo republicano de condução política e – uma marca da época – por outro lado, uma literatura mundana, notadamente cética. O ceticismo que vigorou no pós-renascença era um amálgama proveniente dos ataques da nascente ciência moderna ao edifício teórico aristotélico, tendo como pano de fundo a similaridade da época com outros períodos de transição históricas, culturais e estruturais de mundo.
Autores de inspiração cética renunciaram a toda crença fortemente sustentada, alegando que nada se podia saber de modo certo e seguro, seja sobre o mundo devido ao caráter impreciso dos sentidos humanos o que acarretaria sempre uma afirmação vazia e desprovida de evidência, seja em referência ao mundo moral onde a diferença de culturas e costumes, em variadas épocas, mostrava a relatividade das assertivas de cunho meramente normativas. O alvo dessas críticas era focado, principalmente, em Aristóteles, e Tuck afirma haver um paralelo adicional nessa crítica atual e o olhar dos antigos:
No mundo antigo, o corpo mais completo e sistemático de conhecimento ou “ciência” era representado pela obras de Aristóteles, e foi contra Aristóteles e seus seguidores que tanto os céticos como os estoicos se voltaram repetidamente. [...] Para os autores do final do século XVI, Aristóteles também era um dos alvos principais; tanto protestantes como os católicos tinham buscado alinhar suas certezas com as dele, e todo o empreendimento aristotélico dera às pessoas a confiança de que um corpo determinado e válido de conhecimento era possível.62
61
TUCK, 2001, p. 23. 62 Ibid., p. 22.
O dilema maior nos meados do século XVII era o questionamento deste paradigma escolástico de cunho aristotélico, teleológico e orgânico frente às descobertas de pesquisadores orientados pelo modelo que se firmava na base mecanicista, materialista e inercial, característica da nascente ciência moderna. Um pensador francês, Pierre Charron, em 1601, afirmara ainda sobre Aristóteles “ele exprimira mais absurdos grosseiros do que [qualquer outro filósofo], e não concorda nem um pouco consigo mesmo, nem sabe ele, muitas vezes situar-se”.63
Entre estas vertentes se encontrava o ceticismo moderno que, negando os pilares aristotélicos de pretensão à certeza nos diversos campos do saber, tampouco devotava confiança nas obras de reformadores modernos. E este ceticismo produzia obras cuja característica principal era a descrença acerca da capacidade humana de conhecer alguma coisa do mundo exterior. No campo moral, a perspectiva era similar em incredulidade, defendendo um afastamento – ancorado na dúvida ou desprezo – da validade dos princípios morais com os quais vivera as gerações anteriores. A leitura dos clássicos enriquecia esse debate.
O modelo que prevalecera até então sustentava a possibilidade de uma vida pública assentada na honradez de caráter e na certeza da universalidade de princípios morais inalienáveis. Era, todavia, contra esse modus vivendi de culto e reverência imitativa dos valores clássicos que se batiam os céticos, na ânsia de transcender seus princípios relativistas, estendendo suas pretensões até o campo ético e moral.
O fato era que a luta pelo poder e sua manutenção se constituía no centro da política na transição do mundo que caminhava para o pragmatismo e o materialismo, nos quais as divagações de cunho idealistas ou morais perdiam espaço frente aos interesses objetivos e concretos. A realidade se inclinava aos novos e práticos valores – ou ausência destes – onde a manipulação, o engodo e a intimidação se constituíam nos instrumentos da sobrevivência política. Para Tuck,64 um dos grandes teóricos dessa nova atitude foi o holandês Lipsius, que expressava esse sentir cético tanto na política quanto no campo moral, ao defender a ideia de que a honra e a moralidade tinham desaparecido.65 Este modo de pensar teve sérias consequências ao abalar as certezas em que se equilibrava o mundo até então.
63
TUCK, 2001, p. 23. 64
Ibid., p. 19.
