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5 Empiri

5.2 Bøndenes fortellinger

5.2.1 Forhandlinger, premisser og vurderinger

O trabalho ocupa um lugar de destaque no desenvolvimento humano e, enquanto função psíquica, configura-se como um dos grandes alicerces de constituição do sujeito e de sua rede de significados. Processos de gratificação, reconhecimento e inteligência estão relacionados à realização do trabalho e ligados à constituição da identidade e da subjetividade humana. (LANCMAN; SZNELWAR apud FLACH, 2004).

A discussão sobre a saúde do trabalhador pressupõe a compreensão das diferentes formas de abordar o conceito de saúde. Ao longo dos anos, a ideia de saúde passou por diferentes definições, incorporando elementos que ampliaram sua análise e trouxeram à tona a discussão sobre as características relacionadas ao contexto do indivíduo e à sua interação com o ambiente. Dessa forma, este capítulo pretende discutir a transformação do conceito de saúde e suas implicações para o desenvolvimento humano no âmbito do trabalho.

A relação entre o trabalho e o processo de saúde sempre foi uma preocupação da sociedade, no entanto, foi com o advento da Revolução Industrial, na passagem para o século XIX, que as atenções voltaram-se ao tema de forma mais enfática. A partir desse período, as transformações no processo de trabalho resultaram em jornadas extensas da atividade profissional, em condições penosas, desconfortáveis e insalubres, revelando um ambiente propício à proliferação de acidentes graves e fatais, além do envelhecimento precoce, alterações de comportamento e doenças, e elevação das taxas de morbidade e mortalidade. (MINAYO-GOMES; THEDIM-COSTA, 1997).

Nesse contexto, o paradigma da Medicina do Trabalho foi introduzido nas fábricas com a intenção de intervir na diminuição de tais agravos, porém, com o advento da II Guerra Mundial e o aumento da morbimortalidade por acidentes e doenças do trabalho, ambos resultantes da exigência por maior produção, esse modelo tornou-se incapaz de responder ao desafio inicialmente proposto. Surgiu, então, nessa época, o modelo da Saúde Ocupacional, o qual representou um avanço em relação à Medicina do Trabalho, por incorporar a teoria da multicausalidade7 e atuar por meio de equipes multi e interdisciplinares. Contudo, apesar do avanço, sua atenção é voltada para os agentes de risco e sem contextualizar suas causas originais. (BRAGA et al., 2001).

A partir dos movimentos sociais e políticos deflagrados na década de 60 nos países industrializados, uma nova proposta denominada Saúde do Trabalhador abandona o conceito

de doença causada pelo risco ou fatores de risco, e passa a considerar o processo saúde/doença à luz dos determinantes sociais, como algo dinâmico e condicionado por um momento social, político e histórico marcado principalmente pela participação dos trabalhadores nas questões de saúde. (MARTINEZ, 2002).

No Brasil, essa compreensão sobre a área da Saúde do Trabalhador chegou na década de 80, traduzindo-se em prática interdisciplinar e multiprofissional, com especial atenção ao contexto geral do trabalho e sua organização. (MINAYO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997). Na ocasião, a 8º Conferência Nacional de Saúde foi um marco importante para fomentar a nova concepção no país, ao tratar a saúde como sendo o resultado de condições concretas de um dado momento histórico.

Assim, a dimensão biológica perdeu seu lugar de hegemonia na explicação do indivíduo e seu processo de adoecimento, e a saúde passou a ser considerada como “resultado de interações dinâmicas e complexas determinadas pelos domínios sociais, mentais, históricos e políticos, onde o trabalho tem caráter central”. (MARTINEZ, 2002, p. 46).

Do ponto de vista da Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde é definida como o completo estado de bem estar físico, mental e social, e não apenas ausência de doença ou enfermidade. Observa-se nessa definição que, embora amplie o conceito para além da doença, a mesma apresenta uma concepção idealizada do tema diante dos desafios cotidianos na área.

Sobre isso, Dejours (1986) e Caponi (1997), discutem a dificuldade de se definir o “estado de bem estar”, em razão do seu caráter subjetivo, bem como de seu significado bastante impreciso e vago.

Mesmo numa visão de saúde que se restrinja apenas ao âmbito do biológico, a expressão dos sintomas pelo indivíduo, do que sente, do que percebe como manifestação em si, estará, sempre, carregada da sua subjetividade, da sua forma de perceber e sentir que é ou pode ser diferente do que é sentido e percebido por outro indivíduo. (LUNARDI, 1999, p. 28).

Segundo Dejours (1986), o trabalho tem um caráter central na saúde do trabalhador, a qual, por sua vez, depende de meios para se traçar um caminho livre e original em direção ao bem estar físico, psíquico e social. Desse modo, parece importante ressaltar que o trabalho, apesar do sofrimento, também “pode levar a uma vivência de prazer, ao representar a possibilidade de o trabalhador afirmar-se como sujeito do trabalho e construir novas formas de ser”. (FLACH, et al. 2009).