65LIPSIUS, Justo (1547-1606). Foi um filólogo e humanista flamengo. É considerado um dos eruditos mais fa - mosos do século XVI, autor de uma série de obras que pretendiam recuperar a antiga corrente filosófica co - nhecida como estoicismo. Influenciou grande número de seus contemporâneos intelectuais, dando lugar ao movimento conhecido como neo-estoicismo.
Outra característica desse questionamento de valores foi, sem dúvida, uma vasta produção de cunho ateísta decorrente, dentre outros fatores, das lutas fratricidas que estavam sendo travadas em nome da religião. Sobre esta temática lançaremos apenas um breve olhar, no entanto sem deixar de registrar que a Hobbes não passou despercebido sua importância e reflexos. Não é à toa que em sua tradução para o inglês da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, lançada em 1629, “na introdução ao livro, ele tenha louvado Lipsius”.66
O grau de envolvimento de Hobbes nestes temas céticos ou de cunho religioso, conforme apresentados na década de 1630, contudo, é um tanto quanto obscuro e comporta divergentes olhares. Alguns autores defendem que estes princípios tenham marcado, indelevelmente, sua obra, outros, contudo, atestam que ele tenha tomado esta questão como um fato dado e não chega a colocar sob investigação seus fundamentos. Partindo desse último pressuposto, ele se propõe a apresentar uma tentativa de resposta ao desafio colocado pelos mesmos, ou seja, a possibilidade de uma ciência assentada em novas bases.
Tuck, ao descrever os últimos momentos de vida de Hobbes, declara que ele “parece de fato ter morrido em larga medida como viveu: um espirituoso e cético humanista”.67 Sem questionar esta afirmativa, nos interessa frisar que, a partir do contato e dos embates que se envolvera tendo o humanismo como pano de fundo, Hobbes parece se afastar deste modelo68 e, ao tomar gosto pela ciência moderna nascente, ele passa a ter um projeto, o qual não é nada modesto: escrever uma física, uma ética e uma política, baseadas nos novos métodos, na sua concepção, seguros e válidos.
Finalizando a argumentação acerca da influencia da cultura do humanismo moderno à qual Hobbes se incorporara, é interessante frisar que, segundo alguns autores, com destaque para Tuck, esta marca o acompanhará sempre:
Permaneceria importante para ele pelo resto da vida, ainda que, ele se tenha distanciado de muitos de seus elementos específicos, em particular de sua receptividade ao republicanismo clássico. Num dado sentido, o trabalho de sua vida, ao menos na teoria política, pode ser lido como uma transformação dessa cultura (o humanismo) a partir de dentro: aquilo que para Lipsius e Montaigne era um princípio inelutável e natural do comportamento humano, a autopreservação, torna-se para Hobbes o direito fundamental sobre o qual se pode erigir um novo tipo de ética. No entanto, ele se dedicou a esse empreendimento somente depois de assimilar um tipo de cultura intelectual sobremodo distinta, em que o estudo da 66
TUCK, 2001, p. 24. 67
Ibid., p. 56.
68SKINNER, 1999, p. 18-19. Após um afastamento do humanismo expresso nas obras Elementos de lei natural
e política e no De Civi, ambas do início da década de 1640, Hobbes, no Leviatã (1651) “endossa então, em
grande medida, a análise humanista das relações entre a razão e a retórica, que antes procurara contestar e su - perar”. Parece evidente que a herança humanista em Hobbes não será jamais superada.
metafísica e da física tinha um papel muito mais proeminente do que tivera nos ciclos humanistas de sua juventude.69
A herança do humanismo na vida de Hobbes estará presente ao longo de sua extensa obra, ora sendo confrontada – acentuadamente a retórica humanista – ora se utilizando deste método a fim de fundamentar suas ideias e desacreditar seus contraditores. Da herança humanista, pelo apresentado, Hobbes nunca estará plenamente liberto, como veremos em exposições futuras, ao longo desta dissertação.
CAPÍTULO II