Para atingir o bem estar físico, psíquico e social, a pessoa depende respectivamente de: liberdade para regular as variações que acontecem no organismo (dormir, repousar, comer, etc.); liberdade para organizar a própria vida segundo o desejo de cada um; e liberdade para

agir de forma individual e coletiva sobre a organização do trabalho (conteúdo do trabalho, divisão de tarefas, divisão dos homens e relações entre si). (DEJOURS apud MARTINEZ, 2002).

A Psicopatologia do Trabalho e as pesquisas sobre a resiliência no trabalho humano apresentam pontos em comum: ambas propõem um referencial de compreensão dos fatores de risco a que estão sujeitos os trabalhadores, assim como investigam, cada uma a seu modo, os elementos que estão presentes ou podem ser desenvolvidos para lidar com o sofrimento.

A ideia de saúde, tanto na perspectiva da Psicopatologia do Trabalho quanto dos estudos de resiliência, não consiste na inexistência de patologias. No nível psíquico, saúde não é sinônimo, por exemplo, de ausência de angústia e “há pessoas que, embora angustiadas, encontram-se em perfeita saúde”. (DEJOURS, 1986 p.).

Ao procurar ampliar a compreensão da relação entre as questões atuais do trabalho humano, suas rupturas e a resiliência, remete-se ao que Dejours (1986) e Abdoucheli (1994) apresentam como formas distintas de sofrimento geradas pelo trabalho humano: o patogênico e o criativo.

Segundo tais autores, o sofrimento patogênico manifesta-se quando todas as margens de liberdade na transformação, gestão e aperfeiçoamento da organização do trabalho já foram utilizadas pelo indivíduo, sendo que a etiologia dessa psicopatologia tem sua origem nas pressões do trabalho que comprometem o seu equilíbrio psíquico e a sua saúde mental. (RODRIGUES et al., 2006).

Por outro lado, o sofrimento criativo pode trazer benefícios à identidade, na medida em que aumenta a resistência do sujeito ao risco de desestabilização psíquica e somática; assim, nesse último caso, o trabalho funciona como mediador para a saúde. (DEJOURS; ABDOUCHELI, 1994).

De acordo com Rodrigues et al. (2006), a maioria dos trabalhadores não consegue preservar um equilíbrio psíquico e manter-se saudável, de modo que a exceção passou a ser a regra, ou seja, o que antes era sofrimento hoje passou a ser uma condição “habitual” do cotidiano profissional. A partir dessa constatação, as investigações na área da Psicopatologia do Trabalho centraram-se não mais na direção das doenças mentais, mas nas estratégias elaboradas pelos trabalhadores para enfrentarem, mentalmente, a situação de trabalho - fato que guarda estreita relação com o propósito desta pesquisa.

Nessa busca, o simples território físico do trabalho não parece suficiente para explicar toda a circunstância que envolve o bem estar do profissional. Com a diminuição das

distâncias, quer seja em função do fenômeno da globalização atual e/ou do aperfeiçoamento da tecnologia, a relação entre a vida pessoal e profissional parece cada vez mais próxima.

Desde o final do século XX, a partir da década de 80, alguns estudos passaram a considerar a relação entre trabalho e vida familiar como um fator desencadeante de problemas que, embora inicialmente restritos a uma dimensão individual, ligada ao trabalhador, logo se expandiam para outras dimensões, como a família e a sociedade. (ANDRADE, 2011). Nesse caso específico, o autor aponta que a gestão das obrigações familiares e profissionais acaba por gerar um conflito de papéis que trazem à tona questões de gênero e funções sociais estabelecidas.

Edwards e Rotrhbard, citados por Andrade (2011), nomearam três tipos de conflito que podem ocorrer na relação entre trabalho e família: 1) tempo; 2) pressão; e 3) comportamento. O conflito baseado no tempo surge quando os indivíduos consideram insuficiente o tempo disponível para o cumprimento satisfatório das obrigações associadas a cada um dos papéis, o que acaba gerando sentimentos de esgotamento ou sobrecarga. Quanto à pressão, ela ocorre quando a insatisfação no exercício de um papel dificulta a resposta às exigências de outra função, culminando em sentimento de falta de energia ou desmotivação para responder às exigências do papel familiar, por exemplo. Por fim, o conflito comportamental acontece quando o comportamento aprendido em qualquer um dos ambientes não produz resultados satisfatórios em outro, sendo, portanto, disfuncional, sem nenhuma validade no outro contexto.

Em síntese, pode constatar-se que os efeitos do conflito de papéis não só se manifestam ao nível do desempenho dos próprios papéis, como podem ter consequências ao nível do bem-estar individual, no desempenho desses papéis e ainda ao nível da vida da família em geral e dos filhos em particular. (ANDRADE, 2011, p. 46)

Desse modo, como a saúde e o trabalho estão diretamente relacionados e influenciam- se mutuamente, a apreensão do sentido e do significado dessa relação para o profissional depende de uma análise contextualizada que considere as várias instâncias de influência sobre o indivíduo e o local onde o mesmo desenvolve o seu trabalho.